O impacto econômico do Caso Master não termina na liquidação do banco nem pode ser resumido ao dinheiro destinado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) aos investidores.
As consequências passam também pela confiança no sistema financeiro, pela exposição de fundos previdenciários, pelo custo de captação de bancos menores, pelo comportamento de investidores e pelas regras de fiscalização que poderão ser adotadas nos próximos anos.
Para Marcos Valle, economista, doutor em Sociologia e docente da Escola de Negócios da Universidade Positivo (UP), tratar o episódio apenas como a quebra de uma instituição financeira deixa de fora parte importante de seus efeitos.
“O caso do Banco Master ultrapassa largamente a tradicional dimensão de uma simples insolvência financeira privada”, afirma Valle.
Segundo ele, as investigações revelaram conexões que tornam o episódio diferente de uma falência bancária tradicional.
“Transforma-se em um marco de instabilidade institucional que cruza o mercado financeiro e os bastidores dos Três Poderes”, avalia o economista.
Parte da conta já é mensurável. O FGC reservou dezenas de bilhões de reais para ressarcir investidores das instituições liquidadas ligadas ao grupo.
Fundos públicos de previdência também aparecem entre os credores, enquanto operações entre Master e Banco de Brasília (BRB) são investigadas pela Polícia Federal.
Conta imediata
O impacto mais visível está no FGC, responsável por garantir determinados depósitos e investimentos dentro dos limites previstos em suas regras.
Para Valle, a pressão sobre o fundo é um dos primeiros efeitos concretos do episódio.
“No curto prazo, o impacto traduz-se em uma aguda crise de confiança sistêmica agravada pela pressão sobre o Fundo Garantidor de Créditos”, explica o professor.
Ele destaca que o problema não se limita ao dinheiro utilizado para ressarcir investidores.
“As reservas correm o risco de uma sobrecarga bilionária para honrar garantias de investidores”, acrescenta Valle.
O economista considera que esse movimento pode atingir especialmente instituições menores que dependem da emissão de CDBs para financiar suas operações.
“Isso gera volatilidade nas emissões de CDBs de instituições de menor porte e retração na liquidez interbancária”, aponta.
Até agora, porém, o Banco Central não identificou uma crise sistêmica provocada pela liquidação do Master.
O sistema financeiro continua operando e o FGC mantém capacidade de honrar as garantias previstas.
Confiança abalada
Valle considera que uma das consequências mais difíceis de medir está justamente na percepção de segurança.
“Essa atmosfera de contaminação política e financeira impõe um reaparelhamento da prudência no mercado de crédito e de investimentos”, diz o economista.
Segundo ele, investidores passam a observar com mais atenção instituições que oferecem remunerações muito superiores às encontradas no restante do mercado.
“Com o abalo sofrido pelo FGC e o escrutínio rigoroso sobre aplicações de alta rentabilidade e baixo respaldo real, o custo de captação tende a subir de forma generalizada”, analisa Valle.
Esse processo pode aparecer de maneira diferente entre instituições. Grandes bancos têm fontes diversificadas de financiamento e balanços mais robustos. Já instituições menores dependem mais da captação por CDBs, letras financeiras e plataformas de investimentos.
Para convencer o investidor a assumir maior risco, podem precisar pagar juros ainda mais elevados.
Crédito mais caro
O efeito pode chegar também às empresas e consumidores que procuram financiamento.
“Investidores e empresas passam a enfrentar um ambiente de forte seletividade”, afirma Valle.
Segundo o economista, bancos e demais instituições podem elevar as exigências antes de conceder recursos.
“O crédito se torna mais restrito e custoso, visto que o sistema financeiro redobra as exigências de garantias para mitigar os riscos de contágio sistêmico desvelados pelas investigações da Polícia Federal”, explica.
Isso não significa que todos os empréstimos subirão automaticamente por causa do Master.
Selic, inflação, inadimplência e situação econômica continuam sendo determinantes para o custo do crédito.
O Caso Master, contudo, pode aumentar a percepção de risco em determinados segmentos e tornar instituições financeiras mais criteriosas na análise de operações.
Fundos públicos
Outro ponto está na participação de fundos previdenciários em aplicações relacionadas ao banco.
Valle considera que o episódio expõe a necessidade de controles mais rigorosos quando recursos de aposentadorias são direcionados a investimentos de risco.
“Como o suporte financeiro da instituição contou com volumes expressivos de aportes públicos, notadamente de fundos previdenciários e emendas, o episódio compromete a integridade da administração pública e expõe fissuras severas nos mecanismos de salvaguarda e prevenção a crises”, afirma.
O Brasilianista já mostrou que fundos públicos de previdência investiram valores significativos em títulos do Master.
Para o economista, o resultado deve ser uma revisão dos critérios utilizados por esses gestores.
“No médio prazo, o foco recai sobre a reestruturação da credibilidade corporativa, a responsabilização legal de agentes públicos e privados e o endurecimento das exigências regulatórias”, avalia Valle.
