Economia

Boom da IA começa a chegar à economia real, mas de forma desigual

Taiwan e Coreia do Sul mostram como investimentos em chips podem elevar exportações, salários, consumo e arrecadação

Inteligência Artificial
Experiência também revela que ganhos permanecem concentrados e que produtividade ainda demora a aparecer fora da tecnologia Foto: creative commons

A corrida mundial pela inteligência artificial deixou de movimentar apenas ações de Nvidia, Microsoft, Alphabet ou empresas especializadas em modelos generativos.

O volume de dinheiro destinado a chips, servidores e data centers começou a atravessar outras partes da economia, de salários e consumo doméstico a arrecadação tributária e investimentos industriais.

É esse movimento que o The Economist chama de uma espécie de “economia do gotejamento” do boom da IA.

Em análise publicada nesta quinta-feira (17), a revista pergunta quanto tempo os investimentos bilionários realizados pelas grandes empresas de tecnologia levam para produzir ganhos mais amplos e aponta Taiwan e Coreia do Sul como os primeiros grandes laboratórios dessa transformação.

A resposta começa a aparecer nos números. A Coreia do Sul registrou em junho o crescimento mais forte de suas exportações desde 1978, alta de 70,9% em relação ao mesmo mês do ano anterior, para US$ 102,25 bilhões, cerca de R$ 527 bilhões pela cotação atual.

Somente as vendas externas de semicondutores saltaram quase 200%, para US$ 44,8 bilhões, aproximadamente R$ 231 bilhões.

Em Taiwan, o Banco Central revisou nesta semana sua projeção de crescimento econômico de 2026 para 11,48%, impulsionado principalmente pela demanda internacional por chips e equipamentos ligados à IA.

Chips primeiro

OpenAI, Google, Microsoft, Meta, Amazon e outras empresas precisam ampliar capacidade computacional para treinar e operar seus modelos.

Isso significa comprar processadores, chips de memória, servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de rede.

Poucas economias possuem empresas capazes de atender essa demanda na escala necessária.

Taiwan abriga a TSMC, principal fabricante mundial de semicondutores avançados.

A Coreia do Sul possui Samsung Electronics e SK Hynix, líderes em chips de memória e especialmente em HBM, tecnologia fundamental para aceleradores utilizados em inteligência artificial.

O Ministério do Comércio sul-coreano informou que as exportações de tecnologia da informação e comunicação alcançaram US$ 253,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, cerca de R$ 1,31 trilhão.

Semicondutores e unidades de armazenamento SSD responderam juntos por 83,7% desse total. As exportações de semicondutores cresceram 162,5% no período.

Computadores e periféricos avançaram 233,8%. Pela primeira vez, produtos de tecnologia da informação passaram a representar mais da metade das exportações sul-coreanas.

Salários sobem

O dinheiro não fica apenas nas empresas. O aumento dos lucros das fabricantes começou a elevar significativamente a remuneração de trabalhadores ligados ao setor.

Na Coreia do Sul, a SK Hynix adotou um sistema que destina 10% do lucro operacional aos bônus dos funcionários, sem limite máximo.

O mecanismo chegou a proporcionar aos cerca de 35 mil empregados remuneração extraordinária equivalente a 29 meses de salário-base em um único ano.

A Samsung também alterou seu sistema de participação nos resultados. Um acordo sindical destinou 10,5% dos lucros da divisão de chips a premiações em ações para funcionários, eliminando o antigo teto de bonificação.

Em Taiwan, trabalhadores da Micron passaram a reivindicar participação permanente nos lucros diante da explosão da rentabilidade do setor.

A empresa ofereceu neste mês um bônus extraordinário equivalente a até dezenas de meses de remuneração para funcionários taiwaneses.

Mesmo assim, sindicatos rejeitaram a proposta e passaram a pressionar por um sistema permanente que destine 15% dos lucros operacionais aos trabalhadores.

Consumo reage

Quando os bônus chegam aos trabalhadores, o efeito começa a sair das fábricas. 

Em Taiwan, o crescimento das vendas no varejo ficou entre 6% e 8% entre fevereiro e abril, muito acima da média aproximada de 2,1% registrada na década anterior, segundo dados reunidos pela Reuters.

Na Coreia do Sul, as vendas varejistas cresceram em média cerca de 4% nos primeiros quatro meses do ano.

Esse é exatamente o “gotejamento” observado na economia. Uma empresa americana compra chips.

A fabricante asiática aumenta produção e lucros. Funcionários recebem bônus maiores.

Esses trabalhadores gastam mais em restaurantes, imóveis, carros, viagens ou comércio. Empresas desses outros setores aumentam receitas.

E governos arrecadam mais impostos. A inteligência artificial, nesse estágio, produz crescimento econômico mesmo antes de comprovar que tornou cada trabalhador significativamente mais produtivo.

Bolsa enriquece

Desde o início de 2024, a bolsa sul-coreana registrou uma valorização acumulada muito elevada, enquanto o mercado taiwanês também foi impulsionado pelo desempenho de empresas ligadas aos semicondutores.

Uma análise publicada pela Reuters em maio apontava alta de 219% do Kospi e de 149% do Taiex desde o começo de 2024, movimento associado em grande parte à corrida por chips e inteligência artificial.

A valorização cria um chamado “efeito riqueza”. Famílias que possuem ações, fundos ou planos de aposentadoria expostos a essas empresas passam a possuir patrimônio maior e podem se sentir mais confortáveis para gastar.

