China e Índia atravessaram confrontos militares, fecharam passagens comerciais e passaram anos reforçando tropas em uma das fronteiras mais tensas do mundo.
Agora, os dois países dão sinais de que querem reduzir a temperatura de uma rivalidade que envolve 2,8 bilhões de habitantes, duas potências nucleares e algumas das maiores economias do planeta.
A mudança já produz resultados concretos. Pequim e Nova Délhi retomaram negociações sobre a fronteira, reabriram corredores comerciais, avançaram na normalização de voos e vistos e voltaram a discutir investimentos.
No fim de agosto, representantes dos dois governos chegaram a oito pontos de entendimento para melhorar a comunicação militar e reduzir o risco de novos confrontos na Linha de Controle Real, que separa os territórios disputados.
O próximo teste será político. O presidente chinês, Xi Jinping, é esperado em Nova Délhi nos dias 12 e 13 de setembro, durante a cúpula do Brics.
Será sua primeira visita à Índia em sete anos. A viagem ocorre após dois anos de distensão gradual e pode consolidar uma relação mais previsível entre os dois gigantes asiáticos.
Em entrevista ao O Brasilianista, o professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi João Estevam avalia que os movimentos recentes ainda não permitem falar em uma aliança duradoura.
Rivalidade antiga
A rivalidade entre China e Índia contrasta com a aproximação ensaiada pelos dois países em meados do século XX.
Depois da independência indiana, em 1947, e da criação da República Popular da China, em 1949, o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru buscou construir uma relação de solidariedade entre as duas maiores nações asiáticas.
O período ficou marcado pelo lema “Hindi-Chini Bhai-Bhai”, ou “indianos e chineses são irmãos”.
Em 1954, os governos assinaram o Acordo de Panchsheel, baseado em cinco princípios de coexistência pacífica, entre eles o respeito à soberania e à integridade territorial.
A aproximação escondia uma disputa que nunca havia sido resolvida. A fronteira comum não estava formalmente delimitada.
No setor oriental, a Índia reconhecia a Linha McMahon, traçada durante o período colonial britânico, enquanto Pequim rejeitava a demarcação. No oeste, os dois países reivindicavam áreas de Aksai Chin, região estratégica entre Xinjiang e o Tibete.
A crise tibetana aprofundou a desconfiança. Em 1959, depois de um levante contra o domínio chinês no Tibete, o Dalai Lama fugiu para a Índia e recebeu asilo político do governo de Nehru.
A decisão deteriorou a relação entre Nova Délhi e Pequim e ampliou as divergências entre as lideranças de Nehru e Mao Zedong.
“Quanto à relação entre China e Índia, antes de mais nada, é importante dizer que essa relação de rivalidade existe já desde a Guerra Fria”, contextualiza o professor João Estevam.
As tensões territoriais culminaram na Guerra Sino-Indiana de 1962. Tropas chinesas avançaram nos setores de Aksai Chin e da fronteira oriental.
O conflito durou cerca de um mês, terminou com uma derrota militar indiana e foi encerrado após um cessar-fogo unilateral anunciado pela China. Pequim manteve o controle de Aksai Chin.
Os confrontos não terminaram com a guerra. Em 1967, militares dos dois países voltaram a se enfrentar em Nathu La, passagem entre o Tibete e o estado indiano de Sikkim.
Em 1987, uma nova crise ocorreu na região de Sumdorong Chu, reforçando a militarização da fronteira no Himalaia.
Ao mesmo tempo, Pequim aprofundou sua aliança estratégica com o Paquistão, principal rival regional da Índia.
A cooperação entre chineses e paquistaneses passou a envolver defesa, infraestrutura e investimentos, adicionando outro foco permanente de preocupação para Nova Délhi.
Relação normaliza
Uma mudança começou em 1988, quando o primeiro-ministro indiano Rajiv Gandhi visitou Pequim. A viagem abriu uma fase de normalização diplomática sem solucionar as disputas territoriais.
Em 1993 e 1996, os dois governos assinaram acordos destinados a reduzir o risco de confrontos na Linha de Controle Real (LAC).
Foram estabelecidas medidas de confiança e limitações ao uso de armamentos nas áreas fronteiriças.
A partir dos anos 2000, China e Índia passaram a conviver também em organismos multilaterais como o Brics e a Organização para Cooperação de Xangai, mesmo mantendo diferenças territoriais e estratégicas.
A estabilidade voltou a ser testada em 2017, durante a crise de Doklam. Tropas indianas e chinesas permaneceram frente a frente por 73 dias em uma área próxima à fronteira entre China, Índia e Butão, após uma disputa relacionada à construção de uma estrada chinesa.
Galwan rompe
O equilíbrio se deteriorou novamente em junho de 2020, quando militares dos dois países entraram em confronto no Vale de Galwan, na região de Ladakh.
