O governo Lula conclui a sua gestão com uma estrutura ministerial distante do desenho inicial de 37 ministérios anunciado no começo de 2023, quando o objetivo do primeiro escalão era garantir uma ampla base de apoio no Congresso Nacional.
Na montagem inicial, a gestão acomodou nas pastas ministeriais partidos de centro e centro-direita, como União Brasil, MDB, PSD e Progressistas (PP).
O PT foi a legenda que esteve à frente do maior número de ministérios: Casa Civil, Ministério da Fazenda, Ministério da Educação, Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério do Trabalho, Secretaria de Comunicação Social, Secretaria de Relações Institucionais e Secretaria-Geral da Presidência da República.
A âncora fiscal

À frente do Ministério do Planejamento, Simone Tebet viu as metas do Arcabouço Fiscal sofrerem pressões com a ampliação de programas sociais como o Pé-de-Meia e o Gás do Povo (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)
O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ficou à frente de três pastas: Planejamento e Orçamento, com Simone Tebet; Transportes, comandado por Renan Filho; e Cidades, sob a gestão de Jader Filho.
A ex-ministra Simone Tebet (PSB), que disputa uma vaga no Senado, dirigiu o Ministério do Planejamento e Orçamento. Durante sua gestão, sua imagem foi utilizada para transmitir sinalização de responsabilidade em relação à âncora fiscal. No entanto, a consolidação dessa meta foi marcada por divergências internas e por flexibilizações para viabilizar programas populares após a aprovação do Arcabouço Fiscal.
Em busca de ampliar a popularidade, o governo operou medidas com impacto orçamentário fora da meta primária, como o Desenrola Brasil, o Gás do Povo e o programa Pé-de-Meia.
O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que o governo adéque o financiamento do Pé-de-Meia às regras fiscais e suspendeu, em janeiro de 2025, o repasse de R$ 6 bilhões, apontando que parcela dos recursos vinha do Fgeduc e do FGO fora do orçamento oficial. Além disso, a auditoria identificou mais de 2 mil casos de pagamentos irregulares a beneficiários fora dos critérios do programa.
O endividamento das famílias cresceu a uma taxa de 82% no primeiro semestre de 2026, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Para tentar conter o cenário, o governo criou um programa de renegociação de dívidas com aporte de fundos públicos como o Fundo de Garantia de Operações, gerando uma estimativa de subsídios na casa dos R$ 8 bilhões. Já o programa Gás do Povo gerou um custo anual próximo de R$ 5,1 bilhões.
Afastamento do União e do Progressistas

Ciro Nogueira pediu a saída de André Fufuca do Ministério do Esporte, mas o ministro recusou o pedido e foi punido pelo líder partidário (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Diante do aumento das pressões políticas, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e o senador Ciro Nogueira, líder do Progressistas, passaram a defender o desembarque de suas legendas e o retorno dos filiados à base partidária.
A crise no União se intensificou após investigações da Polícia Federal sobre supostos desvios de emendas parlamentares para o Maranhão, envolvendo o então ministro das Comunicações, Juscelino Filho (PSDB-MA).
Com a permanência do ministro inviabilizada, o Palácio do Planalto tentou indicar o líder do partido na Câmara, Pedro Lucas, para o comando da pasta, mas o parlamentar recusou. O desgaste gerou pressão para que o então ministro do Turismo, Celso Sabino (União-PA), também deixasse o cargo. Diante da recusa de Sabino em pedir demissão, a direção partidária aprovou sua expulsão.
No Progressistas, Ciro Nogueira determinou a entrega dos cargos ocupados pela indicação da legenda. André Fufuca, que comandava o Ministério do Esporte, optou por permanecer na pasta e, como punição, foi afastado da vice-presidência nacional do partido.
Como ficou o PDT e o INSS

Carlos Lupi deixa o cargo de ministro da Previdência após sucessivos escândalos envolvendo fraudes no INSS, em maio de 2025 (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)
A participação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) foi protagonizada por dois nomes que tinham atuação direta na gestão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, assumiu o Ministério da Previdência Social em janeiro de 2023 e deixou a pasta em maio de 2025, após a crise envolvendo fraudes e descontos ilegais nas folhas de aposentados e pensionistas. Ele pediu demissão diante das pressões que apontavam omissão, indicando que o ex-ministro já havia sido alertado sobre as irregularidades ainda em 2023.
Antes da saída de Lupi, o presidente Lula demitiu Alessandro Stefanutto, também filiado ao PDT, que havia sido indicado pelo próprio Lupi para a presidência do instituto.
Taxa das blusinhas no colo da Fazenda

