Geopolítica

China bate recorde de exportações e pressiona indústria brasileira

Exportações chinesas cresceram 25% em agosto, puxadas por tecnologia, semicondutores e veículos

Exportações
Brasil precisa evitar relação baseada em vender commodities e comprar produtos de maior valor agregado Foto: Andy Li/Unsplash

A China voltou a acelerar suas exportações em 2026 e aumentou a pressão sobre países que tentam proteger suas próprias indústrias.

Em agosto, as vendas chinesas ao exterior cresceram 25% em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto as importações avançaram 28,2%. O superávit comercial chegou a US$ 119,09 bilhões apenas no mês.

O avanço não está concentrado apenas em produtos de baixo custo. Nos primeiros oito meses do ano, as exportações chinesas de bens de alta tecnologia cresceram 42,9% em valor.

As vendas externas de semicondutores mais que dobraram, enquanto as exportações de automóveis avançaram mais de 50% tanto em quantidade quanto em valor.

Para o Brasil, a expansão chinesa tem dois lados. A China continua sendo, de longe, o principal destino das exportações brasileiras, mas também ocupa espaço crescente entre os fornecedores do país.

Entre janeiro e agosto, o Brasil vendeu US$ 77,07 bilhões aos chineses, equivalente a 30,7% de tudo o que exportou.

No caminho inverso, importou US$ 51,56 bilhões, ou 26,4% das compras brasileiras no exterior.

Para Alessandra Cavalcante de Oliveira, professora de Economia da Universidade Anhembi Morumbi, o tamanho da relação comercial não é o principal problema. A questão está no que cada país vende.

Relação desigual

O Brasil mantém superávit comercial com a China. Nos primeiros oito meses de 2026, vendeu cerca de US$ 25,5 bilhões a mais do que comprou.

O saldo positivo, porém, não significa necessariamente uma relação equilibrada do ponto de vista industrial.

“Se o Brasil continuar exportando predominantemente produtos primários para a China e importando produtos industrializados e de maior conteúdo tecnológico, será ainda mais negativo para o nosso país”, afirma Alessandra Cavalcante de Oliveira.

A pauta brasileira destinada ao mercado chinês continua fortemente apoiada em produtos como soja, petróleo e minério de ferro. Apenas esses três itens somaram perto de US$ 60 bilhões entre janeiro e agosto.

Do outro lado, a China avança justamente nos segmentos que carregam mais tecnologia e cadeias industriais maiores.

“A China é um parceiro comercial fundamental, mas precisamos discutir a qualidade dessa relação”, explica a professora.

Para Alessandra, a questão não é reduzir o comércio com Pequim, mas evitar que o Brasil se especialize cada vez mais em fornecer matéria-prima enquanto depende do exterior para máquinas, componentes e tecnologias.

“O Brasil precisa diversificar suas exportações e ampliar a produção de bens de maior valor agregado para reduzir sua dependência externa”, destaca a economista.

Commodities brasileiras

Entre janeiro e agosto deste ano, as exportações brasileiras de soja chegaram a US$ 39,4 bilhões considerando todos os destinos.

As vendas de petróleo bruto cresceram 23,8%, enquanto a indústria extrativa brasileira avançou quase 20%.

A China absorve uma parcela relevante justamente desses produtos. Ao mesmo tempo, a participação chinesa nas compras brasileiras continua aumentando.

Em 2015, 17,7% das importações do Brasil vinham da China. Em 2025, eram 25,3%. Nas exportações, a participação chinesa passou de 18,8% para 28,7% no mesmo período.

Em 2026, os chineses já representam 30,7% das exportações e 26,4% das importações brasileiras no acumulado até agosto.

Para a professora, o risco aparece quando essa especialização começa a afetar a própria capacidade de produzir.

“Quando um país se especializa excessivamente na exportação de commodities e passa a depender do exterior para adquirir bens de maior conteúdo tecnológico, pode ocorrer uma perda de capacidade produtiva interna e uma maior vulnerabilidade em setores estratégicos”, avalia a docente.

Indústria exposta

A aceleração das exportações chinesas já provoca reação em outras partes do mundo.

A União Europeia discute novas barreiras para produtos como químicos, plásticos, baterias e veículos chineses.

O bloco acumulou déficit comercial de € 360,6 bilhões com a China em 2025, e a diferença continuou aumentando neste ano.

