A China foca cada vez mais em fugir do dólar e emplacar o yuan como uma forte moeda do comércio global. Um grande exemplo dessa movimentação é a plataforma de pagamentos digitais mBridge, alternativa de Pequim ao sistema dolarizado SWIFT.
Recentemente, reportagem do Financial Times mostrou que a Arábia Saudita deixou discretamente a plataforma após "concluir com sucesso sua prova de conceito do mBridge". No entanto, fontes relataram ao FT que o Banco Central Saudita, conhecido como SAMA, não queria mais estar publicamente envolvido com a plataforma chinesa. Uma influência dos Estados Unidos não foi confirmada.
Ainda assim, a ferramenta lançada em 2021 se tornou uma verdadeira revolução para os bancos centrais, que desde então podem utilizar moedas digitais para realizar transações por meio da tecnologia blockchain.
Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) foram alguns que entraram no projeto inicialmente. Apesar da saída da Arábia Saudita e BIS, o mBridge avança e incorporou recentemente Macau como participante.
A guerra dos EUA com o Irã ainda pode adicionar mais pressão sobre o dólar caso Teerã obrigue outros países a garantir uma passagem segura no Estreito de Ormuz com pagamentos em yuan.
Pequim, por sua vez, amplia acordos de swap cambial com outros bancos centrais e promove transações em yuan com seus principais parceiros comerciais.
Uma jornada de quase três décadas
A China busca descentralizar seu comércio do dólar desde o início da década dos anos 2000.
Na ocasião, o Banco Popular da China (BPC), autoridade monetária do país, estava preocupado com a impressão agressiva de dinheiro pelo Banco Central americano, o Federal Reserve. Isso colocava em risco os valores de seus ativos estrangeiros. O programa para aumentar a exposição do yuan causou um efeito positivo.
Conforme mostrou O Brasilianista, no ano passado, a moeda foi usada em 30% dos 6,2 trilhões de dólares (R$ 33 trilhões) em comércio global de bens da China, compartilhou o vice-governador do BPC, Zhu Hexin.
O yuan também superou brevemente o euro em 2024 como a segunda moeda mais usada no financiamento do comércio global. Apesar disso, seguia com 5,8% do mercado, contra 82% do dólar, segundo a Swift, rede global de mensagens entre bancos para liquidar pagamentos internacionais.
A estratégia chinesa
A China tomou três frentes para aumentar a exposição do yuan nos últimos anos: aumentar o papel da moeda no comércio global, impulsinou o yuan no crédito externo e construiu uma estrutura financeira independente dos sistemas já dominados pelo dólar — justamente o mBridge.
Transações em yuan com os países do Hemisfério Sul e Brics, bem como a Rússia, foram essenciais nesse processo. Esses países já buscavam uma alternativa ao dólar para manter as balanças comerciais no azul e regionalizar o uso do yuan fez sentido.
A China também ajudou a financiar a dívida pública de outros países. As participações externas de empréstimos, depósitos e títulos em yuan quadruplicaram para 480 bilhões de dólares em cinco anos (R$ 2,5 trilhões). Facilidades na concessão de crédito, bem como juros baixos aumentaram a adesão dos governos a esse modelo.
Além do mBridge, outras estruturas financeiras como o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China (CIPS), que se tornou uma alternativa ao Swift para transações internacionais, bem como uma possível moeda digital, auxiliam na adesão ao yuan, descentralizando a dependência de bancos ocidentais.
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