Uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou emendas parlamentares com um miliciano condenado neste ano pelo envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ). O caso, revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo, ocorreu em 2023.
As tratativas, de acordo com a apuração, ocorreram por meio da secretária parlamentar Maria de Fátima, integrante da equipe do gabinete do senador.
De acordo com a Polícia Federal, a assessora entrou em contato com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, para convidá-lo para um evento do parlamentar. A reportagem aponta que a intenção da assessoria era negociar a liberação dos recursos.
Calixto na Alerj

Calixto integrou a assessoria de Domingos Brazão na AssembleiaLegislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Brazão foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após ser apontado como um dos mandantes do assassinato de Marielle Franco.
O Brasilianista procurou a assessoria do senador Flávio Bolsonaro para obter esclarecimentos sobre a relação de sua equipe orçamentária com Calixto, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
A investigação da PF ocorreu em julho de 2026 para apurar possíveis desvios de emendas parlamentares destinadas a entidades vinculadas ao ex-deputado Chiquinho Brazão e a Domingos Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCERJ) — ambos condenados pela morte da vereadora.
As emendas
Em nota enviada à imprensa, a assessoria do senador respondeu apenas que “a emenda foi destinada conforme a legislação vigente, seguindo critérios técnicos do Ministério do Esporte”.
Além disso, informou que a entidade beneficiada, após receber o recurso, apresentou nota fiscal e devolveu o montante não utilizado.
“A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”, completou a equipe do senador.
Operação Emendatio
A Polícia Federal investiga repasses de emendas parlamentares a entidades no Rio de Janeiro. Uma das instituições que se tornou alvo da apuração recebeu cerca de R$ 199 mil em emendas. Flávio Bolsonaro, no entanto, não é alvo dessa investigação.
Por intermédio de Robson Calixto e da assessoria do senador, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) recebeu recursos de emendas. Foi a partir das investigações do caso Marielle que a PF identificou indícios de desvio dessas verbas públicas.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que parte dos recursos destinados ao instituto teria sido redirecionada para pagar um escritório de advocacia pertencente aos próprios donos da entidade.
O Brasilianista também solicitou esclarecimentos ao Ifop sobre as investigações de desvio de verbas e o pagamento ao escritório, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Conversas com a secretária
As mensagens trocadas com a assessora do senador foram extraídas pela Polícia Federal do celular de Robson Calixto em março de 2024. O contato estava registrado como “Fafá Flávio Bolsonaro”, identificado pela investigação como Maria de Fátima.
Fátima teria sugerido a Calixto que procurasse Flávio para pedir a liberação das emendas e, em contrapartida, solicitou quatro ingressos para o camarote Arpoador, no Sambódromo do Rio de Janeiro, durante os desfiles do Carnaval.
Calixto recorreu a um empresário para atender ao pedido da assessora. Segundo o Estadão, ele continuou a solicitar a liberação de recursos ao gabinete do senador após o favor. As conversas ocorreram entre outubro e novembro de 2023.
Milícia e a Família Bolsonaro

A aproximação entre grupos milicianos do Rio de Janeiro e a família do senador não é recente.
Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, foi apontado pelo Ministério Público como o operador do esquema de “rachadinha” no gabinete do parlamentar na Alerj. Queiroz, que é ex-policial militar, teve movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão identificadas pelo Coaf.
Em 2020, ele foi preso na casa de um advogado ligado à família Bolsonaro, mas responde em liberdade. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Flávio e Queiroz por organização criminosa, lavagem de dinheiro e peculato.
Investigações do MPRJ também apontaram a ligação de Queiroz com milicianos da Zona Oeste do Rio, incluindo sua proximidade com Adriano da Nóbrega, o “Capitão Adriano”, apontado como chefe de um grupo de extermínio. Adriano, que esteve foragido, foi morto em operação policial em 2020. Ele também chegou a ser investigado por suspeita de envolvimento no caso Marielle.
Capitão Adriano

Capitão Adriano e Queiroz se conheceram quando serviam no 18º Batalhão da Polícia Militar.
Devido à amizade, o ex-assessor pediu a nomeação da mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e da ex-esposa do miliciano, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, no gabinete de Flávio na Alerj, sob a justificativa de que a família enfrentava dificuldades financeiras.
O ex-capitão do Bope chegou a ser homenageado na Alerj por iniciativa de Flávio Bolsonaro, recebendo a Medalha Tiradentes e moções de louvor.
Ambas as familiares do miliciano trabalharam no gabinete parlamentar. Inquéritos do MP-RJ indicam que a ex-esposa de Adriano participava do repasse de parte de seus salários para a conta de Fabrício Queiroz.
Negativa
Em 2018, quando o caso ganhou repercussão, tanto Flávio Bolsonaro quanto Fabrício Queiroz negaram as irregularidades.
O senador sempre sustentou que as denúncias eram fruto de perseguição política e que não tinha conhecimento sobre qualquer ilícito em seu gabinete.
Queiroz, por sua vez, alterou suas versões ao longo do tempo, assumindo a responsabilidade pela gestão dos salários para isentar o senador.
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