No Brasil, Alessandra aponta máquinas, equipamentos, eletrônicos, produtos químicos e veículos entre os setores mais sujeitos à concorrência.

“Principalmente os setores em que a China possui grande capacidade produtiva e tecnológica, como máquinas e equipamentos, eletrônicos, produtos químicos, veículos elétricos, equipamentos de energia renovável e diversos bens de consumo”, alerta a especialista.

O crescimento dos carros chineses oferece um exemplo. A BYD já transformou o Brasil em seu maior mercado fora da China e, em agosto, as vendas internacionais da montadora cresceram 134,5% em comparação com o ano anterior.

A chegada desses produtos pode reduzir preços e ampliar opções para os consumidores, mas também aumenta a disputa com fabricantes instalados no país.

“O risco é que o crescimento das importações substitua gradualmente a produção nacional”, observa a pesquisadora.

Fábricas perdidas

A preocupação da economista vai além do fechamento de uma unidade industrial.

Uma fábrica normalmente está conectada a fornecedores, trabalhadores especializados, centros de desenvolvimento, prestadores de serviços e outras empresas.

“Quando uma indústria desaparece, o país não perde apenas fábricas e empregos, mas também fornecedores, conhecimento e capacidade de desenvolver novas tecnologias”, ressalta Alessandra.

Esse processo é especialmente sensível quando ocorre em setores que serão importantes nas próximas décadas, como veículos elétricos, baterias, equipamentos de geração de energia e componentes eletrônicos.

A China construiu justamente nesses mercados parte do crescimento registrado neste ano.

Segundo a Reuters, além dos semicondutores e automóveis, células solares e baterias de íons de lítio estão entre os produtos que sustentaram o avanço das vendas externas chinesas.

Capital chinês

A presença chinesa no Brasil, porém, não precisa ocorrer apenas por meio de importações.

Empresas do país asiático já investem em setores como energia, infraestrutura, mineração, indústria automobilística e tecnologia.

Para Alessandra, transformar essa presença em ganho produtivo depende de decisões tomadas pelo próprio Brasil.

“O Brasil consegue transformar isso em ganho, mas isso depende da estratégia adotada pelo país. A transferência de tecnologia não ocorre automaticamente com a entrada do investimento estrangeiro”, pondera a professora.

A simples instalação de uma empresa chinesa não significa necessariamente que tecnologia, pesquisa ou conhecimento serão desenvolvidos localmente.

Uma companhia pode importar os componentes mais sofisticados, realizar apenas etapas finais no Brasil e manter pesquisa, engenharia e fornecedores estratégicos na China.

“O Brasil precisa criar condições para que esses investimentos contribuam para ampliar a produção nacional, desenvolver fornecedores locais, gerar empregos qualificados e estimular pesquisa e inovação no país”, acrescenta a economista.

Tecnologia local

A professora defende que políticas públicas façam parte dessa estratégia. Entre as possibilidades estão financiamento para inovação, incentivos vinculados à produção local, parceria entre empresas brasileiras e chinesas e aproximação com universidades e centros de pesquisa.

“O governo também pode utilizar incentivos fiscais e acesso a financiamento público para estimular empresas que produzam no Brasil, desenvolvam fornecedores nacionais e realizem atividades de pesquisa e desenvolvimento no país”, argumenta a docente.

Sem exigências ou incentivos, o investimento estrangeiro pode aumentar a produção doméstica sem necessariamente criar domínio tecnológico nacional.

“Sem uma estratégia desse tipo, existe o risco de ampliarmos as importações ou atrairmos apenas etapas mais simples de produção e montagem, enquanto as atividades de maior conteúdo tecnológico permanecem no exterior”, defende a especialista.

Minerais críticos

Os minerais críticos estão entre os exemplos mais claros desse dilema. O Brasil possui reservas de matérias-primas utilizadas em baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética.

O risco é repetir nesses minerais o modelo já conhecido com outras commodities, extrair, exportar com pouco processamento e depois importar produtos fabricados com a própria matéria-prima brasileira.

“Os minerais críticos são um bom exemplo. O Brasil possui recursos estratégicos para a transição energética e para as novas tecnologias”, prossegue a pesquisadora.

Alessandra considera que esses recursos podem ser utilizados para negociar a instalação de etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva dentro do Brasil.

