A eleição brasileira será acompanhada para além das fronteiras do país. Mais de 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar em outubro, número que coloca o Brasil entre as maiores democracias eleitorais do mundo.
Para Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e docente de Direito Internacional Público e Privado no Centro Universitário de Pinhais (Fapi), o interesse externo não se resume ao tamanho do eleitorado.
O resultado também pode indicar qual orientação econômica e diplomática o país pretende seguir nos próximos anos.
“Alguns têm uma visão mais à direita, outros mais à esquerda, alguns têm uma pauta um pouquinho mais conservadora, outros uma pauta mais progressista”, afirma o professor, ao destacar que essas diferenças também chegam à forma como o Brasil se relaciona com outros países.
Na avaliação de Zen, os projetos em disputa apresentam concepções distintas sobre a presença do Estado na economia e sobre as alianças internacionais que devem receber prioridade.
Entre Washington, Pequim e Bruxelas
Uma das principais questões observadas no exterior será a direção da política externa brasileira.
Zen identifica, de um lado, uma corrente mais inclinada à aproximação com os Estados Unidos e, de outro, uma estratégia que busca distribuir as relações entre diferentes polos econômicos.
“Nós temos também um outro projeto que busca uma aproximação um pouquinho mais diversa da economia, se aproximando de China, se aproximando de União Europeia”, diz.
Essa definição ocorre enquanto outros países também atravessam mudanças políticas.
O professor menciona especialmente os Estados Unidos, onde as eleições legislativas deste ano renovarão toda a Câmara dos Representantes e aproximadamente um terço do Senado.
Para Zen, a composição que surgir das urnas americanas poderá alterar as condições políticas enfrentadas pelo governo de Donald Trump.
“Isto pode ressignificar a política dos Estados Unidos nos próximos dois anos”, avalia.
Nesse cenário, a eleição brasileira se soma a um conjunto de disputas capazes de modificar relações entre governos, partidos e blocos econômicos.
Mudanças na América Latina
A posição do Brasil diante dos vizinhos também aparece entre os pontos destacados pelo especialista.
Argentina e Chile atualmente são governados, respectivamente, por Javier Milei e José Antonio Kast, ambos associados a agendas políticas de direita. Kast assumiu a Presidência chilena em março deste ano.
Zen entende que essas mudanças aumentam a importância da escolha brasileira dentro da região.
“Quais são os valores que o Brasil vai expor diante disso?”, questiona.
A resposta, segundo ele, dependerá não apenas do resultado para a Presidência, mas da orientação adotada pelo próximo governo em temas econômicos, diplomáticos e institucionais.
Futuro nos Brics
Outra frente acompanhada no exterior será a permanência e o grau de envolvimento brasileiro nos Brics.
Hoje, o agrupamento reúne 11 países e funciona como um fórum de articulação política, diplomática e econômica entre integrantes do Sul Global. O Brasil é um dos cinco membros fundadores.
Zen observa que existem setores políticos brasileiros com posições diferentes sobre o grau de proximidade desejável com o grupo.
“Como o Brasil vai ficar perante os Brics? Porque o Brasil, considerando os Brics Plus, é um país muito importante para o bloco”, afirma.
O professor destaca ainda as discussões dentro do agrupamento sobre maior utilização de moedas locais nas relações comerciais e sobre formas de ampliar a cooperação financeira entre seus integrantes.
Para ele, a escolha brasileira poderá sinalizar tanto continuidade quanto mudança na importância atribuída ao fórum.
“O mundo observa, no Brasil, como o Brasil fica na integração da América Latina e aproximação ou distanciamento com políticas dos Estados Unidos.”
Instituições sob observação
A atenção internacional não se limita a comércio e diplomacia. Zen inclui entre os pontos relevantes o debate brasileiro sobre instituições democráticas, sistema eleitoral e atuação do Poder Judiciário.
Segundo o professor, discussões semelhantes aparecem em outros países, ainda que com estruturas institucionais e contextos diferentes.
“Você vê discussões entre o Poder Executivo nos Estados Unidos e a Suprema Corte dos Estados Unidos. Você vê aqui uma intensificação do debate a respeito da Suprema Corte brasileira no meio das eleições”, compara.
Para Zen, esse debate ajuda a inserir o Brasil em uma discussão internacional mais ampla sobre os limites e atribuições das instituições dentro das democracias contemporâneas.
Ele também chama atenção para propostas políticas que defendem mudanças na relação dos países com organismos multilaterais e blocos internacionais.
“O quanto esse sistema se sustenta hoje ou o quanto esse sistema será rejeitado por partidos que buscam uma guinada mais à direita, uma guinada mais conservadora”, afirma.
IA e meio ambiente
Há ainda temas que passaram a ter peso maior nas relações internacionais e que podem ser afetados pela próxima administração.
Entre eles estão inteligência artificial, regulação de plataformas digitais, política ambiental e exploração de recursos estratégicos.
Zen destaca que governos ao redor do mundo adotam posições diferentes sobre o grau de regulamentação de novas tecnologias.
“Alguns grupos buscam desregulamentar e outros grupos buscam regulamentar”, diz.
No caso brasileiro, a pauta ambiental acrescenta outra dimensão. O país reúne biodiversidade, grandes reservas de água e depósitos de terras raras, recursos que ganharam relevância estratégica diante da transição energética e da disputa global por minerais.
Para o professor, essas características tornam as decisões brasileiras relevantes mesmo para países distantes da América do Sul.
“A pauta ambiental é muito importante para o Brasil porque temos uma biodiversidade muito relevante”, afirma, antes de citar também florestas, água e minerais estratégicos.
Redes sociais e fenômenos digitais transfronteiriços completam esse conjunto de temas.
Zen considera que o Brasil já passou a participar de algumas dessas discussões de maneira mais ativa e que o próximo governo poderá manter ou alterar essa direção.
“Agora o mundo está olhando para o Brasil e o que o Brasil fará a respeito disso”, resume.
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