O processo da compra de roupas ficou levemente mais complexo, não apenas pela maior procura por peças dentro do e-commerce, mas também no custo-benefício. E esse cenário pode ser um indicador de recessão econômica.
Enquanto marcas como Renner, C&A e Riachuelo ampliam apostas em coleções mais caras e sofisticadas, o consumidor de classe média vê encolher a oferta de roupas de qualidade boa e preço acessível. Dessa forma, ele se vê obrigado a escolher entre pagar mais ou aceitar produtos de qualidade inferior.
O movimento ganha um contraponto interessante com a estreia da Shein na Bolsa de Hong Kong: a varejista chinesa de fast fashion, símbolo do preço baixo a qualquer custo, teve autorização da China para realizar sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), o que pode torná-la uma das maiores aberturas de capital de 2026 nesta bolsa.
Para entender se o esvaziamento das peças "médias" no varejo de moda é, de fato, um indicativo de recessão, O Brasilianista entrevistou Leonardo Mencarini, especialista em varejo e co-fundador e CEO do Mercado Único, e Iury Borges, sócio-diretor do Grupo HRZ e estrategista de lançamentos para varejo físico e e-commerce.
Para eles, o fenômeno reflete pressão sobre a renda, mas os especialistas divergem no grau de certeza sobre o diagnóstico de recessão.
Mencarini é mais cauteloso e afirma que o movimento, isoladamente, não é suficiente para caracterizar uma recessão, apesar de refletir uma pressão maior sobre o consumo e a renda das famílias.
"O que se observa é uma polarização de mercado: de um lado, crescem os produtos muito baratos e, muitas vezes, de menor qualidade; do outro, algumas marcas tradicionais buscam elevar o posicionamento, o preço e o valor agregado de suas coleções. O resultado é que um consumidor de classe média [...] precisa gastar mais para manter a qualidade ou aceitar produtos de menor durabilidade", afirma o especialista em varejo.
Já Borges classifica o movimento como sinal de entrada em ambiente recessivo, principalmente na análise do consumo da classe média. Ele reconhece, porém, que os dados oficiais, como o Produto Interno Bruto (PIB) ainda não confirmam uma recessão técnica. Ainda assim, há um descolamento entre o indicador agregado e a percepção do consumidor.
"Quando alimentação, moradia, energia, transporte, saúde e crédito consomem uma parcela maior da renda, sobra menos dinheiro para roupas, lazer e outros itens que podem ser adiados. É nesse momento que começa uma espécie de recessão do consumo discricionário, mesmo antes de uma eventual recessão aparecer formalmente nos indicadores econômicos", comenta.
Borges chama atenção ainda para uma inflação que não aparece completamente na etiqueta: a perda de qualidade. "Uma peça pode custar quase o mesmo, mas durar menos, ter tecido inferior ou acabamento mais simples. O preço nominal não aumentou muito, mas o custo por uso aumentou."
Apesar do cenário, o estrategista não afirma que a alta das roupas cause uma recessão, mas que o aumento do preço, a redução da qualidade e o esvaziamento das opções intermediárias formam um sinal de alerta.
Varejistas miram no mercado de luxo?
Mencarini rejeita a ideia de que as peças médias tenham deixado de ser economicamente viáveis, mas pondera que existe uma busca das marcas por maior valor agregado, margem e diferenciação.
Ele descreve um mercado espremido por dois lados: "de um lado, há as plataformas internacionais e o fast fashion, que competem fortemente por preço e escala. Do outro, existe um consumidor disposto a pagar mais por qualidade, exclusividade, experiência e identificação com a marca".
"Competir exclusivamente por preço contra plataformas internacionais como Shein, Shopee e outras operações asiáticas é extremamente difícil. Essas empresas possuem escala global, produção rápida, grande variedade e preços muito agressivos. Por isso, a varejista nacional precisa encontrar uma posição na qual consiga preservar margem e apresentar diferenciação", afirma Borges.
