Economia

Selic cai, Fed sobe: o que esperar da economia nas próximas semanas?

Banco Central reduziu juros brasileiros pela quinta vez consecutiva, enquanto Federal Reserve fez primeira alta em três anos

Selic
Especialista explica por que consumidor ainda não sentirá alívio imediato e como decisões opostas podem afetar crédito, empresas e investimentos Foto: creative commons

A “superquarta” terminou com Brasil e Estados Unidos seguindo direções opostas na política monetária.

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, enquanto o Federal Reserve (Fed) elevou os juros americanos também em 0,25 ponto, para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano.

No Brasil, foi o quinto corte consecutivo desde março; nos Estados Unidos, a primeira alta dos juros em três anos.

As decisões colocam a economia brasileira diante de uma combinação menos simples do que a queda da Selic isoladamente sugere.

Internamente, juros menores começam a criar condições um pouco melhores para crédito e investimentos.

Externamente, juros americanos mais altos tornam os ativos dos Estados Unidos mais atraentes, podem pressionar o câmbio e aumentam a cautela do Banco Central brasileiro sobre até onde poderá seguir reduzindo a taxa básica.

Para entender o que muda para consumidores, empresas e investidores nas próximas semanas, O Brasilianista ouviu Filipe Martins, especialista em Economia e docente dos cursos de gestão do Centro Universitário Cesuca.

Segundo ele, a principal palavra para os próximos meses continua sendo gradualidade.

“A redução da Selic é uma sinalização positiva, mas o consumidor não vai ver de forma imediata essa queda nos juros que os bancos vão cobrar”, afirma Martins.

Quinto corte

A redução anunciada na quarta-feira (16) levou a Selic ao menor nível desde o início do atual ciclo de flexibilização.

Desde março, o Copom realizou cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual, acumulando redução de 1,25 ponto.

Mesmo assim, a taxa continua em patamar considerado elevado e permanece sendo utilizada pelo Banco Central como instrumento para levar a inflação de volta à meta.

Martins chama atenção justamente para a diferença entre o movimento da Selic e aquilo que aparece na conta do consumidor.

“Ela serve como uma referência para o custo do dinheiro da economia, mas as taxas de empréstimo e financiamento também vão considerar inadimplência e custos bancários na hora da definição”, explica.

Isso significa que a redução de 14% para 13,75% não produz uma queda equivalente nos juros do cartão, cheque especial, crédito pessoal ou financiamento bancário.

“Apesar desse corte de 0,25 ter um efeito pequeno no bolso, esse impacto vai demorar a aparecer para o consumidor”, ressalta o economista.

Na reunião anterior, realizada em agosto, O Brasilianista já havia mostrado cenário semelhante.

Na ocasião, o Copom reduziu a Selic para 14% e o economista Denis Medina avaliou que a diminuição de 0,25 ponto tinha efeito mais simbólico do que imediato sobre a atividade econômica.

Crédito gradual

O primeiro efeito tende a aparecer justamente nas modalidades mais ligadas ao custo de captação das instituições financeiras.

“No crédito, a tendência é que essa redução das taxas, principalmente em modalidades relacionadas ao custo de captação do banco, como financiamentos imobiliários, veículos e crédito, encontre um ambiente mais favorável”, afirma Martins.

O especialista, porém, faz uma ressalva importante.

“Apesar disso, 13,75% de Selic ainda é um valor elevado”, pontua.

Famílias interessadas em financiar imóveis ou veículos podem começar a encontrar condições ligeiramente melhores ao longo dos próximos meses, principalmente se o ciclo de cortes continuar.

Mas dificilmente haverá uma mudança imediata e generalizada nas taxas oferecidas pelas instituições.

A Selic é apenas um dos componentes do custo final. Risco de inadimplência, prazo da operação, garantias oferecidas pelo cliente, impostos, competição entre bancos e margem financeira também entram na formação dos juros cobrados.

Por isso, o consumidor tende a sentir os efeitos de forma mais lenta do que o mercado financeiro.

Empresas respiram

Para as empresas, o impacto pode aparecer antes em algumas operações.

“Os juros menores tendem a impactar no financiamento do capital de giro”, afirma Martins.

O custo do dinheiro é especialmente relevante para negócios que dependem de empréstimos para manter estoques, antecipar pagamentos ou financiar operações antes de receber pelas vendas.

O professor destaca ainda outra consequência.

“Comprar máquinas, ampliar instalações ou realizar novos investimentos passa a encontrar um ambiente um pouco mais favorável”, explica.

Essa é uma das razões pelas quais a redução dos juros é acompanhada de perto pelos setores produtivos.

Quando o financiamento fica mais barato, projetos que antes não compensavam economicamente podem se tornar viáveis.

