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Política

As conexões e suspeitas da Rockbridge Brasil

Grupo conservador dos EUA vira alvo de suspeita após reportagens revelarem plano de atuação no Brasil e pré-candidatos apontarem suposto favorecimento à campanha de Flávio Bolsonaro.

As conexões e suspeitas da Rockbridge Brasil
O projeto foi interrompido em maio, antes do período eleitoral Fernando Frazão/Agência Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nega o recebimento de investimentos da Rockbridge Network, grupo conservador criado em 2019 por apoiadores do Partido Republicano, nos Estados Unidos, em sua campanha eleitoral.

Acontece que a Rockbridge passou a ser alvo de questionamentos sobre uma suposta intervenção nas eleições por meio de auxílio financeiro à campanha do político, que disputa o cargo de presidente da República.

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O grupo fez o registro de uma empresa com a intenção de atuar no Brasil e tinha a estratégia de formar lideranças políticas no território nacional. Ocorre que, em meio ao processo eleitoral, o projeto foi interrompido.

A entidade jurídica Rockbridge Brazil LLC, conforme apurou a Folha de S.Paulo, que teve acesso ao material que aponta indícios para construir a relação com o Brasil, foi aberta em maio deste ano em Wyoming, nos Estados Unidos.

O responsável por gerenciar esse escritório é Chris Applegate, assessor do vice-presidente dos EUA, JD Vance. Ele ocupa a função equivalente à de um advogado ou despachante do grupo e, conforme a legislação do estado em que a empresa foi criada, não há exigência de que o proprietário seja nominalmente registrado.

O Brasilianista procurou o senador Flávio Bolsonaro para comentar a respeito do assunto e as acusações que o relacionam ao grupo norte-americano, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.

O Documento 

A proposta, dividida em duas categorias, possibilita dois tipos de membros na Rockbridge: os Keystones e os Visionary. A primeira categoria previa o pagamento de US$ 500 mil, enquanto o segundo pacote custaria US$ 1 milhão.

As formas de pagamento habilitadas eram diversas, incluindo moeda americana, criptomoedas e ações de empresas. O direcionamento destes recursos deveria ser feito para a Rockbridge Brazil.

Ao efetuar o pagamento, os membros teriam acesso a encontros, videoconferências e conferências anuais. Quem pagasse mais teria o direito de ocupar uma vaga no conselho da unidade brasileira e acesso a redes de networking exclusivas com empresários e políticos potencialmente doadores.

Infraestrutura

Em relação à sua atuação no Brasil, o documento cita que a estrutura funcionaria como um fundo de venture capital político, direcionando investimentos para a infraestrutura social e midiática conservadora brasileira.

A ideia, de acordo com o documento, era organizar o braço político e social, sendo a Rockbridge a porta de entrada para essa iniciativa de financiamento.

Na prática, a mídia seria organizada com o auxílio de veículos de comunicação conservadores. A outra frente de atuação seria a formação de jovens por meio de financiamento acadêmico, além de subsidiar políticos de direita com pesquisas.

O que é a Rockbridge

Fundada com a participação de JD Vance, a organização reúne empresários do Vale do Silício para financiar candidaturas e projetos de poder que defendem pautas de direita alinhadas ao presidente Donald Trump, como a agenda MAGA (Make America Great Again).

Entre os investidores, estão Peter Thiel, empresário e fundador do PayPal e da Palantir Technologies; Rebekah Mercer, ex-vice-presidente da Renaissance Technologies; Joe Lonsdale, que cofundou a Palantir Technologies e criou a 8VC; e o empresário e ex-executivo do Bank of America Merrill Lynch, Omeed Malik.

Ao The Intercept, a organização negou a existência de uma unidade oficial no Brasil. Uma porta-voz informou ter recebido a proposta de ao menos dois empresários brasileiros para construir laços entre os EUA e o Brasil, com o interesse de abrir uma filial no país, mas sustentou que o elo não foi formalizado entre as partes.

A organização disse ainda que tem sido vítima da criação de documentos falsos de representação ou referências sem o consentimento da empresa. Informou também que o intuito da Rockbridge é estritamente voltado para networking e não possui ligação política direta.

Conselho de Tecnologia

Em outro documento, endereçado a Flávio Bolsonaro, uma apresentação intitulada “Conselho de Tecnologia: o Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional” informava sobre a corrida pela disputa tecnológica com a China e o possível alinhamento de empresários brasileiros com os Estados Unidos.

O documento descrevia a criação de um conselho privado e independente, reunindo grandes nomes da tecnologia para fomentar o desenvolvimento do setor no Brasil. A estimativa era causar um impacto superior a US$ 100 bilhões ao longo de 10 anos, além de gerar novos postos de trabalho em áreas estratégicas como mineração, energia e tecnologia.

A proposta incluía 19 integrantes estrangeiros e quatro brasileiros neste conselho: Tallis Gomes, da G4 Educação e associado da Rockbridge; o fundador da Casa dos Ventos, Mario Araripe; o dono da PAX AI, David Peixoto; e o CEO da Rockbridge Brasil, sendo apresentado o nome de Pedro Sang.

A iniciativa está suspensa desde maio. Parte dos nomes citados demonstrou interesse pela proposta, reforçando que o projeto não saiu do papel e que não há registro formal por parte dos brasileiros. David Peixoto, por exemplo, informou por meio de sua assessoria que não havia recebido convite formal para integrar o conselho.

Campanha

A suspeita levantada pelo pré-candidato Renan Santos (Missão) e levada ao Tribunal Superior Eleitoral por meio de representação do Partido dos Trabalhadores (PT) é que apoiadores do governo Trump tenham utilizado redes e estruturas para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro.

A campanha de Flávio nega o recebimento de recursos de financiamento internacional, bem como qualquer tipo de manipulação do debate público para afetar as eleições.

De acordo com a Lei das Eleições (artigos nº 24 e 31) e a Resolução 23.607/2019 do TSE, é vedado o uso de recursos provenientes do exterior para beneficiar candidatos, impulsionar conteúdos ou produzir publicidade por meio de estruturas internacionais.

Flávio Dino

Flávio Bolsonaro tem sido alvo de decisões desfavoráveis no meio jurídico, inclusive com desfechos favoráveis à campanha petista. A principal estratégia do PT tem sido recorrer a ações no Supremo Tribunal Federal (STF).

O ministro Flávio Dino apresentou uma decisão liminar no decorrer desta semana, mas, após a campanha de Flávio recorrer ao ministro Luiz Fux e conseguir sustar a determinação de Dino, obteve o retorno da veiculação sobre Nossa Senhora Aparecida.

Entre outros embates, Dino deu aval para que a Polícia Federal (PF) tivesse acesso às apurações da Polícia Civil de São Paulo a respeito do Fundo Havengate e a utilização do dinheiro para a produção de conteúdos. A PF investiga como esse montante foi utilizado e se houve uso indevido por parte de Eduardo Bolsonaro, já que o valor envolve doações de Daniel Vorcaro e o auxílio de Antonio Carlos Freixo Junior, proprietário da Entre Investimentos.

Agora, o PT pede ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a apuração do suposto uso de recursos ou de estrutura estrangeira para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro e influenciar o processo eleitoral. A representação solicita, inclusive, esclarecimentos de Tallis Gomes, citado na cúpula de tecnologia, e de Renan Santos para a apresentação de documentos que comprovem eventual tipo de intervenção. A ação foi movida contra Flávio Bolsonaro, seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL), e o deputado Eduardo Bolsonaro.

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