“Em vez de simplesmente exportar esses minerais com pouco processamento e posteriormente importar baterias, componentes eletrônicos e outros produtos de elevado valor agregado, o país pode utilizar essa vantagem para atrair investimentos destinados ao processamento dos minerais e à fabricação de produtos mais sofisticados em território nacional”, analisa Alessandra.

A diferença estaria entre simplesmente vender uma matéria-prima e utilizar o recurso mineral para formar uma indústria.

Qual investimento?

A origem chinesa do investimento, portanto, não é o ponto determinante. Para a professora, importa saber quais atividades ficarão no Brasil depois da entrada do capital estrangeiro.

“A questão não é apenas atrair investimento chinês, mas definir que tipo de investimento interessa ao desenvolvimento brasileiro”, frisa a professora.

Uma fábrica baseada em componentes quase totalmente importados produz efeitos diferentes de uma estrutura que compra de fornecedores brasileiros, emprega engenheiros, desenvolve pesquisa e transfere conhecimento.

“O objetivo deveria ser aproveitar a relação com a China para agregar valor aos nossos recursos naturais, ampliar nossa capacidade industrial e tecnológica e diversificar aquilo que o Brasil produz e exporta”, sustenta a economista.

Autonomia brasileira

A dependência também produz uma questão geopolítica. Se uma parcela elevada dos componentes utilizados por setores estratégicos vier de um único país, uma disputa comercial, uma sanção ou simplesmente uma interrupção logística pode afetar a economia brasileira.

“Uma dependência muito elevada de qualquer único país em setores estratégicos pode reduzir muito a margem de autonomia econômica de uma nação”, adverte a docente.

A ressalva é importante: o problema não é exclusivamente chinês.

“Isso vale para a China, para os Estados Unidos ou para qualquer outro grande parceiro comercial”, salienta a especialista.

Durante a pandemia, a interrupção de cadeias globais já mostrou o impacto da concentração de fornecedores.

A disputa posterior entre Estados Unidos e China por semicondutores mostrou também como componentes industriais podem se transformar rapidamente em instrumentos geopolíticos.

“Em áreas como semicondutores, telecomunicações, equipamentos de energia, insumos industriais, medicamentos e tecnologias digitais, interrupções no fornecimento ou disputas geopolíticas podem produzir impactos muito relevantes sobre a economia”, indica a pesquisadora.

Mais parceiros

Pequim é o maior parceiro comercial brasileiro e compra quase três vezes o valor adquirido pelos Estados Unidos em produtos nacionais neste ano.

Entre janeiro e agosto, foram US$ 77,1 bilhões enviados à China, contra US$ 24,1 bilhões aos americanos.

A estratégia, para ela, deve ser diminuir concentrações.

“O Brasil deveria buscar uma estratégia de diversificação: diversificar mercados de exportação, fornecedores, parceiros tecnológicos e, principalmente, fortalecer capacidades produtivas nacionais em áreas consideradas estratégicas”, enfatiza Alessandra.

Isso significaria manter o mercado chinês ao mesmo tempo em que o país desenvolve alternativas de venda, compra e tecnologia.

“Isso não significa abandonar a relação com a China. Ao contrário, a China continuará sendo um parceiro fundamental para o Brasil”, esclarece a professora.

Menos assimetria

Em 2025, a China registrou superávit comercial recorde próximo de US$ 1,2 trilhão.

Neste ano, acumulava US$ 805,5 bilhões até agosto e caminhava para superar US$ 1 trilhão novamente.

O país asiático não está simplesmente vendendo mais. Está expandindo exportações justamente em setores tecnológicos e industriais que diversos países tentam desenvolver.

Para Alessandra, o Brasil precisa evitar que a complementaridade entre as duas economias se transforme em uma divisão permanente: de um lado, uma potência industrial e tecnológica; do outro, um grande fornecedor de matérias-primas.

“A questão é construir uma relação menos assimétrica, na qual o Brasil não seja apenas fornecedor de soja, minério e outras commodities e comprador de produtos industrializados e tecnologia”, assinala a economista.

A parceria comercial pode continuar crescendo. O desafio está em decidir que papel o Brasil terá nela.

“É dessa maneira que o comércio internacional pode contribuir de forma mais efetiva para o desenvolvimento econômico e para uma maior autonomia do país”, conclui Alessandra Cavalcante de Oliveira.

Siga O Brasilianista!