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Geopolítica

O remédio brasileiro começa na China e na Índia

Brasil produz apenas 6% dos insumos farmacêuticos ativos que consome e depende do exterior para a molécula que faz o medicamento funcionar

Remédio
Especialistas alertam que dólar, guerras comerciais e interrupções logísticas podem atingir preços e abastecimento do SUS Foto: Roberto Sorin/Unsplash

Um comprimido pode ser fabricado, prensado, embalado e vendido por uma empresa instalada no Brasil e ainda depender de uma fábrica localizada a milhares de quilômetros para existir.

O elemento que efetivamente produz o efeito terapêutico, chamado Insumo Farmacêutico Ativo, o IFA, continua sendo majoritariamente importado pela indústria brasileira.

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O levantamento mais recente sobre a capacidade produtiva nacional mostra o tamanho dessa dependência.

O 3º Censo do Setor Farmoquímico no Brasil, publicado em maio de 2026, calculou que as empresas brasileiras produziram 1.760 toneladas de IFAs em 2025, quantidade suficiente para atender apenas 6% da demanda nacional.

Aproximadamente 94% da matéria-prima farmacêutica utilizada no país ainda precisa vir do exterior, embora diferentes levantamentos trabalhem com percentuais entre 90% e 95%, dependendo do período e dos produtos considerados.

O BNDES, usando dados da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos, estimava em 2025 que 95% dos IFAs utilizados no país eram importados.

China e Índia ocupam posições fundamentais nessa cadeia. São países que passaram décadas construindo capacidade industrial de química fina, produção em escala, parques farmacêuticos, laboratórios e cadeias de fornecedores capazes de fabricar moléculas a custos difíceis de serem reproduzidos pela indústria brasileira.

Para Marcos Valle, economista, doutor em Sociologia e docente da Escola de Negócios da Universidade Positivo, essa posição brasileira na etapa final da cadeia transforma uma questão industrial em problema de segurança sanitária.

“A composição dos medicamentos e a cadeia global de valor, que é liderada principalmente pela China e pela Índia, e o Brasil ocupa uma posição bem de ponta final, ou seja, de receber esses insumos e aí preparar os medicamentos e colocá-los à disposição, nos deixa numa situação de muita vulnerabilidade”, avalia Valle.

Brasil já produziu metade dos IFAs que consumia

A atual dependência não surgiu porque o país nunca teve uma indústria farmoquímica relevante.

Dados reunidos pela Abiquifi e citados pelo BNDES mostram que, três décadas atrás, aproximadamente 50% da demanda brasileira de IFAs era atendida por produção nacional.

Essa participação caiu até chegar a cerca de 5% na medição utilizada pelo banco em 2025.

O levantamento da Fiocruz, produzido com outra metodologia e dados mais recentes, encontrou 6% no ano passado, diferença pequena diante da dimensão da retração histórica.

Um estudo setorial publicado pelo BNDES em 2025 aponta que a concorrência com farmoquímicos importados, principalmente da China e da Índia, esteve entre os principais fatores que reduziram a competitividade da produção brasileira.

Comprar moléculas produzidas em grande escala na Ásia passou a ser economicamente mais atraente que manter determinadas linhas industriais no país.

O resultado foi uma especialização diferente. O Brasil preservou uma indústria farmacêutica importante na etapa de formulação, transformação do IFA em medicamento, embalagem, distribuição, pesquisa e produção de genéricos, enquanto grande parte da química necessária para produzir a molécula permaneceu no exterior.

“China e Índia desenvolveram ecossistemas industriais integrados. Em contrapartida, o Brasil focou no modelo de formulação final, que abrange a mistura, compressão, embalagem e distribuição de medicamentos a partir de insumos já prontos”, explica Marco Aurelio da Silva, mestre em Administração, consultor de empresas em negócios internacionais e docente de Comércio Exterior e Relações Internacionais da FSG.

Só 37 empresas nacionais

O censo publicado neste ano permite olhar para o que restou dessa estrutura industrial.

Os pesquisadores identificaram 37 empresas brasileiras produtoras de IFAs por síntese química, biotecnologia ou extração animal e vegetal e realizaram visitas presenciais a 32 delas.