Medida pelo fim da cobrança do imposto cai após tratativas durante a semana de esforço concentrado no Congresso Nacional (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
Embora o governo federal não tenha conseguido comunicar com clareza nas redes sociais a intenção de igualar a tributação entre a indústria nacional e o varejo estrangeiro — ao fim da isenção fiscal para compras de até US$ 50 entre pessoas físicas —, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criou o Remessa Conforme para formalizar as empresas de e-commerce internacional.
Entidades do setor produtivo nacional pressionaram deputados e senadores, alegando que a ausência de tributação sobre as compras internacionais reduzia a competitividade do mercado interno e colocava em risco postos de trabalho no país.
A oposição, por sua vez, conseguiu atribuir ao governo a responsabilidade pela inclusão de um "jabuti" no texto do Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), prevendo a cobrança do imposto sobre as compras internacionais, o que gerou impopularidade. O texto acabou aprovado e sancionado pelo Presidente da República.
Após dois anos de vigência, a medida foi revogada por meio de uma medida provisória aprovada durante o esforço concentrado no Congresso.
No primeiro ano de aplicação da taxa, entre agosto e dezembro, o governo arrecadou cerca de R$ 175 milhões. Em 2025, o montante atingiu R$ 5 bilhões. Em 2026, até o momento da revogação, a arrecadação somou cerca de R$ 1,8 bilhão.
Crise nos Correios
A triagem e a entrega de correspondências e encomendas figuravam entre as principais fontes de faturamento dos Correios. Com a queda na entrada de pacotes internacionais provocada pela cobrança do imposto, as plataformas de e-commerce passaram a diversificar as transportadoras privadas contratadas para realizar as entregas.
Em 2023, antes do início do Remessa Conforme, a estatal captava 22% de toda a receita do segmento de encomendas. Em 2025, esse percentual caiu para 7,8%.
A implementação da taxa resultou em uma perda de receita estimada em R$ 2,2 bilhões para a empresa pública. O volume de encomendas internacionais, que era de 21 milhões de pacotes mensais, despencou para 3 milhões no primeiro mês após a entrada em vigor do imposto.
Em 2024, os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 2,6 bilhões. O cenário da estatal se agravou em 2025, com um déficit de R$ 8,5 bilhões, enquanto no primeiro semestre de 2026 a dívida estimada já atinge R$ 5,5 bilhões.
Lula e o Legislativo
O Senado recusou a indicação de Jorge Messias, Advogado-Geral da União, indicado por Lula para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. O episódio provocou uma crise institucional entre o Executivo e o Legislativo.
Por 42 votos contrários e 34 a favor, o Plenário do Senado rejeitou a indicação — fato que não ocorria desde 1984. A situação expôs a fragilidade na relação de Lula com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que ficou meses sem discutir as prioridades de votação do Governo Federal.
Somente em agosto, Lula retomou o diálogo com o presidente da Casa, incluindo na pauta projetos considerados prioritários para a gestão, como a PEC da Segurança Pública e o fim da escala 6x1, além do avanço da medida provisória que põe fim à cobrança do imposto sobre compras internacionais de até US$ 50. Embora deseje reapresentar Messias, Lula ainda não deu sinalizações definitivas, deixando a discussão do tema para depois do primeiro turno.
O Banco Master

Crise no Banco Master desgasta a campanha de Lula após a PF evidenciar ligações entre investigados e políticos da base do governo (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
A crise envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro teve início no Congresso Nacional durante os trabalhos da CPMI do INSS, que expôs relações políticas entre o ex-CEO Augusto Lima e Vorcaro.
Mensagens reveladas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero evidenciam um possível favorecimento ao ex-líder do governo no Senado, o senador Jaques Wagner (PT-BA).
As conversas trocadas com Augusto Lima expõem tratativas sobre supostos presentes de valor destinados ao senador em troca de atuações legislativas favoráveis aos interesses do banco, além da suposta aquisição de um imóvel avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador.
Crise no STF e Lulinha
O caso respingou também no filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A Polícia Federal passou a investigar suposto tráfico de influência envolvendo a empresária Roberta Luchsinger em três inquéritos que apuram interferências para favorecer empresas. Com o calendário eleitoral afunilando para outubro, Lula tenta se desassociar da crise.
O desgaste para o governo aumentou após virem à tona novos elementos sobre um pedido de empréstimo feito a Luchsinger pelo então chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que passou a ser investigado por suspeita de tráfico de influência. Após a revelação, Marcola deixou a campanha do presidente da República.
A crise institucional envolvendo o STF e a Polícia Federal ganhou novos desdobramentos após a divulgação de relatórios da PF que revelaram mensagens de Daniel Vorcaro direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes, nas quais se citava a possibilidade de interferência junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
A oposição passou a explorar o episódio politicamente, articulando discursos sob os motes "Fora Lula" e "Fora Moraes". Nessa linha, os adversários associam a crise no Judiciário a críticas à gestão federal — como o aumento de impostos, a perda do poder de compra das famílias e pautas de costumes — para reforçar a pregação pelo fim do governo.
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