A luta corpo a corpo deixou 20 soldados indianos e quatro chineses mortos, segundo os números divulgados pelos governos.
Nova Délhi respondeu aumentando as restrições econômicas contra Pequim. O governo indiano proibiu centenas de aplicativos chineses, incluindo o TikTok, aumentou o controle sobre investimentos vindos da China e intensificou a fiscalização sobre empresas chinesas que operavam no país.
A Índia também aprofundou sua participação no Quad, mecanismo de cooperação estratégica formado com Estados Unidos, Japão e Austrália.
A partir de 2024, rodadas de negociação militar e diplomática começaram a produzir novos entendimentos para retirada de tropas de pontos sensíveis e retomada das patrulhas em áreas disputadas. É dessa sequência que surge a atual tentativa de distensão.
Disputa regional
A fronteira é apenas uma das dimensões da competição.
“Hoje, especificamente, no século XXI, o que nós vemos é uma disputa geopolítica regional pela influência no Sul e Sudeste Asiático e naquela região que a gente chama de Leste Asiático também e o Oceano Pacífico”, explica o especialista.
Sob Xi Jinping, a China ampliou investimentos em portos, ferrovias, energia e outras obras de infraestrutura por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida internacionalmente como Belt and Road Initiative.
“O que a China tem buscado realizar nesses últimos anos, particularmente a partir do governo Xi Jinping, é puxar, absorver esses países para sua esfera de influência, principalmente a partir de acordos de cooperação comercial, de livre comércio e de investimentos diretos”, observa Estevam.
Pequim já utiliza financiamento, comércio e infraestrutura como instrumentos de projeção em países da Ásia, África e Oriente Médio.
A Índia, por sua vez, amplia sua presença no Oceano Índico, fortalece relações com países do Sudeste Asiático e participa do Quad, mecanismo de cooperação estratégica que também reúne Estados Unidos, Japão e Austrália.
“A Índia, ainda que tenha uma capacidade financeira e de projeção econômica limitada em relação ao que a China é, também é um país que tem caminhado para se consolidar no posto de grande potência”, ressalta o entrevistado.
Jogo duplo

Os presidentes Donald Trump e Xi Jinping concordaram em reduzir as tensões comerciais entre Estados Unidos e China
A participação indiana em mecanismos apoiados por Washington não impediu a retomada do diálogo com Pequim.
Nova Délhi mantém cooperação econômica e militar com os Estados Unidos, mas também integra com a China organizações como Brics e Organização para Cooperação de Xangai.
“O que a Índia tem realizado é buscar uma ideia, tentar fazer uma espécie de diplomacia do ping-pong, estabelecer uma certa equidistância”, define o professor de Relações Internacionais.
Esse comportamento aparece na defesa indiana da chamada autonomia estratégica, princípio pelo qual o país evita alinhamento automático com qualquer grande potência e preserva liberdade para negociar com diferentes lados.
A estratégia ganhou maior importância em um período de intensificação da disputa comercial, tecnológica e militar entre Washington e Pequim.
Fator americano
Os Estados Unidos aparecem como uma das principais variáveis da atual aproximação.
Durante anos, Washington fortaleceu relações militares e econômicas com Nova Délhi também como forma de criar um contrapeso à presença chinesa no Indo-Pacífico.
Mudanças na política externa americana, entretanto, aumentaram a preocupação de governos asiáticos com a previsibilidade das alianças e compromissos assumidos pelos Estados Unidos.
“Nesse cenário de mudança estrutural das relações de poder, é possível perceber a tentativa de aproximação entre a China e a Índia como uma forma de, em primeiro lugar, manter uma certa estabilidade”, analisa João Estevam.
A redução da tensão entre os vizinhos diminui o risco de uma nova crise militar em uma região que já concentra disputas envolvendo Taiwan, Mar do Sul da China, Coreia do Norte e interesses estratégicos americanos.
“Também possibilita uma melhora na relação entre os dois países, um arrefecimento na disputa e o estabelecimento de quadros de cooperação técnica”, acrescenta o docente.
BRICS aproxima
O Brics oferece um dos principais espaços institucionais de convivência entre China e Índia.
Os dois países são integrantes fundadores do grupo e compartilham posições favoráveis a reformas em instituições internacionais, como Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Conselho de Segurança das Nações Unidas.
“É isso que o BRICS tem proposto para os dois países nos últimos anos, uma espécie de espaço de concertação”, afirma Estevam.
A atuação conjunta, contudo, convive com diferenças comerciais, territoriais e estratégicas.
“Isso não necessariamente leva a um processo mais profundo de cooperação a nível econômico, de acordos comerciais, de investimentos e assim por diante”, pondera o especialista.
A próxima cúpula do bloco poderá medir até onde essa disposição de diálogo avançou. Xi é esperado na Índia com uma delegação numerosa, e as conversas devem incluir comércio, investimentos, vistos e principalmente a situação da fronteira.
