A chinesa ChangXim Memory Technologies (CXMT) pode ser processada pela Samsung por espionagem industrial. A maior companhia de semicondutores DRAM da China planejava usar tecnologias de fabricação de memórias da gigante coreana para desenvolver seus produtos.
Reportagem do Maiel Business mostrou que um ex-funcionário da Samsung contou a um tribunal na Coreia do Sul que a marca chinesa queria usar a tecnologia da antiga contratante para evitar criar métodos de produção do zero. O engenheiro, que começou a trabalhar na CXMT em 2016, era testemunha do caso de vazamento de informações da Samsung Electronics sobre o processo de fabricação de DRAM de 18nm para a China.
Ele testemunhou em juízo que desde a fundação da empresa chinesa, o CEO e o CTO da CXMT tentaram desenvolver DRAM roubando informações do Plano de Receita de Processo (PRP) da Samsung Electronics, que continha 600 etapas para a produção dos semicondutores.
O homem alegou que, na época de sua fundação, a CXMT não possuía instituto de pesquisa nem instalações próprias, e não tinha a intenção de desenvolver tecnologia por meio de pesquisa própria.
O engenheiro, que trabalhou na Samsung Electronics por 28 anos, foi indiciado no ano passado sob a acusação de participação na aquisição e uso ilegal de tecnologia de processo essencial enquanto empregado na CXMT, e foi condenado a sete anos de prisão no primeiro julgamento em abril passado.
O PRP da Samsung custou cerca de 1,6 trilhão de won (R$ 5,9 trilhões) para ser desenvolvido, ao longo de cinco anos. Ainda que uma cópia dos documentos não garante efeito imediato sobre a funcionalidade dos semicondutores, a engenharia não precisaria começar do zero, o que garantiu maior velocidade de produção — e lucro — da CXMT.
A companhia chinesa começou a produzir SDRAM DDR4 em 2019, por meio do processo de 22 nm. Em 2023, passou a montar sistemas de 18 nm — o mesmo da gigante de tecnologia. O tempo de avanço gerou questionamentos sobre a propriedade intelectual do planejamento.
Esse não é o primeiro caso de espionagem industrial. Ao longo dos anos, diversas companhias tiveram modelos vazados, comprometendo marcas e produções.
Os principais casos de espionagem industrial
1. Volkswagen x General Motors (1993)
José Ignacio López de Arriortúa, o "inquisidor" das compras da GM, era o executivo responsável por cortar custos com fornecedores na Europa. Em 1993, ele deixou a GM de forma abrupta para virar chefe de produção e compras da Volkswagen, levando consigo sete executivos da GM e — segundo a acusação — quatro conjuntos de materiais: uma listagem de 3.350 páginas com 60 mil peças, fornecedores, custos e cronogramas de entrega da GM-Europa; detalhes da linha futura de produtos da GM; um estudo detalhado de fabricação e custos de uma fábrica específica; e o portfólio de apresentações usado por López para pressionar fornecedores.
A polícia alemã chegou a encontrar caixas cheias de documentos internos da GM na casa de um dos executivos que o acompanhou. O caso terminou em 1997 com a Volkswagen pagando US$ 100 milhões à GM e se comprometendo a comprar ao menos US$ 1 bilhão em peças da GM nos sete anos seguintes. López chegou a ser indiciado nos EUA anos depois, mas nunca foi extraditado da Espanha.
2. DuPont x Kolon Industries (2009–2015)
A DuPont acusou a sul-coreana Kolon de recrutar sistematicamente ex-funcionários seus, entre eles um engenheiro chamado Michael Mitchell, para obter segredos sobre a fabricação do Kevlar, fibra usada em coletes à prova de balas.
Em 2011, um júri considerou a Kolon culpada de se apropriar de 149 segredos comerciais ligados ao Kevlar e condenou a empresa a pagar US$ 919,9 milhões, o maior veredito contestado da história em casos de segredo industrial. O valor foi anulado em recurso em 2014 por questões processuais, mas o caso terminou em 2015 com um acordo civil e uma confissão de culpa criminal, no qual a Kolon pagou US$ 275 milhões de restituição à DuPont mais US$ 80 milhões em multas criminais.
O funcionário que vazou as informações foi condenado a 18 meses de prisão por roubo de segredos comerciais e obstrução de justiça.
3. Espionagem interna da HP (2006)
A própria diretoria da HP espionou a si mesma em 2006, em um dos casos mais curiosos de espionagem industrial.
Após vazamentos recorrentes de discussões internas para a imprensa, a presidente do conselho, Patricia Dunn, contratou investigadores particulares que usaram uma técnica chamada pretexting, em que se passaram por membros do conselho e por nove jornalistas para obter seus registros telefônicos.
No entanto, os investigados incluíram nove jornalistas, nove diretores ou conselheiros da HP, mais de 20 funcionários ou contratados, e até números de telefone pessoais de familiares de um jornalista.
O escândalo derrubou Dunn da presidência do conselho, gerou audiências no Congresso americano e processos criminais contra cinco pessoas, que posteriormente foram negociados ou anulados.
4. Starwood x Hilton (2009–2010)
Em 2009, dois ex-executivos da Starwood — Ross Klein e Amar Lalvani — migraram para a Hilton levando consigo, segundo a acusação, centenas de milhares de documentos eletrônicos.
A Starwood alegou que essas informações confidenciais foram usadas para lançar rapidamente uma marca concorrente de hotéis de luxo, a Denizen, copiando o conceito da própria marca "W" da Starwood. O caso terminou em acordo em dezembro de 2010, quando a Hilton pagou US$ 75 milhões em dinheiro além de outros US$ 75 milhões em contratos de gestão hoteleira e ficou proibida de lançar qualquer marca de hotel "lifestyle" por dois anos, com dois monitores independentes supervisionando suas operações.
5. Uber x Waymo (2017–2018)
Mais recentemente, um caso de espionagem alcançou a Uber. O engenheiro Anthony Levandowski, peça-chave do projeto de carros autônomos do Google — que depois viraria a Waymo —, teria baixado mais de 14 mil arquivos confidenciais antes de deixar a empresa para fundar sua própria startup de caminhões autônomos, a Otto.
Poucos meses depois, a Uber comprou a Otto, e a Waymo alegou que Levandowski arquitetou o esquema junto com a cúpula da Uber, incluindo o então CEO Travis Kalanick. O caso foi parar em júri federal, mas terminou em acordo no quinto dia do julgamento: a Uber deu à Waymo uma participação acionária avaliada em US$ 245 milhões, evitando o restante do julgamento que prometia expor ainda mais os bastidores do Vale do Silício.
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