O sócio-diretor do Grupo HRZ ainda faz a ressalva de que Renner, C&A e Riachuelo, por exemplo, não estão se tornando marcas de luxo no sentido tradicional, mas sim elevando o valor percebido de parte do portfólio com melhores materiais, coleções especiais, colaborações e lojas mais sofisticadas.
"As empresas estão organizando o portfólio em camadas: básicos de entrada para gerar fluxo, produtos intermediários com boa relação entre preço e qualidade e coleções premium para elevar margem e posicionamento. Ou seja, o segmento médio não deixou de ser necessário, mas se tornou muito mais difícil de operar", afirma Borges.
Mencarini vê na moda circular uma resposta a essa lacuna. Isso porque a revenda permite que produtos originais, de qualidade e de marcas desejadas cheguem ao consumidor por preços mais acessíveis.
O jogo do poder de compra
Com juros altos para controlar a inflação, o poder de compra do brasileiro está em níveis baixos. O cenário é desafiador para as varejistas de moda, assim como outras empresas, visto que quando o poder de compra diminui, o consumidor se torna mais seletivo.
Para o CEO da Mercado Único, a resposta das marcas passa por eficiência operacional. Nesse contexto, não basta simplesmente aumentar preços ou produzir mais.
"As marcas precisam olhar com mais atenção para margem, giro, estoque, canais de venda e eficiência operacional. Estoque parado representa capital imobilizado, perda de margem e risco de desvalorização", explica.
Por sua vez, Borges detalha os ajustes operacionais mais concretos: "coleções grandes, produzidas com muita antecedência, aumentam o risco de estoque parado e liquidação. Por isso, as varejistas passam a utilizar lotes menores, reposições mais rápidas, análise de dados e inteligência artificial para prever demanda por região, categoria, cor e tamanho."
Ele também descreve uma promoção mais cirúrgica. Para isso, em vez de oferecer desconto para todos, a empresa passa a identificar quem está no momento de compra e qual oferta pode gerar conversão.
O especialista ainda faz um alerta sobre o crédito, visto que parcelamento e cartões próprios ajudam a sustentar o consumo, porém podem esconder momentaneamente a perda de poder de compra e aumentar o risco de inadimplência.
O impacto da "taxa das blusinhas"
No último dia 11 de setembro, a Presidência da República sancionou a lei que põe fim à taxa das blusinhas, que autoriza a redução a zero no Imposto de Importação em compras internacionais de até US$ 50 (em torno de R$ 260).
As alíquotas poderão ser reduzidas a zero na faixa de tributação de até US$ 50, e a 30% na faixa de até US$ 3 mil.
A legislação anterior estabelecia alíquota de 20% para remessas de até US$ 50 e de 60% para compras de até US$ 3 mil, além do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Vale lembrar que compras internacionais continuam sujeitas ao ICMS, com alíquotas definidas pelos estados e pelo Distrito Federal.
Os especialistas indicam que ainda não há evidências ou dados concretos de quanto a medida pode impactar o cenário fiscal — e consequentemente o poder de compra — do Brasil. No entanto, reiteram que o consumidor brasileiro é extremamente sensível a preço.
"Quando existe uma diferença significativa entre comprar no mercado nacional e importar, ele está disposto a mudar de marca, plataforma e canal para fazer o dinheiro render mais. Mas o consumidor também procura qualidade, confiança, conveniência e acesso a marcas desejadas. No fim, ele busca a melhor relação entre o valor pago e o valor recebido," diz Mencarini.
Borges chega a conclusão semelhante, com ênfase na visibilidade do tributo: "Uma pequena mudança no valor apresentado no checkout pode alterar a conversão, o ticket médio e a frequência das compras."
As compras internacionais também operam como um sintoma de necessidade, não apenas de desejo. Para o estrategista, muitas famílias veem uma maneira de acessar roupas e outros produtos que já não encontram no varejo nacional dentro do orçamento disponível.
Segundo ele, a tarifa "tornou a tributação mais visível", já que "no produto nacional, os impostos estão incorporados ao preço. Na compra internacional, o consumidor vê o valor do tributo separado no momento do pagamento e sente imediatamente o impacto."
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