Fronteira reabre
Os sinais de distensão também aparecem fora das mesas diplomáticas. Em 1º de agosto, China e Índia reabriram a passagem de Nathu La, entre o Tibete e o estado indiano de Sikkim, depois de seis anos de interrupção.
Localizada a mais de 4.500 metros de altitude, a passagem possui importância histórica e comercial e já integrou rotas que conectavam a China ao Sul da Ásia.
O corredor havia sido fechado em 2020, mesmo ano do confronto no Vale de Galwan.
Em agosto, os dois governos também concordaram em ampliar os mecanismos de comunicação entre seus militares.
Foram definidos novos pontos de encontro entre comandantes e canais para reduzir a possibilidade de incidentes na Linha de Controle Real.
Comércio pesa

Encontro entre premiê indiano, Narendra Modi e o presidente chinês, Xi Jinping, em 2025 ajudou a melhorar a relação comercial entre seus países
Mesmo nos anos de maior tensão política, o comércio bilateral continuou crescendo.
Em 2025, as trocas entre China e Índia chegaram a aproximadamente US$ 155 bilhões (R$ 795,16 bilhões), crescimento superior a 12% em relação ao ano anterior.
A relação, porém, permanece desequilibrada. O déficit comercial indiano com a China supera US$ 100 bilhões (R$ 513,11 bilhões), enquanto empresas do país dependem de fornecedores chineses para componentes eletrônicos, painéis solares, baterias e equipamentos industriais.
Nos últimos meses, Nova Délhi começou a flexibilizar parte das restrições adotadas depois da crise de 2020.
Em determinadas condições, investimentos chineses minoritários podem voltar a avançar sem o mesmo nível de autorização exigido anteriormente.
Para Pequim, a Índia também representa um mercado relevante, com mais de 1,4 bilhão de habitantes e uma economia que continua entre as que mais crescem entre os grandes países.
Indonésia também
João Estevam chama atenção para outro ator que participa dessa reorganização regional: a Indonésia.
“Existe uma outra potência, que não tem esse posto ainda de grande potência, mas sim de potência regional, inclusive com capacidade estratégica de projeção na região do Pacífico e na região do Indo-Pacífico, que é a Indonésia”, assinala o pesquisador.
Com mais de 280 milhões de habitantes e localização estratégica entre os oceanos Índico e Pacífico, o país mantém cooperação militar e econômica antiga com Washington.
Essa aproximação foi reforçada pela política americana de maior presença na Ásia durante o governo Barack Obama.
“Na medida em que a disputa entre as grandes potências passa por um processo de acirramento, é natural supor que os Estados mais interessados vão buscar estabelecer laços de cooperação e de concertação regional que possam dar maior previsibilidade para as suas relações”, argumenta o professor.
Jacarta, assim como Nova Délhi, procura ampliar relações com os Estados Unidos sem romper seus canais políticos e econômicos com a China.
Limites da trégua
A melhora nas relações não eliminou os principais pontos de atrito. China e Índia continuam sem reconhecer uma fronteira definitiva.
Nova Délhi acompanha com preocupação a parceria chinesa com o Paquistão, enquanto Pequim observa o aprofundamento dos laços militares indianos com Estados Unidos, Japão e Austrália.
Projetos de barragens chinesas no Tibete também preocupam o governo indiano devido à importância dos rios que nascem na região para o abastecimento do país.
Além disso, as duas economias competem por energia, minerais estratégicos, infraestrutura e participação em cadeias industriais.
“Ainda é muito cedo para saber se essa cooperação vai resultar em uma iniciativa de mais longo prazo”, adverte João Estevam.
A atual distensão, portanto, ainda precisa superar questões territoriais e estratégicas que permanecem sem solução.
Efeito global
Uma redução duradoura das tensões entre China e Índia teria consequências que ultrapassam a região.
Para Washington, uma Índia menos hostil à China reduz a possibilidade de utilizar Nova Délhi como contrapeso direto à expansão chinesa.
Para Pequim, uma fronteira mais estável diminui a necessidade de concentrar recursos políticos e militares no Himalaia enquanto o país enfrenta disputas em outras regiões da Ásia.
No Brics, a redução das tensões entre os dois maiores integrantes do grupo pode facilitar negociações sobre comércio, financiamento e reformas na governança internacional.
Também existem efeitos econômicos. Juntas, China e Índia possuem enorme peso na indústria, tecnologia, energia, medicamentos, minerais estratégicos e cadeias globais de produção.
“O que se pode ver, ao meu ver, tanto na relação com a Índia quanto na relação também com a Indonésia, é uma tentativa de gerar maior previsibilidade diante desse quadro de acirramento da disputa de poder internacional”, conclui o professor João Estevam.
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