“Isso vai ajudar a atividade econômica”, avalia Martins.

Mas, novamente, o efeito tende a ser progressivo.

“Estamos falando de um processo gradual. Ele não vai ser sentido no curto prazo, ainda vai levar mais tempo”, acrescenta.

Fed sobe

Enquanto o Brasil reduz juros, os Estados Unidos iniciaram um movimento na direção oposta.

O Federal Reserve decidiu por unanimidade elevar a taxa básica americana para a faixa entre 3,75% e 4%, justificando que a inflação permanece elevada e que uma política monetária mais restritiva ajudará a acelerar o retorno dos preços à meta de 2%.

Foi a primeira alta dos juros americanos desde julho de 2023.

A decisão também veio acompanhada de uma sinalização importante: 16 dos 18 integrantes do Fed projetam pelo menos mais uma elevação de 0,25 ponto até o fim de 2026.

As projeções divulgadas pelo banco central americano apontam taxa entre 4% e 4,25% ao final deste ano.

Isso cria um desafio adicional para o Banco Central brasileiro. Quanto maiores os juros nos Estados Unidos, maior tende a ser a remuneração oferecida por ativos considerados de baixo risco naquele país.

Para investidores internacionais, a diferença entre manter recursos no Brasil e nos Estados Unidos diminui à medida que a Selic cai aqui e o Fed aumenta os juros lá.

Esse diferencial é um dos fatores que influenciam entrada e saída de dólares, câmbio e preços de ativos.

Na manhã desta quinta-feira (17), o dólar abriu em queda, mas o mercado continuava avaliando justamente os efeitos combinados das duas decisões sobre o fluxo internacional de capital.

Caminhos opostos

Brasil e Estados Unidos chegam à superquarta em momentos diferentes do ciclo inflacionário.

No Brasil, o IPCA acumulou 4,22% em 12 meses até agosto, depois de registrar deflação no mês, enquanto a atividade econômica apresentou sinais de desaceleração. Ainda assim, o índice permanece acima do centro da meta de inflação, de 3%.

Nos Estados Unidos, o Fed considera que a inflação continua excessivamente elevada.

A autoridade monetária revisou sua projeção para o índice PCE em 2026 para 3,7% e agora não espera retorno à meta de 2% antes de 2029.

Para Martins, é justamente o ambiente externo que impede concluir que o Brasil seguirá reduzindo a Selic automaticamente.

“O ciclo de redução da taxa Selic já está em andamento, porque esta foi a quinta queda consecutiva”, afirma.

Mas ele evita antecipar até onde os juros brasileiros podem chegar.

“Não podemos afirmar ainda onde esse ciclo vai chegar ou qual velocidade ele vai continuar”, ressalta.

Cortes pequenos

Até agora, o Banco Central adotou uma estratégia extremamente gradual.

“Desde março, os cortes vêm sendo bem graduais, sempre 0,25 ponto percentual”, lembra Martins.

A decisão desta semana manteve exatamente o mesmo ritmo observado desde o início do ciclo.

O comunicado do Copom também evitou prometer nova redução. O BC afirmou que a “magnitude total do ciclo de calibração” continuará dependendo das informações econômicas divulgadas daqui para frente e classificou o balanço de riscos para a inflação como mais elevado do que o habitual.

Para Martins, existem elementos que permitem imaginar novos cortes.

“Existem fatores favoráveis em relação à continuidade, principalmente a desaceleração da atividade econômica e a melhora de alguns indicadores de inflação”, afirma.

Mas eles convivem com obstáculos.

“Por outro lado, permanecem riscos importantes, como a inflação. A sua expectativa continua acima do centro da meta e o cenário internacional pode pressionar”, explica.

A decisão do Fed aumenta justamente o peso dessa última variável.

Câmbio atento

A diferença entre os juros brasileiros e americanos ainda é grande, a Selic está em 13,75%, enquanto a taxa do Fed está entre 3,75% e 4%.

Mas ela começou a diminuir pelas duas pontas. O Brasil reduziu juros e os Estados Unidos aumentaram.

Esse movimento pode reduzir, na margem, a atratividade de estratégias conhecidas como carry trade, nas quais investidores captam recursos em economias com juros baixos e aplicam em mercados que oferecem remuneração maior.

Se a diferença diminuir demais, parte desses recursos pode deixar ativos brasileiros.

Isso pode pressionar o dólar. E um dólar mais caro pode atingir inflação por meio dos preços de combustíveis, produtos importados, fertilizantes, máquinas e matérias-primas.

É uma das razões pelas quais a decisão americana passa a ter peso direto nas próximas reuniões do Copom.

“O Banco Central vai sempre observar o cenário reunião a reunião”, afirma Martins. “Vai depender de outros fatores, não necessariamente apenas os internos, mas os externos também”, completa.

