Os credores da Raízen já escolheram os nomes que deverão representá-los nos conselhos de administração das duas empresas previstas na reorganização da companhia, uma dedicada ao negócio de combustíveis e outra às operações de açúcar, etanol e bioenergia.
A definição ocorre durante a implementação da recuperação extrajudicial que reorganiza dezenas de bilhões de reais em dívidas e transforma parte dos bancos e detentores de títulos em acionistas.
Segundo apuração do Valor Econômico publicada no domingo (14), Paulo Figueiredo, da Geribá Investimentos, e Samuel Aguirre, da FTI Consulting, foram escolhidos para representar os credores no conselho da empresa de combustíveis.
Para o negócio de açúcar, etanol e bioenergia, os nomes definidos são Nelson Oliveira, também da Geribá, e Mário Peixoto, da Makalu Partners. As indicações ainda não foram anunciadas oficialmente pela Raízen.
A escolha dos quatro nomes concretiza uma discussão que O Brasilianista acompanha desde abril.
Naquele momento, bancos e detentores de títulos já condicionavam parte da negociação da dívida a mudanças na administração da Raízen, maior presença dos credores no conselho e redução da influência dos atuais controladores.
Em determinado momento das conversas, os credores chegaram a reivindicar até 90% da empresa em troca da conversão de cerca de 45% da dívida.
O plano que acabou sendo fechado em junho adotou outra composição, 45% da dívida reestruturada será convertida em ações, enquanto os 55% restantes serão substituídos por novos instrumentos de dívida.
A estrutura também prevê R$ 3,5 bilhões em recursos da Shell e a possibilidade de outros R$ 500 milhões aportados pela Aguassanta, veículo ligado a Rubens Ometto.
Quatro indicados
Na empresa que concentrará a distribuição e comercialização de combustíveis, os credores indicaram Paulo Figueiredo e Samuel Aguirre.
Figueiredo é ligado à Geribá Investimentos. Aguirre integra a FTI Consulting, consultoria que atua, entre outras áreas, em reestruturações financeiras e situações de empresas com passivos elevados.
No negócio que reunirá açúcar, etanol e bioenergia, a escolha recaiu sobre Nelson Oliveira, também da Geribá, e Mário Peixoto, da Makalu Partners.
As indicações não significam, porém, que todas as questões societárias estejam resolvidas.
Os bancos ainda discutem como administrar as participações que receberão depois da conversão das dívidas em ações.
Segundo informações atribuídas pelo mercado à apuração do Valor, chegou a ser analisada a possibilidade de entregar a gestão desses papéis a gestores especializados, mas não houve consenso.
A tendência atual é que as participações permaneçam diretamente com as próprias instituições credoras.
Essa definição é relevante porque os credores deixarão de atuar exclusivamente como financiadores da Raízen.
Com a conversão, também passarão a carregar exposição acionária aos negócios reorganizados e, portanto, terão interesse direto na administração, nos investimentos, nas vendas de ativos e na capacidade das novas empresas de gerar caixa.
Disputa antiga
A participação dos credores nos conselhos era um dos pontos mais difíceis da negociação meses antes do acordo.
O Brasilianista mostrou que bancos e investidores pressionavam para receber uma participação maior no capital e obter influência efetiva nas decisões estratégicas da empresa.
A reivindicação de até 90% da companhia estava vinculada à proposta de transformar aproximadamente 45% dos débitos em ações.
Poucos dias depois, em 20 de abril, outra proposta passou a incluir de forma expressa a substituição de Rubens Ometto na presidência do conselho.
Os detentores de títulos também defendiam um aporte de R$ 8 bilhões e maior participação na gestão. O conflito permaneceu no fim daquele mês.
O Brasilianista destacou que a Raízen resistia a perder o controle do conselho e rejeitava mudanças estruturais mais profundas na administração.
Os credores, por outro lado, defendiam assentos no colegiado e mecanismos mais rígidos de acompanhamento das decisões empresariais.
