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Entrevistas

O Brasil é refém das decisões tomadas em Washington e Pequim?

Especialista debate o cenário geopolítico atual

China x EUA
Como o Brasil fica diante da disputa entre EUA e China? (Foto: Magnific)

A disputa de influência entre Estados Unidos e China pelo mundo faz com que as decisões tomadas em Washington e Pequim tenham efeitos que ultrapassam as fronteiras dessas duas potências. 

Para o Brasil, que mantém relações econômicas e diplomáticas relevantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China, surge uma questão cada vez mais presente no debate geopolítico: até que ponto o país consegue definir seus próprios interesses e estratégias diante das decisões tomadas pelas duas potências?

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A dependência comercial, a atração de investimentos e a disputa por influência internacional colocam limites à autonomia brasileira ou também abrem espaço para uma atuação mais estratégica? Para responder essa e outras dúvidas, O Brasilianista conversou com Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV. 

O Brasil é excessivamente dependente das decisões tomadas em Washington e Pequim? É correto falar em "dependência" ou o conceito mais adequado seria interdependência?

Eu acho que a ideia de falar dependência é muito pesada. De maneira geral, porque dependência pressupõe que você não tem alternativas para lidar fora aquele determinado ator. Então, trabalhar com dependência, seja da China, seja de Estados Unidos, é complexo porque vai depender muito de setor para setor.

A ideia de falar em interdependência parece interessante, mas ela, obviamente, é muito assimétrica. Quer dizer, a China não depende tanto do Brasil quanto ele da China e por aí vai.

Na realidade, uma proposição interessante é dizer que o Brasil tem uma exposição grande a esses dois atores de maneira geral. Obviamente, essa exposição faz com que o Brasil seja mais ou menos sensível a mudanças e a decisões que esses países tomam. E aí sim, isso significaria o quanto o Brasil seria vulnerável a eles.

Em quais áreas essa dependência é mais evidente em relação aos EUA?

De maneira geral, quando você pensa em termos de dependência, não só dos Estados Unidos, mas todos os países, pensa em termos comerciais. Porque, do ponto de vista comercial, como a gente viu agora a questão do tarifaço, a gente não tem exatamente uma dependência nos Estados Unidos, nós fomos expostos a eles em uma série de áreas sensíveis em setores diferentes e, por consequência, nós somos vulneráveis a taxações, a bloqueios, embargos ou qualquer outra coisa parecida.

O Brasil é realmente dependente dos Estados Unidos no que tange, na realidade, a infraestrutura financeira. O Brasil usa a infraestrutura financeira do dólar e, por consequência, está preso, de certa maneira, a modificações que os Estados Unidos podem fazer ou, eventualmente, melhor ainda, a sanções que os Estados Unidos podem tomar de forma mais dura.

A gente basicamente só tem duas grandes bandeiras de cartão de crédito, por exemplo, o Visa e Mastercard no Brasil, que torna o crédito basicamente vinculado a essa arquitetura financeira. Quase tudo que o Brasil comercializa internacionalmente é em função do dólar, então também o comércio exterior fica muito vulnerável nesse aspecto.

Então, isso talvez seja a principal dimensão. Existem outras mais complexas, como por exemplo cabos submarinos, a dependência do Brasil em provedores de internet, entre outras coisas que faz com que os Estados Unidos tenham uma ascendência muito importante em relação a uma infraestrutura crítica no Brasil, mais do que o comércio na minha opinião.

O Brasil possui alternativas concretas quando uma decisão americana contraria seus interesses? 

Depende muito da decisão, obviamente. Se os Estados Unidos resolvem taxar o Brasil em algumas áreas, como ele fez, obviamente o Brasil tem alternativas. O Brasil consegue buscar outros países, consegue deslocar esse comércio, seja pra exportar, seja pra importar. A gente tem visto isso nos últimos anos.

Se os Estados Unidos decidem bloquear o Brasil do SWIFT, bloquear as empresas brasileiras de acessarem dólar, aí o Brasil tem pouca capacidade de fugir disso. Então, é preciso pensar como a gente está discutindo essa questão de dependência, porque, de maneira geral, as pessoas discutem do ponto de vista comercial. E aí o Brasil é muito menos do que se espera. Quando se discute do ponto de vista de infraestrutura crítica, aí é muito mais complexo.

