A relação entre Brasil e Estados Unidos pode ganhar novos contornos a partir do resultado das eleições de 2026. Sob a presidência de Donald Trump, Washington já adotou medidas comerciais e diplomáticas que afetaram diretamente o Brasil, incluindo tarifas adicionais sobre produtos brasileiros e sanções direcionadas a autoridades brasileiras.
Nesse cenário, uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva ou uma vitória de Flávio Bolsonaro abriria caminhos distintos para a relação entre Brasília e Washington, e não apenas no campo político.
Mas, afinal, o que o governo Trump poderia efetivamente fazer em cada cenário? Quais instrumentos estão à disposição da Casa Branca e quais dependem de negociações, Congresso, Judiciário ou de decisões do próprio governo brasileiro?
Wilson Mendonça, professor de Relações Internacionais da SKEMA Business School, responde essas e outras questões em conversa exclusiva com O Brasilianista.
Independentemente de quem vencer a eleição brasileira, quais instrumentos Donald Trump tem à disposição para pressionar o próximo governo brasileiro?
Trump tem vários instrumentos à disposição, e nós já vimos alguns deles sendo utilizados na relação com o Brasil. O mais evidente é o instrumento comercial. Tarifas, investigações comerciais e restrições dirigidas a determinados setores conseguem produzir impacto econômico e, ao mesmo tempo, gerar pressão política dentro do próprio país atingido.
Mas eu não olharia apenas para tarifas. Os Estados Unidos têm capacidade de exercer pressão diplomática, rever determinadas áreas de cooperação, aplicar sanções previstas em sua legislação, estabelecer restrições a indivíduos e utilizar o enorme peso do mercado e do sistema financeiro americano como instrumento de negociação.
O ponto é que existe uma diferença entre pressionar e conseguir determinar o comportamento do Brasil. E essa diferença é importante. O Brasil tem uma economia diversificada, relações consolidadas com a China, com a União Europeia e com diferentes mercados. Então Trump pode elevar bastante o custo de determinadas decisões brasileiras, mas isso não significa que consiga impor automaticamente uma mudança de posição do governo brasileiro.
Aliás, dependendo da intensidade da pressão, pode acontecer justamente o contrário: o Brasil buscar acelerar a diversificação de suas relações externas para diminuir sua vulnerabilidade em relação aos Estados Unidos.
Até onde o presidente dos EUA consegue agir unilateralmente e em quais situações precisa do Congresso, do Judiciário ou de outros órgãos americanos?
A Presidência americana é muito poderosa em política externa, mas não é onipotente. Acho importante fazer essa ressalva porque muitas vezes se atribui a Trump uma liberdade de ação maior do que aquela que o próprio sistema institucional americano permite.
Ele possui uma margem considerável para conduzir a diplomacia, estabelecer prioridades, negociar com outros governos e utilizar determinados mecanismos de sanção. Na área comercial, porém, parte importante desses poderes decorre de competências que o Congresso delegou ao Executivo e que estão sujeitas a procedimentos específicos.
A investigação da Seção 301 envolvendo o Brasil é um bom exemplo. Não se trata simplesmente de o presidente decidir, de um dia para o outro, que determinado país será tarifado. Existe uma estrutura administrativa, há participação do USTR, investigações, consultas e fundamentos jurídicos que precisam sustentar essas medidas.
E existe ainda o Judiciário. A decisão da Suprema Corte americana neste ano, limitando o uso da IEEPA como fundamento genérico para tarifas, mostrou exatamente isso. Trump tem espaço para agir, sem dúvida, mas Congresso, tribunais e a própria burocracia federal continuam estabelecendo limites à ação presidencial.
O que Trump pode/deve de fato fazer se Lula for reeleito?
Eu imagino uma relação difícil em alguns temas, mas seria um erro interpretar uma eventual reeleição de Lula como sinônimo de ruptura com Washington.