Nem todos ganham

Taiwan mostra claramente essa divisão. Relatório do Mizuho Research & Technologies observou que os salários no setor de componentes eletrônicos cresceram rapidamente, enquanto a remuneração média nas demais atividades permaneceu muito mais fraca.

A indústria eletrônica é intensiva em capital e emprega apenas uma parcela relativamente pequena da força de trabalho taiwanesa.

Como os aumentos salariais ainda não chegaram na mesma intensidade a outros setores, a renda familiar média avançou menos do que os números extraordinários do PIB poderiam sugerir.

Em outras palavras, um país pode crescer 10% puxado pela inteligência artificial sem que um trabalhador de restaurante, hospital ou pequena loja tenha recebido aumento semelhante.

O contraste aparece também na Coreia do Sul. Apesar da explosão das exportações e dos bônus no setor de chips, análise do Goldman Sachs destacou neste ano que o consumo das famílias sul-coreanas continua limitado por envelhecimento populacional e elevado nível de poupança entre os mais velhos.

As vendas no varejo permanecem próximas dos níveis observados em 2019 em alguns indicadores.

Portanto, a riqueza da IA “goteja”, mas não necessariamente alcança todos da mesma maneira.

Produtividade lenta

Os investimentos já aparecem claramente no PIB porque construir um data center conta como investimento.

Fabricar um chip conta como produção. Contratar trabalhadores para uma obra gera emprego.

Mas a promessa econômica mais importante da inteligência artificial sempre foi outra, fazer toda a economia produzir mais com os mesmos recursos. Esse efeito continua muito menos evidente.

Nos Estados Unidos, 44% dos locais de trabalho já utilizavam algum tipo de inteligência artificial em maio, segundo dados analisados pela Reuters Breakingviews.

Mesmo assim, ainda há poucos sinais de uma aceleração extraordinária da produtividade agregada semelhante à observada durante a expansão dos computadores pessoais no fim dos anos 1990.

A produtividade do trabalho americano cresceu 2,2% no segundo trimestre. É um número positivo, mas insuficiente para comprovar que a IA já provocou a transformação econômica esperada por seus investidores.

Trilhões investidos

O Brasilianista mostrou em agosto que nove grandes companhias já acumulavam aproximadamente US$ 3 trilhões, cerca de R$ 15,5 trilhões, em compromissos associados à infraestrutura tecnológica, principalmente data centers, chips, servidores e energia.

Desse total, aproximadamente US$ 1,2 trilhão, cerca de R$ 6,2 trilhões, correspondia a contratos de aluguel de data centers ainda não iniciados.

Outros US$ 1,9 trilhão, aproximadamente R$ 9,8 trilhões, estavam ligados a compromissos futuros de compra de equipamentos e infraestrutura.

A conta pode ficar muito maior. Se a adoção de IA acelerar, o valor pode se aproximar de US$ 50 trilhões, ou cerca de R$ 258 trilhões.

Dívida crescente

O Brasilianista destacou que a atual fase da expansão dos data centers depende cada vez mais de empréstimos bancários, títulos corporativos e crédito privado.

Microsoft, Google, Meta, Amazon e investidores privados podem comprometer até US$ 7 trilhões, aproximadamente R$ 36,1 trilhões, com centros de dados até 2030. Parte dessa exposição nem aparece diretamente nos balanços.

O Brasilianista revelou que Alphabet, Microsoft, Amazon, Meta e Oracle acumulavam cerca de US$ 1,65 trilhão, aproximadamente R$ 8,5 trilhões, em obrigações consideradas “shadow borrowing”, estruturas economicamente semelhantes a dívidas, mas registradas de outras formas.

Ásia exporta

Por enquanto, os fabricantes asiáticos estão entre os maiores vencedores dessa aposta.

A demanda americana por inteligência artificial levou as exportações de Taiwan a crescer 45% em 12 meses até junho, alcançando US$ 773 bilhões, aproximadamente R$ 4 trilhões, segundo análise do MUFG.

Somente os Estados Unidos responderam por quase metade do aumento das exportações taiwanesas.

Nesta semana, Singapura informou que suas exportações domésticas não petrolíferas aumentaram 46,2% em agosto, maior avanço da série histórica iniciada em 2005.

As exportações de produtos eletrônicos dispararam 131,8%, impulsionadas principalmente pela demanda ligada à IA.

A Organização Mundial do Comércio também identificou essa diferença. No primeiro trimestre de 2026, o comércio mundial de produtos relacionados à inteligência artificial cresceu 42%, enquanto as demais mercadorias avançaram apenas 7%.

A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, alertou, porém, que esse boom pode estar mascarando fraquezas provocadas por tarifas, guerras e desaceleração em outros segmentos da economia global.

Brasil tenta entrar

O Brasil ainda está muito distante de Taiwan e Coreia do Sul na fabricação de semicondutores avançados.

A aposta nacional está principalmente em outra parte da cadeia, data centers, energia e processamento de dados.

Neste mês, foi sancionado o Redata, regime que concede incentivos tributários para compra e importação de equipamentos destinados a centros de dados.

O governo estima que a política possa ajudar a atrair entre R$ 500 bilhões e R$ 1 trilhão em investimentos. Atualmente, cerca de 60% dos dados brasileiros ainda seriam processados fora do país.

O Brasilianista já mostrou que o país concentra mais da metade da capacidade de data centers da América Latina, possui disponibilidade significativa de energia renovável e tenta utilizar essas características para participar do ciclo de investimentos em IA.

Acompanhe as redes sociais de O Brasilianista