Economia

O que são e como funcionam os fundos que investem em empresas em crise?

Chamados de “special situations”, esses fundos buscam oportunidades em companhias endividadas, processos de recuperação e ativos negociados com desconto

fundos que investem em empresas
Com R$ 17,4 bilhões disponíveis, essa estratégia já reúne mais capital do que o private equity tradicional no Brasil Foto: Towfiqu barbhuiya/Unsplash

Pela primeira vez, o Brasil tem mais recursos disponíveis em fundos voltados a empresas em dificuldades financeiras do que em fundos destinados a financiar a expansão de negócios.

Os chamados fundos de special situations tinham R$ 17,4 bilhões disponíveis para novos aportes em junho de 2026.

Já os fundos de private equity, tradicionalmente usados para investir em empresas com potencial de crescimento, somavam R$ 14,6 bilhões, segundo levantamento da gestora Spectra.

Há dez anos, o cenário era diferente. De acordo com o estudo, o volume disponível nas estratégias de special situations cresceu quase nove vezes desde 2016, enquanto os recursos livres para novos investimentos de private equity caíram 46,1% no mesmo período.

A mudança ocorre em um período de juros ainda elevados e dificuldades financeiras para parte das empresas brasileiras.

A Selic está atualmente em 13,75% ao ano, após decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro.

O que são fundos de special situations?

Special situations, ou “situações especiais”, é o nome dado a uma estratégia de investimento que procura oportunidades em empresas, dívidas e outros ativos que passam por algum evento extraordinário.

Isso pode incluir companhias muito endividadas, empresas em recuperação judicial ou extrajudicial, ativos colocados à venda para levantar caixa, créditos negociados com desconto e até disputas judiciais.

Ou seja, o fundo não procura necessariamente uma companhia que esteja crescendo rapidamente.

Em alguns casos, a oportunidade aparece justamente porque o negócio atravessa dificuldades e seus ativos ou dívidas passaram a ser negociados por valores menores.

Special situations não corresponde a um único tipo jurídico de fundo. A estratégia pode ser estruturada por diferentes veículos.

Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por exemplo, mostram fundos de investimento em participações (FIPs) e fundos de direitos creditórios ligados a estratégias desse tipo.

Como funciona?

Uma gestora primeiro identifica uma empresa ou um ativo que atravessa uma situação de estresse, mas no qual ainda enxerga possibilidade de recuperação ou de valorização.

Há diferentes formas de entrar no negócio. O fundo pode comprar uma dívida da companhia por um valor inferior ao original, adquirir participação acionária, financiar a empresa durante uma reestruturação ou comprar ativos que ela precisa vender para levantar recursos.

Também há operações conhecidas como DIP Financing, modalidade de financiamento concedida a companhias em recuperação judicial.

Nesse tipo de operação, o investidor fornece dinheiro novo para manter a atividade da empresa durante o processo de reorganização financeira.

Em outras situações, a estratégia pode envolver compra de debêntures depreciadas, precatórios, créditos judiciais ou participação direta no capital da companhia.

O fundo pode permanecer durante anos no negócio enquanto participa da reorganização financeira ou operacional da empresa.

Como esses fundos ganham dinheiro?

O retorno está, em grande parte, na diferença entre o preço pago por um ativo em situação de estresse e o valor que ele pode alcançar depois.

Imagine uma dívida de R$ 100 milhões que, devido às dificuldades financeiras da empresa, esteja sendo negociada por R$ 50 milhões.

Um fundo pode comprar esse crédito com desconto. Se a empresa conseguir se recuperar e pagar uma parcela maior do valor original, a diferença pode gerar retorno para o investidor.

Outra possibilidade é assumir participação em uma companhia, reorganizar suas dívidas e operações e, anos depois, vender essa participação por um preço maior.

Por que esse mercado cresceu no Brasil?

Um dos fatores é o longo período de juros elevados. Juros altos encarecem empréstimos, aumentam as despesas financeiras e tornam mais difícil para empresas endividadas refinanciar seus compromissos.

Em junho, mais de 9,1 milhões de empresas brasileiras estavam inadimplentes, recorde da série da Serasa Experian. As dívidas negativadas somavam R$ 232,9 bilhões.

Os pedidos de recuperação judicial também refletem esse ambiente. Somente em março de 2026, foram registrados 76 processos envolvendo 176 CNPJs, segundo a Serasa Experian.

A instituição apontou que as condições de crédito permaneciam restritivas mesmo com o início da redução da Selic.

Quanto maior o número de companhias precisando renegociar dívidas, vender ativos ou encontrar novas formas de financiamento, maior também é o universo de oportunidades analisado pelos fundos de special situations.

O mercado brasileiro começou a ganhar mais força a partir de 2015 e 2016, período marcado por recessão e pela crise financeira de grandes empresas. Desde então, gestoras especializadas passaram a ampliar a atuação nesse segmento.

Qual a diferença para o private equity?

Os dois modelos podem envolver investimentos de longo prazo e participação em empresas, mas partem de situações diferentes.

No private equity, o objetivo geralmente é investir em uma companhia já estabelecida para financiar expansão, aumentar eficiência, realizar aquisições e elevar seu valor antes da venda da participação.

A Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) define o private equity como investimento voltado a empresas mais maduras, inclusive para expansão ou reestruturação.

Já uma estratégia de special situations costuma procurar momentos de maior complexidade financeira ou operacional, nos quais o preço de uma dívida, empresa ou ativo pode ter caído significativamente.

A inversão registrada em 2026 mostra justamente essa mudança. Enquanto havia R$ 14,6 bilhões disponíveis nos fundos de private equity analisados, os fundos destinados a situações especiais já acumulavam R$ 17,4 bilhões.

Quais são os riscos?

Comprar um ativo barato não significa que ele necessariamente voltará a valer mais.

Uma empresa pode não conseguir concluir sua recuperação, uma dívida pode não ser paga no valor esperado e decisões judiciais ou mudanças regulatórias podem alterar completamente a rentabilidade de uma operação.

A própria estrutura desses investimentos também tende a exigir mais conhecimento e análise do que aplicações tradicionais.

Alguns fundos registrados na CVM são destinados exclusivamente a investidores qualificados ou profissionais.

Um fundo de special situations consultado pela autarquia, por exemplo, tem como público-alvo somente investidores profissionais, enquanto outro é direcionado a investidores qualificados.

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