Justiça

Crise no STF: Mais problemas para André Mendonça

Mendonça foi acusado por integrantes do STF de agir politicamente ao expor Moraes e de investigar com seletividade

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Ministro foi cobrado por mais transparência na condução das investigações do Banco Master e das fraudes no INSS (Foto: STF)
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), passou a enfrentar problemas desde que levantou o sigilo de informações da Operação Compliance Zero que expuseram a proximidade entre o ministro da Corte Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master.
 
André Mendonça foi acusado por integrantes do STF de agir politicamente ao expor Moraes e de investigar com seletividade. Um relatório interno da Polícia Federal detalhou a disparidade nos tempos de autorização para buscas em investigações sob responsabilidade de Mendonça.
 
Enquanto um pedido envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA) levou nove dias para ser analisado, a solicitação de busca contra o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) demorou 74 dias.
 
A PF apontou que Castro e assessores foram vistos retirando caixas de um imóvel na véspera da ação, mas Mendonça negou um pedido de busca emergencial em maio de 2026, autorizando a medida apenas em agosto do mesmo ano.

Pressão no STF 

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Desde então, os ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, além da Procuradoria-Geral da República (PGR), passaram a cobrar Mendonça por mais transparência na condução das investigações envolvendo o Banco Master e as fraudes no INSS.
 
Mendonça justificou que parte do material ainda estava sob análise da Polícia Federal (PF), o que o impossibilitava de liberar integralmente os autos, mas acabou cedendo à nova onda de pressão e retirou o sigilo de novos trechos.
 
Paralelamente, o também ministro do STF Flávio Dino retirou o sigilo de processos sob sua alçada com informações comuns às duas ações relatadas por André Mendonça, como a apuração sobre o filme Dark Horse.
 
E Luiz Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, retirou de André Mendonça a relatoria do Caso Master e das apurações sobre as fraudes em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.  

Investigação e política

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As relações de André Mendonça também têm sido expostas. Uma delas é com Daniel Vorcaro, com que o ministro se encontrou secretamente em 2025, no instituto que era comandado pelo magistrado até a reunião vir a público.
 
André Mendonça afirmou que recebeu Vorcaro apenas para ouvi-lo sobre um processo de precatórios e que votou contra a posição defendida pelo empresário no caso em questão.
 
Mendonça também foi acusado de receber um terno de presente de pessoas ligadas ao ex-banqueiro. O ministro nega a acusação e já apresentou notas fiscais e outros comprovantes de que pagou pela roupa.

Caso Cabral 

O Castro, o Magro e o imposto
Outra relação de Mendonça que foi exposta envolve Cláudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral por compra de votos nas Eleições de 2022.
 
Castro também é investigado pela Polícia Federal por participar de reuniões convocadas por Daniel Vorcaro para degustar bebidas e charutos, além de ganhar mimos do dono do extinto Banco Master. 
 
No celular de Cláudio Castro, a PF descobriu mensagens de WhatsApp trocadas pelo ex-governador em novembro de 2022 com Mendonça. As conversas mostram Castro chamando Mendonça de "amigo" e pedindo para tratar com "urgência" sobre o "caso Cabral", referente à prisão do ex-governador Sérgio Cabral.
 
Mendonça respondeu enviando os dados do processo e indicando que ligaria em seguida. Poucos dias após o contato, o ministro devolveu o pedido de vista e votou pela soltura de Cabral, alegando excesso de prazo na prisão preventiva.

Em nota, Cláudio Castro afirmou que a conversa com Mendonça se limitou ao campo institucional e que o uso do termo "amigo" é um hábito do meio político.
 
Mendonça negou ser amigo de Castro. O ministro disse ainda que atuou estritamente com base nas informações apresentadas no processo e que é comum magistrados serem procurados por interessados no processo. 

TSE

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Ao negar sua relação com Cláudio Castro, André Mendonça salientou que, como ministro do TSE, votou pela cassação do mandato. Mas o ministro votou para manter os direitos políticos de Castro.
 