E os fundos previdenciários aparecem diretamente nessa mudança.
“Isso exige auditorias redobradas em fundos de pensão”, acrescenta.
Empresas mais cautelosas
O episódio também deixa uma lição para empresas que nunca tiveram relação direta com o Banco Master.
Segundo Valle, companhias precisarão analisar com mais rigor quem são seus parceiros financeiros, onde mantêm caixa e quais instituições utilizam em operações de financiamento.
“Empresas e gestores são compelidos a implementar políticas rígidas de due diligence na escolha de parceiros financeiros”, afirma.
A análise não deveria considerar apenas a taxa oferecida. Governança, liquidez, exposição a riscos, qualidade dos ativos e estrutura de controle da instituição também passam a ter peso maior.
“Investidores tendem a adotar um ceticismo redobrado diante de ativos com prêmios de risco excessivos”, observa Valle.
Essa mudança pode atingir principalmente produtos que oferecem retornos significativamente superiores ao restante do mercado.
Retorno e risco
Para o professor, o Caso Master também funciona como alerta sobre a busca por rentabilidades muito elevadas.
“O episódio ergue-se como uma advertência contundente contra a crença na desregulamentação irrestrita em busca de lucros fáceis e imediatos”, afirma Valle.
Ele ressalta que retornos extraordinários normalmente estão associados a riscos igualmente elevados.
“Economias estruturalmente saudáveis, pautadas em crescimento consistente, geração de empregos e taxas de juros compatíveis com os fundamentos macroeconômicos, não oferecem retornos extraordinários sem riscos ocultos exponenciais”, explica.
O princípio vale também para investimentos protegidos pelo FGC. A cobertura reduz o prejuízo do investidor dentro das condições previstas, mas não elimina o risco da instituição emissora nem significa que qualquer investimento coberto pelo fundo possua a mesma qualidade.
Médio prazo
Os efeitos nos próximos meses e anos dependerão também da resposta dos órgãos reguladores.
“O foco recai sobre a reestruturação da credibilidade corporativa, a responsabilização legal de agentes públicos e privados e o endurecimento das exigências regulatórias”, repete Valle ao diferenciar o médio prazo dos efeitos imediatos.
Segundo ele, novas obrigações podem ter reflexos sobre o preço dos serviços financeiros.
“Isso pressiona os spreads bancários”, avalia.
Parte dessas mudanças já começou. O Conselho Monetário Nacional endureceu regras relacionadas à utilização de recursos garantidos pelo FGC, enquanto propostas em discussão no Congresso tratam de fiscalização de instituições, venda de títulos bancários e punições para fraudes financeiras.
Para Valle, entretanto, somente criar regras não resolve o problema. É necessário garantir que os órgãos responsáveis tenham estrutura para fiscalizar as instituições e acompanhar operações complexas.
Longo prazo
No longo prazo, o economista acredita que a consequência mais importante pode ser regulatória.
“O cenário demanda um redesenho normativo sobre promessas de rentabilidade totalmente desconectadas da realidade macroeconômica”, afirma Valle.
Ele defende que indicadores de governança ganhem peso maior na avaliação das instituições.
“A solidez institucional e o rigor de compliance precisam aparecer como indicadores centrais de controle”, acrescenta.
O desafio será encontrar um equilíbrio entre fiscalização e funcionamento do mercado financeiro.
Regras excessivamente frágeis podem permitir operações de alto risco sem acompanhamento adequado.
Exigências mal desenhadas, por outro lado, podem encarecer operações legítimas e reduzir a concorrência.
Exemplo empresarial
Valle considera que o Master deve ser observado por outras companhias como um exemplo dos riscos associados à fragilidade de governança.
A principal lição, segundo ele, está em não analisar uma instituição apenas pelos resultados financeiros que apresenta.
“Investidores tendem a adotar um ceticismo redobrado diante de ativos com prêmios de risco excessivos”, reforça o economista.
Para empresas, a conclusão é semelhante. Antes de escolher um parceiro financeiro, gestor de recursos ou instituição responsável por operações bilionárias, torna-se necessário compreender como aquele negócio gera retorno e quais riscos estão escondidos por trás das taxas oferecidas.
“Empresas e gestores são compelidos a implementar políticas rígidas de due diligence”, ressalta Valle.
Efeito duradouro
Determinar o impacto total do Master ainda levará anos. Hoje é possível calcular pagamentos do FGC, valores aplicados por fundos previdenciários, operações investigadas e eventuais perdas registradas por instituições diretamente envolvidas.
É mais difícil transformar em números efeitos como perda de confiança, aumento da cautela dos investidores ou encarecimento do crédito para determinadas instituições.
Para Valle, essa segunda parte pode acabar sendo mais duradoura que a primeira.
“Os órgãos reguladores enfrentam o desafio histórico de aprimorar os filtros de fiscalização para blindar definitivamente a máquina pública e os fundos de previdência contra o uso político de recursos em operações de alto risco”, finaliza.
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