Em quais áreas essa dependência é mais evidente em relação à China?

Em relação à China, o Brasil está mais dependente aí sim do ponto de vista comercial. Boa parte da agricultura brasileira, boa parte das commodities brasileiras agrícolas e minerais vão para China e é difícil conseguir deslocar todo esse comércio para outros atores internacionais.

Então, o Brasil não é completamente dependente, mas tem uma altíssima exposição e é vulnerável a mudanças de humores na China muito rapidamente.

Mas isso não ocorre em todas as áreas. A China tem sido um grande investidor no Brasil, capital chinês tem vindo investindo em muitas áreas, então também o Brasil não é exatamente dependente, mas ele começa a ficar cada vez mais exposto ao capital chinês para poder manter essa taxa de crescimento.

O Brasil possui alternativas concretas quando uma decisão chinesa contraria seus interesses?

Mesma coisa em relação aos Estados Unidos. O Brasil naturalmente tem algumas alternativas concretas para lidar com decisões chinesas, que é tentar deslocar os seus interesses, ou seja, em vez de tentar buscar capital chinês, tentar buscar o capital de outros lugares.

A China é uma potência do ponto de vista de investimento internacional hoje em dia. É um país que tem um enorme superávit fiscal, então isso facilita a capacidade deles de investimento.

Eles são uma potência do ponto de vista manufatureiro, o que faz com que o Brasil consiga acessar bens mais baratos. Então, obviamente,uma postura dura dos chineses em relação ao Brasil tornaria a vida do Brasil muito mais difícil, mas não estaria completamente dependente como eu acho que a pergunta supõe.

O Brasil está sendo pressionado a escolher um lado na disputa estratégica entre EUA e China ou existe espaço real para manter relações próximas simultaneamente com os dois?

Eu acho que existe uma pressão, mais do lado americano do que do lado chinês de tomar posição. O lado chinês, tradicionalmente, não faz esse tipo de pressão. O O lado americano faz sim muita pressão.

A gente viu no primeiro governo Trump, quando se fez uma pressão violenta para o Brasil não adotar a tecnologia de 5G da Huawei. O que o Brasil faz nesse governo, pelo menos, e fez tradicionalmente ao longo da sua história, talvez ali com o interregno do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, é uma estratégia um pouco de equidistância.

A gente costuma dizer em relações internacionais, quando analisa a política externa brasileira, que é a política externa de autonomia. A política externa brasileira valoriza muito a ideia da sua própria autonomia, e isso vem desde a Guerra Fria, quando o Brasil apostava numa autonomia pelo distanciamento (autonomia da política externa brasileira em relação às agendas internacionais das duas grandes potências na época, a União Soviética e os Estados Unidos).

Então sim, é possível continuar essa postura mais autônoma. O atual governo mantém as tradições da política externa brasileira. Um eventual governo Flávio Bolsonaro me parece estar mais longe dessa postura. Se for usar a referência do governo do pai dele, muito provavelmente a gente vai ver o contrário, ou seja, uma aproximação ou até autoalinhamento com a agenda norte-americana.

O Brasil precisa escolher entre Washington e Pequim ou pode transformar a rivalidade entre os dois em espaço de negociação para defender seus próprios interesses? 

O Brasil tradicionalmente fez isso, ele utilizou sua autonomia para poder trabalhar tanto com os Estados Unidos quanto com a União Soviética e conseguir extrair benefícios dos dois lados.

É óbvio que o Brasil, ao longo desses anos muito mais próximo dos americanos, até em função um pouco do conflito ideológico de direita/esquerda, dificultou a aproximação com a União Soviética, mas a política externa, sim, manteve algum grau de flexibilidade nesse sentido.

O mesmo se vê hoje, mais uma vez como eu disse, e eu acho que sim, você até certo ponto consegue transformar essa rivalidade em algum tipo de benefício para o próprio Brasil em termos de negociação, mas só funciona se não se alinhar a ninguém, conseguindo manter as duas portas abertas, com oportunidades dos dois lados.  

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