Entre as empresas pesquisadas, 95% tinham capital nacional e 98% possuíam certificações nacionais ou internacionais.

O faturamento anual conjunto ficou próximo de R$ 18 bilhões, enquanto 70% mantinham estrutura própria de pesquisa e desenvolvimento e 40% participavam de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo.

Os números mostram que a limitação brasileira não decorre simplesmente da inexistência de conhecimento técnico.

 Os autores do levantamento concluíram que existe capacidade instalada e qualificação para ampliar a produção, mas que a expansão depende de políticas industriais capazes de transformar pesquisa, plantas existentes e demanda doméstica em produção economicamente competitiva.

Uma alta do dólar chega à fábrica antes de aparecer na farmácia

A dependência externa cria uma primeira exposição que não precisa de guerra ou pandemia para acontecer.

Como contratos internacionais, fretes e parte dos IFAs são negociados em moeda estrangeira, uma desvalorização do real aumenta o custo da matéria-prima necessária para produzir medicamentos brasileiros.

A própria metodologia usada pelo governo para regular preços reconhece essa relação.

A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos inclui a variação dos custos de importação, usando o câmbio como referência, entre os componentes analisados para determinar o reajuste anual permitido ao setor.

Isso não significa que uma valorização do dólar seja imediatamente transferida para a etiqueta na farmácia.

O mercado brasileiro opera sob teto regulado pela CMED e, para o período iniciado em abril de 2026, os reajustes máximos autorizados ficaram entre 1,13% e 3,81%, dependendo da categoria.

Quando a matéria-prima encarece acima daquilo que pode ser recuperado imediatamente no preço, a pressão permanece na indústria ou aparece nas compras realizadas pelo setor público.

“Como os insumos são cotados em moeda estrangeira, qualquer desvalorização acentuada do real frente ao dólar encarece imediatamente a produção interna. Esse custo adicional é repassado ao consumidor ou pressiona a margem do setor público”, observa Valle.

Para o SUS, dólar caro significa comprar menos

A vulnerabilidade cambial possui uma consequência diferente quando o comprador é o Estado.

União, estados e municípios adquirem medicamentos em grandes volumes para hospitais, unidades básicas, assistência farmacêutica e diferentes programas do SUS, e parte dessas compras está submetida a preços máximos específicos definidos pela CMED.

O sistema utiliza o Preço Máximo de Venda ao Governo, o PMVG, calculado a partir de descontos obrigatórios para determinados medicamentos vendidos à administração pública.

O mecanismo limita quanto o fornecedor pode cobrar, mas não elimina a elevação do custo industrial provocada por matéria-prima importada.

Marco Aurelio da Silva aponta que uma alta persistente dos custos pode reduzir o poder de compra de programas públicos, principalmente quando os orçamentos não são reajustados na mesma velocidade.

“No setor público, a alta cambial encarece as compras do Sistema Único de Saúde e reduz o poder de compra de programas fundamentais como a Farmácia Popular”, assinala Silva.

O risco mais grave

Câmbio e preço ainda pressupõem que o IFA esteja disponível para venda. Uma crise sanitária, guerra, restrição comercial ou decisão política do país produtor cria um problema diferente, mesmo disposto a pagar mais, o Brasil pode não encontrar imediatamente outro fabricante capaz de entregar a mesma substância na quantidade e dentro das especificações sanitárias necessárias.

A pandemia de Covid-19 mostrou essa vulnerabilidade de maneira concreta. Países produtores priorizaram mercados domésticos, cadeias internacionais enfrentaram gargalos e o Brasil precisou aguardar insumos asiáticos para sustentar parte da fabricação nacional de vacinas e outros produtos médicos.

Valle considera esse o segundo grande risco da concentração geográfica.

“Em cenários de crise internacional, conflitos geopolíticos ou emergências sanitárias, esses países produtores podem priorizar o mercado interno ou restringir embarques para garantir seu próprio abastecimento”, alerta o economista.

Trocar um fornecedor de IFA

A substituição também encontra uma barreira sanitária. Um fabricante de IFA destinado ao mercado brasileiro precisa cumprir requisitos técnicos e de boas práticas e, dependendo do produto e da situação regulatória, passar por certificações, registros e inspeções da Anvisa.

