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Justiça

Caso Master: Diretor do BC detalha como Daniel Vorcaro corrompeu servidores do órgão

BC diz à PF que ocorriam vazamentos de informações sigilosas e suspeita que servidores privilegiavam Daniel Vorcaro

Caso Master: Diretor do BC detalha como Daniel Vorcaro corrompeu servidores do órgão

O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou em depoimento à Polícia Federal que a conduta de dois servidores do banco, Paulo Sérgio e Bellini Santana, levantava a suspeita de que eles teriam recebido vantagens em troca do repasse de informações do setor ao ex-banqueiro do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Ambos, que ocupavam cargos de chefia no setor de fiscalização, negam qualquer favorecimento ilícito. Paulo ocupava o cargo de chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do BC.

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O BC abriu um procedimento administrativo para afastar os servidores e prestou informações à Polícia Federal sobre o vazamento de dados a Vorcaro. A autarquia relatou ainda que o ambiente interno — tanto para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, quanto para o próprio diretor — havia se tornado “hostil” a partir do momento em que passaram a suspeitar da conduta dos funcionários e de “vazamentos sistemáticos de informações internas do Bacen”.

Como medida de cautela, o BC mantém sigilo sobre as informações relativas à liquidação do Master até 2033. A justificativa apresentada no processo, quatro meses atrás, foi a de que parte dos dados apurados envolve procedimentos de fiscalização do banco que ainda estão em andamento.

Servidores do BC e Daniel Vorcaro

Aquino tinha ciência de que os dois funcionários mantinham contato com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, embora seja comum a interlocução de banqueiros com o BC para agilizar a troca de informações fiscalizatórias.

A Polícia Federal identificou que os servidores privilegiavam o empresário com dados antecipados, alertando-o sobre questionamentos da fiscalização a Vorcaro e auxiliando na elaboração de suas respostas.

O diretor disse à PF que informou Gabriel Galípolo sobre o possível recebimento de propina pelos funcionários. Aquino realizou uma reunião com Bellini para obter esclarecimentos sobre sua ligação com Vorcaro. Na ocasião, Bellini confirmou ter prestado uma consultoria de R$ 2 milhões para o empresário Leonardo Palhares — sócio de fundos do Master.

O outro servidor, Paulo, declarou que vendeu um imóvel por R$ 4,5 milhões para uma pessoa ligada ao ex-banqueiro, mas, segundo sua defesa, não recebeu nenhum tipo de vantagem indevida por parte de Vorcaro.

Venda do Fictor

Aquino relatou ainda que Daniel Vorcaro insistia em realizar uma reunião com a equipe de fiscalização do Banco Central para tratar da operação de venda do Master ao grupo Fictor, no contexto de um consórcio com investidores árabes. Os dois servidores suspeitos participaram desse encontro, realizado em novembro — coincidindo com o mesmo dia em que Vorcaro acabou sendo preso.

Gabriel Galípolo e Aquino já haviam discutido a liquidação do Master e temiam que essa decisão vazasse previamente. Por essa razão, o presidente e o diretor optaram por não comunicar a medida aos servidores.

O CEO do Fictor, Rafael de Góis, foi diretamente atingido pelos desdobramentos da Operação Compliance Zero. No mesmo mês da prisão de Vorcaro, o empresário havia anunciado a intenção de adquirir o Banco Master, pouco antes de decretada a liquidação extrajudicial.

A aquisição envolvia investidores internacionais, mas, após o avanço das investigações e a eclosão da crise, a empresa passou a ser vista com desconfiança pelo mercado, sofrendo forte perda de credibilidade.

A compra do Master visava migrar captações de Sociedades em Conta de Participação (SCP) para produtos bancários tradicionais, como Certificados de Depósito Bancário (CDB), protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Em fevereiro deste ano, o grupo Fictor apresentou pedido de recuperação judicial para as holdings Fictor Holding e Fictor Invest.

Nubank

Em outro trecho da investigação, foi revelado que os servidores tentaram intermediar a venda da Letsbank — instituição de crédito e câmbio do grupo Master — ao Nubank, que recusou a proposta em 2024.

Os investigadores enfatizam que não há qualquer suspeita de envolvimento ou irregularidade por parte do Nubank no caso Daniel Vorcaro.

O Master tentou realizar essa operação em meio a crescentes dificuldades financeiras que culminaram na liquidação extrajudicial.

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, mensagens obtidas pela PF mostram que Paulo Sérgio usava suas funções no BC para auxiliar nas tratativas de venda de ativos do Master. Para a PF, o servidor atuava intermediando interesses comerciais diretos de Vorcaro.

“Falha grotesca”

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, classificou o episódio envolvendo os servidores da área de fiscalização como uma “falha grotesca” na aplicação da regulação financeira.

O economista também tratou das fragilidades no modelo do FGC. As garantias prestadas pelo fundo permitiram ao Banco Master captar recursos a custo reduzido, o que levanta questionamentos sobre se os mecanismos de proteção do sistema financeiro estão sendo devidamente supervisionados.

Durante evento do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), Armínio sugeriu que o país adote uma regulação baseada em objetivos, fortalecendo a supervisão preventiva e reduzindo vulnerabilidades no sistema financeiro nacional.

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