Estados Unidos e Brasil têm interesses econômicos e estratégicos que ultrapassam Lula e Trump. Empresas americanas têm interesses relevantes no mercado brasileiro, os Estados Unidos mantêm uma relação comercial muito importante com o Brasil e existem áreas nas quais os dois países necessariamente continuarão conversando.
Trump provavelmente manteria instrumentos de pressão sobre questões comerciais e sobre temas em que Washington considera que decisões brasileiras contrariam interesses americanos. Ao mesmo tempo, precisaria avaliar até que ponto vale a pena transformar divergências políticas em confronto permanente.
Há inclusive um dilema para Washington: pressionar excessivamente Lula pode produzir exatamente o resultado estratégico que os Estados Unidos gostariam de evitar, que é incentivar o Brasil a aprofundar ainda mais determinadas relações com a China e com outros parceiros.
Então eu esperaria uma relação de bastante negociação, momentos de tensão e algum pragmatismo dos dois lados. Lula não precisa concordar politicamente com Trump para negociar com os Estados Unidos, assim como Trump não precisa ter afinidade com Lula para reconhecer a importância do Brasil.
Se Lula for reeleito, quais seriam os principais pontos de atrito entre o governo brasileiro e Trump?
A China certamente estaria entre os principais. Lula trabalha com uma concepção de política externa que busca preservar múltiplas relações e ampliar o espaço brasileiro no chamado Sul Global. Isso passa pelos BRICS e por uma relação econômica muito forte com a China. Para os Estados Unidos de Trump, a China não é apenas um concorrente comercial; é o principal desafio estratégico de longo prazo.
Também vejo diferenças importantes na forma como os dois governos enxergam o multilateralismo e a própria organização da ordem internacional. O Brasil de Lula procura defender maior representação dos países emergentes, reforma das instituições multilaterais e mais autonomia para o Sul Global. Trump parte de uma visão muito mais transacional das relações internacionais.
Outro campo de atrito que ganhou importância é o digital. Regulação das plataformas, sistemas de pagamento, propriedade intelectual e atuação das grandes empresas americanas de tecnologia passaram a integrar diretamente a agenda bilateral.
E há ainda uma questão bastante sensível para o Brasil: soberania. Se Washington tentar associar medidas econômicas a decisões internas das instituições brasileiras, a tendência é que a reação política de um governo Lula seja bastante forte.
Agora, nada disso elimina a possibilidade de cooperação. Relações internacionais não funcionam simplesmente por afinidade ideológica. Países divergem em algumas agendas e cooperam em outras o tempo inteiro.
O que Trump pode/deve de fato fazer se Flávio for eleito?
A primeira mudança seria provavelmente de ambiente político. Existe uma proximidade evidente entre o campo político representado por Flávio Bolsonaro e o trumpismo, e isso poderia facilitar o diálogo com a Casa Branca.
Imagino que segurança, defesa, combate ao crime organizado e determinadas agendas econômicas encontrariam um terreno político mais favorável para avançar. Poderia haver também maior disposição brasileira para acompanhar algumas posições americanas em fóruns internacionais.
Mas eu teria bastante cuidado com a ideia de que uma vitória de Flávio significaria alinhamento automático aos Estados Unidos.
Uma coisa é a afinidade entre dois grupos políticos. Outra são os interesses nacionais de Brasil e Estados Unidos. Eles não são necessariamente os mesmos.
O próprio Flávio já se posicionou contra tarifas americanas que atingem produtos brasileiros e defendeu o Pix diante das críticas vindas dos Estados Unidos. Isso é bastante revelador. Quando a relação deixa o campo ideológico e entra concretamente nos interesses econômicos, qualquer presidente brasileiro começa a sofrer pressões internas.
Agronegócio, indústria, mercado financeiro e grandes empresas brasileiras têm interesses importantes tanto nos Estados Unidos quanto na China. Nenhum governo pode simplesmente ignorar essa realidade.
Se Flávio for eleito, o que poderia mudar na relação com Trump em comparação com um eventual governo Lula?
Mudaria principalmente o ambiente político e provavelmente a disposição inicial para o diálogo.