Naquele momento, a companhia chegou a aceitar a criação de um comitê de credores para fiscalizar a execução do plano, mas ainda tentava preservar maior autonomia da gestão.
Ometto no conselho
A situação de Rubens Ometto é outro ponto acompanhado pelo O Brasilianista desde o início da recuperação.
O empresário continua atualmente como presidente do Conselho de Administração da Raízen.
A estrutura oficial divulgada pela companhia registra ainda três integrantes indicados pela Cosan, três pela Shell e dois conselheiros independentes.
O plano de recuperação, contudo, vinculou a permanência de Ometto no novo desenho da administração ao aporte de R$ 500 milhões pela Aguassanta Investimentos.
O Brasilianista informou que, caso esse aporte não seja feito nas condições previstas, Ometto deverá deixar o colegiado. A reorganização abriria então espaço adicional para representantes dos credores.
Essa cláusula ajuda a explicar por que a composição dos futuros conselhos se tornou um ponto relevante antes mesmo da conclusão de todas as etapas societárias.
O controle atual da Raízen ainda está dividido entre Cosan e Shell. Dados de Relações com Investidores mostram que cada uma possui 44% do capital total da companhia, enquanto o restante está principalmente em circulação no mercado.
Dívida convertida
O plano apresentado pela Raízen em junho contemplava aproximadamente R$ 65 bilhões em compromissos financeiros.
Na principal modalidade prevista para os grandes credores, 45% da dívida reestruturada será transformada em participação acionária pelo preço de R$ 0,25 por ação. Os outros 55% permanecerão como dívida, mas com novos prazos e condições.
Esse passivo remanescente também será distribuído entre as duas operações.
Pelo desenho divulgado pela companhia, o equivalente a 17,6% da dívida reestruturada ficará ligado à Raízen Energia, enquanto 37,4% será associado ao negócio de combustíveis.
Os vencimentos previstos chegam à próxima década, há instrumentos com datas de pagamento em 2032, 2033, 2034 e 2035.
Em julho, a Justiça de São Paulo homologou a recuperação extrajudicial. Naquele estágio, o plano alcançava cerca de R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras e contava com adesão de 81,6% dos credores sujeitos à negociação.
Duas empresas
A recuperação também prevê a divisão das atividades hoje concentradas dentro da Raízen.
Uma companhia ficará responsável pelo negócio de combustíveis, que inclui distribuição e comercialização. A outra concentrará açúcar, etanol e bioenergia.
A separação deverá ser concluída até o final de 2027, segundo os termos divulgados durante a negociação da recuperação.
A cisão busca permitir que cada negócio tenha estrutura financeira, governança e endividamento próprios.
Também facilita a entrada dos atuais credores como acionistas e a distribuição das obrigações financeiras entre as duas operações.
A empresa atual continuará existindo durante a fase de execução do plano e de preparação da separação.
Prejuízo bilionário
A disputa por cadeiras no conselho não começou apenas por diferenças de visão sobre governança.
Os resultados financeiros explicam a pressão exercida pelos credores durante a negociação.
O Brasilianista mostrou que a Raízen registrou prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões no quarto trimestre da safra 2025/2026, contra resultado negativo de R$ 2,5 bilhões no mesmo período anterior.
A dívida informada naquele balanço chegou a R$ 58,2 bilhões, alta de 69,9%, enquanto a receita líquida caiu 11,1%, para R$ 51,3 bilhões.
A empresa, por outro lado, informou ter reduzido aproximadamente R$ 1 bilhão em custos e R$ 3,3 bilhões em investimentos no período.
A reorganização também passou pela venda de ativos. Em julho, a Raízen acertou a venda da Usina Caarapó, no Mato Grosso do Sul, para a Adecoagro por R$ 760 milhões.
A operação faz parte da estratégia de concentrar recursos em unidades consideradas mais rentáveis e reduzir endividamento.
Antes disso, a empresa havia fechado acordo para vender suas operações de distribuição na Argentina à Mercuria Energy Group por cerca de US$ 1,42 bilhão.
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