Entrevistas

Quem ganharia e quem perderia se o Brasil adotasse o dólar?

O economista Fábio Murad apresenta as vantagens e desvantagens deste cenário

Dólar
A dolarização não é um processo tão simples (Foto: Magnific)

Durante as décadas de 1980 e 1990, o brasileiro conviveu com uma inflação que corroía o salário, dificultava o planejamento financeiro e transformava os preços em uma corrida contra o relógio. Foram anos de planos econômicos, congelamentos de preços, troca de moedas e tentativas de estabilização até a chegada do Plano Real, em 1994, que finalmente conseguiu interromper um longo ciclo de hiperinflação.

Mais de 30 anos depois, a experiência argentina e os debates sobre dolarização reacendem uma questão que também provoca discussões no Brasil: seria possível abrir mão do real e adotar o dólar como moeda? A ideia, que poderia trazer maior estabilidade cambial e proteção contra a inflação, também significaria abrir mão de instrumentos importantes de política monetária e poderia produzir efeitos muito diferentes entre trabalhadores, consumidores, empresas, bancos e governo.

Para entender os possíveis impactos de uma mudança dessa magnitude, O Brasilianista conversou com exclusividade com Fábio Murad, economista e Consultor da Wiser Asset.

Se o Brasil adotasse o dólar amanhã, quem seriam os grandes vencedores (consumidores, investidores, empresas, bancos ou trabalhadores)?

Os principais vencedores seriam aqueles que já possuem alguma exposição internacional ou que têm negócios conectados à economia global.

Investidores com patrimônio em ativos internacionais seriam beneficiados porque eliminariam o risco de conversão entre real e dólar. Empresas importadoras também poderiam ganhar com maior previsibilidade de preços, já que grande parte dos custos internacionais deixaria de sofrer com oscilações cambiais.

Consumidores poderiam se beneficiar de uma moeda mais estável, principalmente em produtos importados, tecnologia e viagens internacionais.

Mas é importante destacar: adotar o dólar não tornaria automaticamente o brasileiro mais rico. A moeda é apenas uma ferramenta. A riqueza de um país depende de produtividade, crescimento econômico e capacidade de gerar valor.

Se o Brasil adotasse o dólar amanhã, quem seriam os grandes perdedores?

O maior perdedor seria o próprio governo brasileiro, porque perderia uma ferramenta importante de política econômica: a capacidade de emitir sua própria moeda.

Hoje, o câmbio funciona como um mecanismo de ajuste. Em momentos de crise, uma desvalorização do real pode ajudar exportadores e permitir algum ajuste econômico. Com o dólar como moeda oficial, esse instrumento desapareceria.

Também poderiam perder empresas menos eficientes, que atualmente conseguem sobreviver em parte graças à proteção cambial ou a um ambiente econômico menos competitivo.

O que exatamente significa “adotar o dólar”: abandonar completamente o real ou apenas atrelar a moeda brasileira ao dólar?

Existem modelos diferentes.

A dolarização completa significaria abandonar o real e utilizar o dólar como moeda oficial, como alguns países fizeram.

Outra possibilidade seria manter o real, mas criar uma relação fixa ou controlada com o dólar, limitando a variação cambial.

São decisões muito diferentes. A primeira elimina a moeda nacional; a segunda mantém a moeda, mas reduz a liberdade de política cambial.

Para o brasileiro comum, qual seria a primeira mudança percebida no dia a dia?

A primeira mudança seria a forma como as pessoas enxergam preços e salários.

Os brasileiros passariam a pensar diretamente em uma moeda internacional, e produtos ligados ao mercado externo teriam maior previsibilidade.

Mas a mudança mais importante seria psicológica: o brasileiro deixaria de conviver com o histórico de perda constante de poder de compra causada pela inflação elevada.

O Brasil já passou por uma experiência de inflação extremamente elevada. O que a história da hiperinflação dos anos 1980 e início dos anos 1990 ensina sobre os riscos de perder o controle da moeda?

A principal lição é que uma moeda sem credibilidade destrói a capacidade de planejamento.

Durante a hiperinflação, famílias e empresas tinham dificuldade para guardar dinheiro, fazer contratos de longo prazo ou planejar investimentos. O problema não era apenas o aumento dos preços, mas a perda da confiança na moeda.

A estabilidade monetária é uma das bases para o desenvolvimento econômico.

Dolarizar seria uma espécie de “seguro” contra o Brasil voltar a viver uma hiperinflação?

Sim, poderia funcionar como uma proteção contra uma crise monetária extrema, porque o governo perderia a capacidade de emitir moeda livremente.

Por outro lado, esse seguro teria um custo: o país perderia autonomia para responder a crises econômicas.

A dolarização pode impedir determinados problemas, mas não resolve questões como baixa produtividade, gastos públicos elevados ou falta de crescimento.

O que o governo brasileiro perderia ao abrir mão do real?

O governo perderia a chamada soberania monetária.

Isso significa perder a capacidade de controlar a oferta de moeda, definir uma política cambial própria e usar a moeda como instrumento de ajuste econômico.

Em uma crise, o Brasil teria menos ferramentas para agir sozinho e dependeria mais das condições da economia americana.

Se o salário fosse pago em dólar, o brasileiro ficaria mais rico ou apenas mudaria a unidade de medida?

Na maioria dos casos, seria apenas uma mudança de unidade de medida.

Se uma pessoa ganha o equivalente a US$ 1.000 por mês em uma economia com os mesmos preços e a mesma produtividade, ela não ficou automaticamente mais rica.

A riqueza real vem do aumento da produtividade, dos salários reais e da capacidade de produzir mais valor.

Existe algum cenário em que a dolarização faria sentido para o Brasil?

Poderia fazer sentido em um cenário de extrema perda de confiança na moeda nacional, inflação persistente ou incapacidade de recuperar a credibilidade monetária.

Mas não é uma solução simples. Para funcionar, precisaria vir acompanhada de responsabilidade fiscal, instituições fortes e uma economia competitiva.

A moeda é consequência da qualidade da economia, não uma substituta para ela.

Se você tivesse que explicar em uma frase: o Brasil ficaria mais estável ou apenas menos capaz de reagir a crises ao adotar o dólar?

O Brasil provavelmente ficaria mais estável do ponto de vista monetário, mas teria menos capacidade de reagir sozinho às próprias crises.

A grande questão não é apenas qual moeda o país usa, mas se a economia consegue gerar produtividade, confiança e crescimento.

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