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Geopolítica

O motivo do interesse de Trump nas terras brasileiras

Projeto de terras raras em Minas Gerais entrou na cadeia de uma empresa financiada por fundo de Donald Trump Jr.

Interesse de Trump nas terras brasileiras
Minerais estratégicos se somam a investimentos e interesses de aliados do presidente americano no Brasil Foto: creative commons

O interesse do entorno de Donald Trump pelo Brasil ganhou uma nova frente nas terras raras de Minas Gerais.

A Meteoric Resources, responsável pelo Projeto Caldeira, entre Poços de Caldas, Caldas e Andradas, já enviou amostras de minerais para testes da canadense Ucore Rare Metals, que negocia fornecer matéria-prima para a Vulcan Elements.

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A fabricante americana de ímãs recebeu investimentos da 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr. é sócio.

A cadeia ajuda a explicar por que os minerais brasileiros passaram a despertar atenção crescente nos Estados Unidos.

O plano começa com a extração e produção de carbonato misto de terras raras em Minas, passa pelo processamento da Ucore na Louisiana e termina na fábrica da Vulcan, na Carolina do Norte, onde os elementos seriam transformados em ímãs usados em drones, satélites, semicondutores, veículos elétricos e equipamentos militares.

O acordo prevê que ao menos 3 mil toneladas anuais saiam do projeto mineiro para processamento nos Estados Unidos.

Terras raras brasileiras

O tamanho do interesse está diretamente relacionado à disputa pela cadeia global de minerais críticos.

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas conhecidas de terras raras, aproximadamente 23% do total mundial, atrás apenas da China.

Já os Estados Unidos detêm uma parcela bem menor das reservas e tentam ampliar fornecedores para reduzir a dependência chinesa de matérias-primas e, principalmente, do processamento desses elementos.

O Projeto Caldeira é um exemplo dessa corrida. A Meteoric informa possuir 78 títulos minerários e de pesquisa em uma área de 19,2 mil hectares no sul de Minas.

A estimativa da companhia é investigar cerca de 1,6 bilhão de toneladas de material e, quando a operação comercial começar, produzir em média 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras por ano durante um período superior a duas décadas.

A mina ainda não entrou em produção comercial e depende de licenças para avançar.

A aproximação com empresas americanas antecede o atual debate político. A Meteoric assinou o primeiro memorando com a Ucore em agosto de 2024.

O elo com a família Trump surgiu no ano seguinte, quando a 1789 Capital investiu na Vulcan Elements.

Em março de 2026, Vulcan e Ucore assinaram outro memorando, e os testes com amostras já estão em andamento para um possível fornecimento comercial a partir de 2027.

A Vulcan também recebeu apoio público americano. Em 2025, o Pentágono anunciou um compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões (R$ 3,22 bilhões) para a empresa ampliar a fabricação de ímãs. 

A ProPublica identificou participação de Peter Navarro, assessor da Casa Branca e amigo de Trump Jr., na tentativa de acelerar a análise do financiamento.

A 1789 Capital, Donald Trump Jr. e o Pentágono negaram que relações políticas tenham interferido na decisão.

Donald Trump Jr.

Minas Gerais não é o único ponto de contato entre empresas financiadas pela 1789 Capital e minerais brasileiros.

O fundo também investiu na Vulcan antes de a fabricante firmar um acordo com a Energy Fuels para criar uma cadeia de terras raras menos dependente da China.

A Energy Fuels controla um projeto de minerais pesados entre Prado e Caravelas, no sul da Bahia.

A própria Energy Fuels informou que as primeiras amostras destinadas à Vulcan seriam provenientes de minas dos Estados Unidos. 

A corrida americana já chegou a outro empreendimento brasileiro de maneira ainda mais direta.

Em Goiás, a Serra Verde, única operação comercial de terras raras do país, foi adquirida pela americana USA Rare Earth em uma transação financiada parcialmente pelo governo dos Estados Unidos.

Washington colocou bilhões de reais na estrutura de financiamento e garantiu compras futuras de minerais produzidos pela companhia.

Foi diante desse avanço estrangeiro que o governo Lula acelerou uma legislação específica para minerais críticos.

A lei sancionada em setembro criou mecanismos para que o governo analise mudanças de controle, cessões de direitos minerários e determinadas parcerias internacionais consideradas sensíveis.

Peter Thiel

Peter Thiel, cofundador da Palantir e um dos empresários historicamente próximos ao movimento político que levou Trump à Casa Branca, aumentou sua presença empresarial no país por meio do Founders Fund.

Em maio, o fundo liderou um aporte de US$ 100 milhões (R$ 519,2 milhões) na brasileira Enter, startup de inteligência artificial aplicada ao setor jurídico. 

A rodada avaliou a companhia em US$ 1,2 bilhão (R$ 6,24 bilhões) e transformou a empresa no primeiro unicórnio latino-americano de IA, segundo a própria Enter.

A tecnologia já é utilizada por departamentos jurídicos de companhias como Bradesco, Nubank, Mercado Livre, LATAM e Airbnb.

A presença de Thiel no Brasil foi além do aporte. Documento interno do hotel Rosewood registra pelo menos 15 hóspedes reunidos sob a identificação “Thiel Capital & Presidio One” em São Paulo, em maio deste ano.

Na mesma passagem, Thiel participou de um encontro com empresários brasileiros para discutir inteligência artificial e outros temas.

Não foi possível identificar todos os compromissos realizados pelo grupo durante a estadia.

Big techs

As empresas americanas de tecnologia formam outra frente de interesses econômicos e regulatórios no país.

Em julho, a Embaixada dos Estados Unidos procurou o deputado Aliel Machado (PV-PR), relator do projeto de regulamentação dos mercados digitais, e pediu que a votação fosse adiada.

Segundo o parlamentar, representantes diplomáticos disseram que haviam sido procurados por grandes empresas de tecnologia interessadas em ganhar mais tempo antes da análise da proposta.

Apple, Google, Microsoft e OpenAI estavam entre as companhias que já haviam mantido conversas com o relator sobre a regulamentação.

Meta, Google, Amazon, Microsoft e outras empresas poderiam ser atingidas pelas novas regras de concorrência.

A embaixada afirmou que não comenta conversas diplomáticas privadas e não revelou quais companhias solicitaram sua atuação.

A movimentação acompanha uma aproximação entre parte do setor de tecnologia americano e pautas defendidas pela administração Trump.

Meta, X e Google adotaram mudanças ou posições convergentes com a defesa de menor interferência sobre conteúdos das plataformas nos Estados Unidos, embora cada empresa tenha interesses e relações próprias com o governo americano.

No Brasil, ao mesmo tempo, enfrentam novas regras eleitorais, concorrenciais e de segurança digital.

Há ainda a SpaceX. Donald Trump declarou ter comprado em junho até US$ 50 mil (R$ 259 mil) em ações da empresa de Elon Musk, segundo documento financeiro público.

A Casa Branca afirma que os investimentos do presidente são administrados independentemente por terceiros.

A companhia controla a Starlink, que opera no Brasil e voltou a solicitar à Anatel em 2026 autorização para ampliar o uso de frequências e serviços por satélite no país.

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