Mendonça argumentou no TSE não haver provas suficientes da participação do ex-governador, apesar de Castro ter sido beneficiado eleitoralmente pelo esquema de compra de votos — motivo usado pelo ministro para votar pela cassação do ex-governador.
 

"Não vislumbro prova suficiente apta a configurar a certeza jurídica acima de qualquer dúvida razoável acerca da responsabilidade direta ou mesmo indireta nas irregularidades praticadas na Fundação Ceperj e também na Uerj", disse Mendonça no julgamento de Castro.

Castro renunciou antes da decisão do TSE, que foi adiada devido a pedidos por mais tempo para analisar — um deles partiu da Kassio Nunes Marques, ministro do STF que apoiou a indicação de Mendonça ao Supremo. A renúncia evitou que o ex-governador pudesse ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Nunes Marques e Fux

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A união entre André Mendonça e Kassio Nunes Marques vem desde o governo Jair Bolsonaro. A dupla já votou da mesma forma em diversos processos, como na chamada Pauta Verde, quando defenderam as políticas ambientais de Bolsonaro.
 
Agora, na crise do STF, Kassio e Mendonça ganharam o reforço de Luiz Fux, que já havia se alinhado ao Bolsonarismo quando votou por penas mais brandas e até a anulação de acusações contra pessoas que planejaram e ajudaram a concretizar os atentados de 8 de Janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
 
A proximidade de Fux com Nunes Marques e, principalmente, Mendonça, faz o grupo de  ministros alinhados a Moraes considerarem questionar a imparcialidade de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, argumentando que os filhos de ambos têm conexões com Vorcaro.
 
O filho de Kassio Nunes Marques, o advogado Kevin de Carvalho Marques, foi citado em relatórios do Coaf após receber repasses de uma empresa de consultoria que prestava serviços para o Banco Master.
 
O escritório de Kevin de Carvalho Marques recebeu pouco mais de R$ 281 mil da Consult Inteligência Tributária entre 2024 e 2025. No mesmo período, a empresa foi o destino de R$ 6,6 milhões do Master. O ministro e seu filho negam irregularidades nos pagamentos.
 
Já um dos filhos de Fux, o advogado Rodrigo Fux, apareceu em registros de eventos sociais organizados por Daniel Vorcaro. Relatórios da PF mostram Rodrigo no camarote VIP do banqueiro na Marquês de Sapucaí, no Carnaval do Rio de Janeiro, em 2025, e numa degustação de uísque em Nova York custeada por Vorcaro.
 
Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram o banqueiro orientando sua equipe a acomodar "Fux" em uma área reservada. Rodrigo Fux confirmou a presença nos eventos, mas negou ter prestado serviços advocatícios ou mantido laços comerciais com Vorcaro.

Investigação do MP-RJ

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O Iter, instituto onde Mendonça se reuniu com Vorcaro, também tem mais de R$ 10 milhões em contratos sem licitação com o Poder Público. Os serviços previstos contratualmente envolvem treinamento jurídico.
 
Um desses contratos está sendo investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ). O acordo de R$ 518 mil foi firmado com o governo fluminense, durante a gestão de Cláudio Castro.

O contrato prevê 120 vagas em cursos de segurança pública. Cada aluno custará R$ 4.316,66 ao governo do RJ. O MP-RJ apura a falta de licitação para contratação do Iter.
 
O contrato foi assinado em abril de 2026, mesmo mês em que Castro deixou o governo do RJ para não ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral e perder seus direitos políticos.
 
Além do contrato de R$ 518 mil, o governo do RJ elaborou um termo de ajuste de contas para pagar R$ 71.550 pela participação de três procuradores em um curso de oratória ministrado pelo próprio Mendonça em um hotel em Copacabana.

O governo do Rio e o Instituto Iter declararam que as contratações seguiram rigorosamente a Lei de Licitações e critérios técnicos de notória especialização.
 
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.