Próxima reunião

A próxima decisão do Copom será tomada em novembro, já depois das eleições. Até lá, o Banco Central terá novos dados de inflação, emprego, atividade econômica, contas públicas e câmbio para definir se continuará reduzindo a Selic ou fará uma pausa.

As próprias instituições financeiras ainda divergem sobre esse ponto. Parte dos analistas consultados após a decisão desta semana passou a projetar manutenção dos juros em 13,75% até o fim do ano, principalmente diante da alta dos juros americanos.

Outras casas ainda esperam novos cortes e projetam uma Selic menor em dezembro.

Martins prefere não tratar a sequência de cortes como automática.

“Em relação a esse ciclo de queda, o Banco Central vai sempre observar o cenário reunião a reunião”, reforça.

É uma diferença importante. A existência de cinco reduções consecutivas não obriga o Copom a realizar uma sexta.

Investimentos mudam

A sequência de cortes também começa a mudar a lógica dos investimentos.

“Nas aplicações também existe uma mudança, pois investimentos pós-fixados vinculados à Selic tendem, aos poucos, a entregar uma rentabilidade nominal menor”, explica Martins.

CDBs pós-fixados, Tesouro Selic e fundos que acompanham o CDI continuam oferecendo remuneração elevada devido ao patamar de 13,75%.

Mas a tendência é de redução do retorno caso o ciclo de queda prossiga. Isso não significa que esses investimentos deixem imediatamente de ser atrativos.

Significa que a diferença entre produtos conservadores e outros ativos começa lentamente a mudar.

Uma sequência maior de cortes pode levar investidores a buscar alternativas prefixadas, títulos indexados à inflação ou ativos de maior risco.

O movimento depende, porém, das expectativas para juros futuros. Se o mercado acreditar que o Banco Central interromperá o ciclo por causa do Fed, da inflação ou do câmbio, essa migração pode ser menor.

Bolso demora a sentir

Para o consumidor, portanto, o cenário das próximas semanas não será de uma transformação brusca.

A Selic caiu, mas permanece alta. Os bancos podem começar a ajustar determinadas linhas de crédito, principalmente aquelas de prazo maior e mais sensíveis ao custo de captação, mas cartões, empréstimos pessoais e outras modalidades continuarão refletindo riscos e custos próprios.

“A redução da Selic é uma sinalização positiva”, repete Martins.

Mas o professor ressalta que não se deve confundir sinalização com dinheiro imediatamente mais barato.

“O consumidor não vai ver de forma imediata essa queda nos juros que os bancos vão cobrar”, afirma.

O mesmo vale para a economia como um todo. O efeito dos juros costuma aparecer com atraso sobre consumo, investimento e inflação.

Superquarta oposta

A diferença em relação à última análise publicada pelo O Brasilianista, em agosto, está principalmente no cenário externo.

Na ocasião, a Selic havia acabado de cair para 14%, e Denis Medina já alertava que acontecimentos internacionais poderiam voltar a pressionar energia, alimentos e matérias-primas e limitar a velocidade dos cortes brasileiros.

Pouco mais de um mês depois, esse risco ganhou um componente adicional. O Fed não apenas manteve juros elevados como voltou a aumentá-los e indicou que novas altas podem ocorrer.

O presidente do banco central americano, Kevin Warsh, disse após a reunião que a economia dos Estados Unidos se fortaleceu e que a inflação precisa retornar mais rapidamente à meta.

As projeções do Fed agora indicam juros entre 4% e 4,25% ao fim de 2026 e também ao final de 2027.

Próximas semanas

Para famílias, a consequência mais imediata será pequena. Quem precisa contratar crédito continuará encontrando juros elevados, embora alguns financiamentos possam começar a apresentar condições melhores.

Para empresas, o corte favorece gradualmente capital de giro, compra de equipamentos e decisões de investimento.

Para investidores, aplicações atreladas à Selic começam a perder rentabilidade aos poucos, mas seguem beneficiadas pelo patamar ainda alto da taxa.

E para o Banco Central, o desafio se torna maior.

De um lado, desaceleração econômica e inflação mais favorável dão espaço para novos cortes.

Do outro, inflação ainda acima do centro da meta, incertezas domésticas e um Fed novamente elevando juros pedem cautela.

“Existem fatores favoráveis em relação à continuidade, principalmente a desaceleração da atividade econômica e a melhora de alguns indicadores de inflação”, resume Martins. “Por outro lado, permanecem riscos importantes”, acrescenta.

E é por isso que a quinta queda consecutiva da Selic não garante a sexta.

“O Banco Central vai sempre observar o cenário reunião a reunião”, conclui o economista.

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