Em fevereiro de 2026, durante missão brasileira à Índia, a agência aprovou seis plantas indianas produtoras de IFAs para fornecer ao mercado brasileiro.

Entre os insumos estavam substâncias empregadas em medicamentos contra hipertensão, herpes, colesterol e depressão, além do tacrolimo, utilizado por pacientes transplantados. 

A lista ajuda a dimensionar por que uma interrupção não pode ser corrigida apenas telefonando para uma empresa de outro país.

É preciso encontrar capacidade produtiva, negociar volume, cumprir especificações, qualificar o fornecedor, transportar o insumo e atender às exigências sanitárias brasileiras.

A Anvisa e o órgão regulador indiano assinaram na mesma missão um memorando para acelerar a troca de informações sobre medicamentos, IFAs e dispositivos médicos.

A cooperação buscou justamente tornar mais ágeis as avaliações sem retirar os controles sanitários necessários.

Índia também depende da China

A própria divisão entre “produto indiano” e “produto chinês” esconde outra camada dessa cadeia.

A Índia desenvolveu uma das maiores indústrias farmacêuticas do mundo, mas também importa uma parcela significativa das matérias-primas e intermediários necessários para fabricar seus próprios produtos.

Em análise publicada pela Fiocruz sobre a indústria indiana, pesquisadores apontaram que aproximadamente dois terços dos IFAs utilizados na Índia eram importados e, desse volume, cerca de dois terços vinham da China.

O governo indiano passou a incentivar a produção doméstica justamente para reduzir essa exposição.

Isso cria uma cadeia em que um medicamento formulado no Brasil pode utilizar um IFA adquirido de uma empresa indiana cuja própria produção depende de intermediários químicos chineses.

Uma ruptura no início da cadeia pode, portanto, atingir fornecedores localizados em países diferentes antes de chegar à fábrica brasileira.

Essa estrutura ajuda a explicar por que segurança farmacêutica não pode ser medida apenas pelo número de países dos quais o Brasil importa.

É necessário conhecer também de onde vêm as matérias-primas utilizadas pelos próprios fornecedores.

Uma interrupção marítima

A terceira vulnerabilidade descrita por Valle está entre a fábrica estrangeira e o território brasileiro.

Insumos produzidos na Ásia atravessam uma cadeia internacional de portos, navios, aeroportos, terminais, seguros, alfândegas e centros de distribuição antes de chegar ao fabricante do medicamento.

Uma crise que feche determinada rota marítima não precisa atingir diretamente China ou Índia para produzir efeitos.

O desvio de embarcações aumenta distâncias, prazo de entrega, preço do combustível, seguro e custo do frete, enquanto determinados produtos farmacêuticos ainda possuem requisitos específicos de temperatura e acondicionamento.

“Qualquer interrupção nas rotas marítimas ou novas crises sanitárias globais podem causar desabastecimento de remédios básicos no Brasil em poucas semanas”, projeta Valle.

O tamanho real desse intervalo depende do estoque de cada medicamento, do fabricante, do IFA e da existência de fornecedores alternativos.

Não existe um prazo único de “quantas semanas o Brasil aguenta” que possa ser aplicado a todos os medicamentos.

Importações de farmoquímicos

A dependência também aparece na balança comercial. Dados do Comex Stat compilados pela Confederação Nacional da Indústria mostram que as importações brasileiras do conjunto formado por produtos farmoquímicos e farmacêuticos chegaram a US$ 16,4 bilhões em 2025, contra US$ 14 bilhões no ano anterior.

O crescimento foi de 17,4% em apenas um ano, e essa categoria respondeu por 6,3% de todas as importações brasileiras de bens da indústria de transformação.

O número inclui medicamentos acabados e outros produtos farmacêuticos, portanto não pode ser apresentado como valor gasto exclusivamente com IFAs.

A expansão das importações ocorre ao mesmo tempo em que o mercado farmacêutico brasileiro cresce.

Quanto maior a produção final de medicamentos sem expansão equivalente da química nacional, maior pode ser a necessidade de matéria-prima externa.

China e Índia fizeram durante décadas aquilo que o Brasil interrompeu

O domínio asiático não surgiu apenas de salários mais baixos. China e Índia associaram mercado interno, política industrial, infraestrutura, formação de trabalhadores, incentivos tributários e grandes parques químicos a estratégias mantidas durante décadas.