Com Flávio, Trump encontraria um governo ideologicamente mais próximo e possivelmente mais receptivo a algumas prioridades americanas. Isso poderia facilitar entendimentos em segurança, defesa e determinadas agendas diplomáticas.
Com Lula, a relação tenderia a ser mais marcada pela defesa explícita da autonomia brasileira e pela disposição de manter equidistância em relação às grandes potências.
Mas há uma diferença que considero interessante. Com Lula, os pontos de divergência provavelmente apareceriam com muita clareza no discurso político. Com Flávio, talvez houvesse menos conflito retórico, mas isso não faria desaparecer os conflitos concretos de interesse.
Se os Estados Unidos adotarem uma medida que prejudique exportadores brasileiros, por exemplo, o presidente do Brasil terá de reagir independentemente de sua afinidade com Trump.
Esse é justamente o ponto em que a política externa costuma se afastar das relações pessoais entre presidentes.
É correto afirmar que Trump teria mais capacidade de pressionar um governo Flávio Bolsonaro? Por quê?
Eu colocaria essa questão de outra maneira. Trump não teria necessariamente mais capacidade de pressionar Flávio. Talvez tivesse mais capacidade de influenciá-lo.
Parece uma diferença semântica, mas não é.
Os instrumentos que os Estados Unidos possuem são basicamente os mesmos, esteja Lula ou Flávio no Palácio do Planalto. O que muda é o valor político que cada governo brasileiro atribui à relação com Washington.
Se um eventual governo Flávio considerar a proximidade com Trump uma parte importante de sua identidade internacional, preservar essa relação passa a ter um valor político maior. E isso naturalmente aumenta a capacidade de negociação dos Estados Unidos.
Só que existe um limite. Quando uma demanda americana começar a produzir custos relevantes para setores econômicos brasileiros, o governo terá de escolher entre a afinidade política e os interesses que representa internamente.
Por isso eu evitaria dizer simplesmente que Flávio seria “mais pressionável”. O que pode existir é maior receptividade à influência americana. São coisas diferentes.
O próximo presidente brasileiro terá liberdade para escolher sua política externa ou já assumirá o governo condicionado pela disputa entre EUA e China?
Ele terá liberdade, mas será uma liberdade cada vez mais condicionada.
E, para mim, esse é o aspecto mais interessante de toda essa discussão.
Durante muitos anos o Brasil conseguiu desenvolver relações econômicas profundas com a China e, ao mesmo tempo, preservar uma relação estratégica e econômica importante com os Estados Unidos. O problema é que a competição entre Washington e Pequim está entrando em áreas nas quais essa separação fica cada vez mais difícil.
Não estamos mais falando apenas de soja, minério ou tarifas. Estamos falando de inteligência artificial, semicondutores, telecomunicações, minerais críticos, energia, infraestrutura digital, defesa, cadeias produtivas e padrões tecnológicos.
Nessas áreas, escolher um fornecedor ou uma tecnologia pode significar também fazer uma escolha geopolítica.
E o Brasil tem um problema — ou uma oportunidade — muito particular. A China é absolutamente fundamental para o comércio exterior brasileiro, enquanto os Estados Unidos continuam sendo fundamentais para investimentos, tecnologia, serviços, finanças e diversas áreas de cooperação. Romper ou deteriorar profundamente qualquer uma dessas relações seria extremamente custoso.
Por isso, o grande desafio do próximo governo não será escolher entre Estados Unidos e China. Será evitar que Estados Unidos e China obriguem o Brasil a fazer essa escolha.
Essa capacidade de preservar espaço de decisão é o que eu entendo como autonomia estratégica. E ela ficará mais difícil à medida que a competição entre as duas potências aumentar.
No fim das contas, talvez esse seja o verdadeiro teste para o próximo presidente: saber utilizar a relevância do Brasil para negociar com os dois lados, em vez de permitir que essa disputa transforme o país em objeto da estratégia de Washington ou de Pequim.
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