O Banco Central (BC) arquivou o inquérito instaurado no processo de liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, antiga Reag Trust DTVM, e determinou o levantamento da indisponibilidade dos bens de ex-administradores e controladores da instituição.
Entre os beneficiados pela medida está João Carlos Mansur, fundador da Reag. A decisão foi revelada pelo Valor Econômico nesta sexta-feira (11).
O arquivamento, porém, não significa o encerramento das demais investigações relacionadas à Reag nem invalida as irregularidades identificadas durante o trabalho da comissão.
O próprio inquérito do Banco Central apontou graves infrações administrativas e indícios de crimes.
A conclusão foi de que os fatos analisados naquele procedimento específico não provocaram prejuízos patrimoniais a terceiros.
A antiga Reag aparece em diferentes frentes de investigação abertas nos últimos meses.
João Carlos Mansur é investigado na Operação Compliance Zero, relacionada ao Banco Master, e assinou em setembro um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Empresas e fundos ligados ao grupo também foram citados na Operação Carbono Oculto, que apura lavagem de recursos atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Inquérito arquivado
A Comissão de Inquérito do Banco Central concluiu os trabalhos em 4 de setembro.
O procedimento havia sido criado para examinar a situação patrimonial da antiga Reag Trust DTVM, as causas da liquidação, eventuais prejuízos, irregularidades administrativas e possíveis responsabilidades de controladores e administradores.
Para realizar a análise, a comissão requisitou informações da Junta Comercial, Receita Federal, órgãos fazendários, auditores independentes e áreas técnicas do próprio Banco Central.
O exame encontrou um patrimônio líquido ajustado positivo de R$ 12,86 milhões na data da liquidação.
Segundo o relatório, não foram identificados prejuízos a terceiros decorrentes dos atos examinados pela comissão.
Essa conclusão permitiu o arquivamento do inquérito e a retirada das restrições sobre os patrimônios dos administradores e controladores atingidos pela medida.
Isso não significa que o Banco Central tenha concluído pela inexistência de irregularidades.
A comissão registrou infrações administrativas consideradas graves e indícios de crimes, apesar de não ter encontrado perdas patrimoniais que justificassem a manutenção daquele inquérito dentro do regime de liquidação.
Bens liberados
Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF DTVM, em 15 de janeiro, também tornou indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.
A medida decorre da Lei nº 6.024, de 1974. A legislação determina que administradores de instituições financeiras submetidas à liquidação extrajudicial não possam vender ou onerar seus bens até que eventuais responsabilidades sejam apuradas.
Com o encerramento do inquérito sem identificação de prejuízo a terceiros, o Banco Central autorizou o levantamento dessa indisponibilidade.
A decisão alcança Mansur e outros ex-administradores e controladores atingidos pela restrição.
Liquidação mantida
O arquivamento também não significa que a liquidação extrajudicial tenha sido cancelada.
O Banco Central decretou a liquidação da CBSF DTVM em 15 de janeiro de 2026, um dia depois de Mansur ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal relacionada ao Caso Master.
Na ocasião, a autoridade monetária afirmou ter identificado “graves violações” às normas do Sistema Financeiro Nacional. A instituição representava menos de 0,001% do ativo total ajustado do sistema financeiro.
A liquidação interrompe as atividades da instituição e transfere sua administração para um liquidante escolhido pelo Banco Central.
No caso da CBSF, a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo foi nomeada para exercer a função.
Reag e Master
Outra conclusão do procedimento do BC trata da relação societária entre a distribuidora e o Banco Master.
Segundo as informações divulgadas após o encerramento da comissão, o inquérito não identificou a antiga Reag Trust DTVM como sócia ou acionista do Banco Master.
A conclusão não elimina, contudo, as investigações sobre fundos ligados à estrutura da Reag que mantiveram operações relacionadas ao Master.
A Polícia Federal investiga o uso de fundos na circulação de recursos ligados ao banco de Daniel Vorcaro.
Em janeiro, Mansur foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, que examinou fundos suspeitos de terem sido utilizados em operações destinadas a inflar o patrimônio do Master.
Investigações do BC e da PF identificaram fundos associados à Reag em operações com o banco.
Seis deles, Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna, somavam patrimônio líquido de aproximadamente R$ 102,4 bilhões.
Em 2024, fundos da Reag também participaram de uma operação de aumento de capital do Banco de Brasília (BRB).
Mansur delata
O arquivamento do inquérito do Banco Central ocorre poucos dias depois de João Carlos Mansur assinar o primeiro acordo de colaboração premiada da PGR relacionado ao Caso Master.
O acordo foi firmado em 2 de setembro e encaminhado ao ministro André Mendonça, relator das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), para análise de homologação.
Mansur entregou informações sobre operações de Daniel Vorcaro e afirmou que fundos relacionados à Reag teriam sido utilizados para esconder pagamentos de propina a autoridades públicas.
A colaboração também prevê a devolução de valores e pagamento de R$ 40 milhões em multa.
A proposta apresentada à PGR contém pelo menos 17 temas. Investigadores consideram que Mansur pode fornecer informações sobre o caminho percorrido por recursos retirados do Master e movimentados por fundos de investimento.
Mansur havia negado irregularidades anteriormente. Em depoimento à CPI do Crime Organizado, afirmou que a Reag possuía mecanismos de compliance e que a empresa havia sido penalizada por ser uma instituição “grande e independente”.
Carbono Oculto
A antiga estrutura da Reag também aparece na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 para investigar a entrada de recursos ligados ao PCC em negócios da economia formal.
Segundo a PF, fundos relacionados à casa teriam sido utilizados em operações suspeitas de lavagem de dinheiro.
Os investigadores apuram movimentações de até R$ 1 bilhão relacionadas à facção.
Dos cerca de 40 fundos investigados na operação por possíveis conexões com o PCC, quase uma dúzia estava vinculada à estrutura da Reag, segundo levantamento publicado pela Folha.
A empresa afirmou anteriormente que diversos fundos citados não estavam sob sua administração ou gestão e que, nos casos em que atuou como prestadora de serviços, cumpriu suas obrigações regularmente.
Também negou envolvimento com as atividades econômicas conduzidas pelos clientes investigados.
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