A China ganhou escala principalmente na fabricação de moléculas, intermediários químicos e matérias-primas.

A Índia tornou-se uma potência em genéricos, formulações e IFAs, chegando aos mercados mais regulados do mundo com uma indústria especializada em produção de grande volume.

“Ambos os países adotaram programas de Estado persistentes por décadas, unindo incentivos fiscais, parques industriais dedicados, fortes investimentos em síntese química e proteção da indústria nascente até alcançarem competitividade global”, descreve Silva.

No Brasil, a abertura comercial e a redução da competitividade das plantas locais tornaram economicamente atraente importar determinadas moléculas.

A perda de escala produziu um círculo difícil de romper, fábricas menores competem com gigantes asiáticas que produzem para o mercado mundial, conseguem diluir seus custos e oferecem preços inferiores.

Produzir IFA no Brasil custa muito

Reconstruir essa indústria exige investimentos que não retornam rapidamente. Uma nova planta farmoquímica precisa de equipamentos especializados, controle de qualidade, tratamento de resíduos, desenvolvimento de processos químicos, técnicos treinados, validação e autorização sanitária antes de competir comercialmente.

Também não basta construir a fábrica. Se o produto brasileiro permanecer substancialmente mais caro que a matéria-prima importada e não houver garantia de compras, a empresa pode não conseguir operar em escala suficiente para recuperar o capital investido.

É nesse ponto que os dois economistas destacam o papel do Estado como comprador.

“O que precisaria para o futuro é justamente uma destinação de maior investimento nessa estrutura, usando o próprio SUS como uma base para desenvolvimento, a criação de incentivos fiscais e financiamento de longo prazo”, propõe Valle.

O SUS pode deixar de ser apenas comprador e funcionar como política industrial

O governo federal já começou a transformar essa ideia em política permanente. Em julho de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.471, que criou a Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde e incorporou explicitamente à legislação o objetivo de reduzir a dependência produtiva e tecnológica brasileira.

A lei permite utilizar compras públicas, financiamento, transferência de tecnologia, inovação e parcerias entre empresas e laboratórios públicos para estimular produção nacional.

Os IFAs foram expressamente classificados entre os produtos que podem ser considerados estratégicos para segurança sanitária e sustentabilidade do SUS.

Uma das principais ferramentas são as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo, as PDPs.

Nelas, empresas privadas podem transferir tecnologia para laboratórios nacionais enquanto o poder público utiliza sua demanda de medicamentos para dar escala ao projeto.

Governo já financia produção nacional de IFAs para câncer

Esse mecanismo começa a aparecer em investimentos concretos. Em junho de 2025, o BNDES aprovou R$ 220 milhões para um programa da Blanver que inclui desenvolvimento de novos medicamentos e internalização da produção dos IFAs de parte deles.

O projeto envolve 19 medicamentos, entre eles novos genéricos destinados ao tratamento de diferentes tipos de câncer e diabetes, além de produtos relacionados ao tratamento de HIV.

O objetivo industrial é deixar de importar parte das moléculas e produzir essas etapas dentro do país.

A existência desses investimentos mostra que reduzir a dependência não exige necessariamente tentar fabricar todos os IFAs consumidos no Brasil.

Uma política de segurança sanitária pode priorizar medicamentos nos quais uma interrupção externa teria consequências graves e produtos de grande relevância para as compras do SUS.

A meta de 70% do governo não significa produzir 70% dos IFAs

Há uma diferença importante entre a meta industrial anunciada pelo governo e o atual percentual de produção de IFAs.

A Nova Indústria Brasil prevê alcançar 70% de produção local até 2033 para o conjunto das necessidades nacionais em medicamentos, vacinas, equipamentos, dispositivos, materiais e outras tecnologias em saúde.

Esse percentual não significa que o governo tenha prometido fabricar 70% de todos os IFAs brasileiros até aquele ano.

A cesta utilizada para a meta é muito mais ampla e inclui setores nos quais o Brasil já possui participação industrial significativamente maior que os 6% encontrados no censo farmoquímico.

Separar os dois indicadores evita transformar um objetivo geral da política industrial em uma promessa específica sobre princípios ativos que o programa não fez.

Parceria com Índia

A relação com a Índia mostra outra característica dessa estratégia. Reduzir vulnerabilidade não significa necessariamente afastar-se dos países que hoje fornecem a matéria-prima, mas utilizar a relação comercial para obter tecnologia e criar capacidade produtiva brasileira.

Na missão realizada em fevereiro, Brasil e Índia incluíram nas negociações de saúde a transferência de tecnologia de insumos considerados estratégicos para o SUS, além da aproximação entre as agências reguladoras dos dois países.

Valle considera que parcerias desse tipo permitem diminuir o tempo necessário para desenvolver determinadas tecnologias porque o país não precisa construir sozinho todo o conhecimento industrial acumulado.

“Índia e China são parceiros econômicos fundamentais da economia brasileira e geralmente também trabalham com transferências de tecnologia, usando a expertise deles para que os investimentos, as pesquisas e o desenvolvimento não iniciem necessariamente do zero”, argumenta o professor.

Transferência de tecnologia só reduz dependência quando a produção realmente fica no Brasil

Silva acrescenta uma condição importante. Importar um medicamento de uma empresa estrangeira ou apenas trazer sua etapa final de embalagem para o território brasileiro não equivale a dominar a tecnologia do produto.

Para reduzir vulnerabilidade, a parceria precisa deixar conhecimento, capacidade industrial e pessoal qualificado capazes de continuar produzindo o insumo nacionalmente.

Caso contrário, a cadeia continua dependente do mesmo fornecedor, apenas com uma fase adicional realizada dentro do país.

“Parcerias de cooperação recente com a Índia devem priorizar a transferência de tecnologia real para laboratórios nacionais e oficiais, focando em medicamentos estratégicos e biológicos”, defende Silva.

Essa diferença é decisiva porque um medicamento classificado como nacional pode continuar dependendo de uma molécula estrangeira.

Para medir autonomia, é necessário acompanhar cada etapa da cadeia e não apenas o endereço da empresa que coloca o produto final no mercado.

Produzir de 20% a 30% dos insumos estratégicos levaria anos

Nenhum dos especialistas consultados considera realista substituir rapidamente a produção asiática.

Fábricas precisam ser projetadas e construídas, processos químicos desenvolvidos, tecnologias transferidas, equipamentos instalados, produtos validados e plantas certificadas antes da produção comercial.

Silva estima que uma mudança estrutural capaz de levar a produção brasileira dos atuais 5% a 6% para algo entre 20% e 30% dos produtos considerados estratégicos exigiria um horizonte de aproximadamente oito a 12 anos, desde que houvesse uma política contínua de financiamento, compras públicas e desenvolvimento industrial.

“Uma redução estrutural e segura da dependência levaria de 8 a 12 anos. A construção de plantas industriais de química fina e biotecnologia, o desenvolvimento de processos sintéticos, a validação regulatória e o ganho de escala de produção demandam ciclos longos”, estima o consultor.

O cálculo é uma projeção do especialista, não uma meta oficial nem um prazo garantido.

O resultado dependeria do volume investido, dos produtos escolhidos, da capacidade das empresas, das compras do SUS e da continuidade da política entre diferentes governos.

Autossuficiência total não é o objetivo

Tentar fabricar dentro do território brasileiro todas as moléculas utilizadas pelo mercado também produziria custos elevados e poderia ser economicamente ineficiente.

Países industrializados continuam participando de cadeias internacionais e importando determinados componentes porque nenhuma economia moderna fabrica competitivamente todos os produtos de que necessita.

A diferença está no grau de concentração e na existência de alternativas. Um insumo essencial comprado de diversos fornecedores em regiões diferentes representa um risco distinto de uma molécula produzida por poucas plantas localizadas no mesmo país ou dependentes de um único intermediário químico.

Por isso, Silva considera mais viável perseguir soberania sanitária estratégica, escolhendo os produtos cuja ausência poderia comprometer tratamentos, hospitais ou programas públicos.

“O objetivo viável para o Brasil não deve ser a autossuficiência total, mas sim a soberania sanitária estratégica para garantir capacidade nacional nos insumos essenciais”, conclui o especialista.

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