Neste domingo (4), o 1º turno das eleições presidenciais foi contra o movimento indicado pelas pesquisas eleitorais nos últimos dias. Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vão para o segundo turno, contudo, o candidato do PL está à frente numéricamente do petista, com 47,03% (56.104.503 votos) contra 45,16% (53.879.538 votos).
O resultado, mesmo que aguarde uma definição definitiva no segundo turno prevista para 25 de outubro, já foi suficiente para uma reação em massa do mercado. Nesta manhã de segunda-feira, o euro caiu mais de 5%, indo para o menor valor em 17 meses; o dólar desabou mais de 4%; o Ibovespa cresceu 9%... Diante deste cenário, o JP Morgan também aumentou a recomendação para ações brasileiras, saindo do rebaixamento e se fixando em "overweight" (indicação de compra).
O Brasilianista conversou com exclusividade com Rafael Richter, economista e pesquisador, mestre em Economia pela Universidade de Brasília (UnB), com MBA em Ciência de Dados, e Débora Bizarria, economista formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Coordenadora de Políticas Públicas do Livres. Alumni da International Academy for Leadership, da Fundação Friedrich Naumann e do TFAS – The Fund for American Studies, sobre os desdobramentos econômicos pós 1º turno.
Mercado otimista
Ambos os especialistas foram categóricos ao dizer que o mercado recebeu o resultado com entusiasmo, ao que Débora acrescentou: "Tanto pela perspectiva de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno quanto pela composição do Congresso".
Rafael exemplificou o fato de o contrato de juros para janeiro de 2028 cair de 13,51% para cerca de 12,5% ao longo da manhã e superar um ponto percentual para vencimentos mais longos.
"Esse último ponto é um dos mais importantes. Quando os juros de longo prazo caem dessa forma, há um sinal mais claro de que os investidores passaram a enxergar menos risco para a economia brasileira nos próximos anos, principalmente em relação às contas públicas", justificou.
Para o pesquisador, a principal explicação para essa reação tão positiva do mercado está nas contas públicas: "Uma parcela dos investidores entende que um eventual governo Flávio teria maior disposição para conter despesas, rever a atual regra fiscal, reduzir a intervenção do Estado e promover reformas ambiciosas".
Apesar dos indicadores financeiros indicarem uma preferência por Flávio neste momento, a economista faz questão de enfatizar: "Essa preferência não equivale a uma aprovação antecipada de tudo o que Flávio possa fazer: os preços poderão mudar conforme suas propostas, sua equipe e suas alianças se tornarem mais conhecidas".
Os principais setores beneficiados
Os especialistas ainda listaram setores que devem ser mais favorecidos no Brasil, economicamente, caso o candidato do PL vença o segundo turno:
- Varejo e construção civil (com crédito mais barato e menor custo de financiamento);
- Minerais críticos, data centers e tecnologia (que figuram entre as prioridades do programa de Flávio e poderiam receber medidas favoráveis ao investimento);
- Infraestrutura e energia (que poderiam aumentar o investimento privado, doméstico e estrangeiro).
Contudo, Débora faz questão de pontuar: "Eu evitaria, porém, apontá-los desde já como os maiores vencedores. [...] As propostas indicam uma intenção de favorecer essas atividades, mas o resultado econômico dependerá das condições oferecidas e da capacidade de atrair investimentos".
O que vem pela frente?
Os especialistas concordam que os efeitos vistos hoje cedo após o resultado do 1º turno devem se repetir caso haja uma confirmação da vitória de Flávio no 2º turno, mas sinalizam que deve ser de menor intensidade.
Rafael esclarece: "O mercado trabalha antecipando acontecimentos. O fato de o resultado da eleição ter vindo diferente da expectativa levou a um ajuste rápido nas curvas de juros, na cotação do dólar e na bolsa. Boa parte do movimento das próximas semanas vai depender da expectativa de resultado do segundo turno. Se a vitória de Flávio Bolsonaro já for esperada, a reação no dia seguinte pode ser pequena, pois o mercado tende a antecipar isso nas negociações anteriores à eleição".
Ele ainda garante que a "intensidade" dessa reação depende tanto do resultado eleitoral quanto das sinalizações de Lula e de Flávio. "Se a vitória de Flávio vier acompanhada do anúncio de uma equipe econômica considerada forte e de medidas fiscais mais concretas do que o mercado esperava, pode haver uma segunda rodada importante de valorização. Por outro lado, se aparecerem dúvidas sobre a condução da equipe de Flávio com relação às contas públicas ou conflitos políticos relevantes, parte da alta pode ser devolvida", afirma.
Assim, para saber se esses números vistos hoje são "fogo de palha" ou serão consolidados, será necessário acompanhar a evolução do quadro, que como deixam claro os especialistas, seguirão muito além do resultado nas urnas no próximo dia 25 de outubro.
Flávio e suas intenções econômicas
Em relação às primeiras medidas econômicas de Flávio, Débora e Rafael indicam a apresentação de um plano crível de controle dos gastos públicos e de reformas fiscais, acompanhado por uma equipe econômica com capacidade de executá-lo e apoio para negociar sua aprovação no Congresso, além do possível adiamento da reforma tributária, já mencionado na campanha do candidato.
"Isso exigiria mostrar quais despesas seriam revistas, quanto se pretende economizar e em que prazo, além de explicar como eventuais reduções de impostos seriam financiadas", complementa.
O movimento do mercado foi assunto de destaque de diversos veículos de imprensa hoje. Míriam Leitão pontuou no O Globo que o mercado financeiro comemorou o resultado das urnas, mesmo sem saber ainda os planos fiscais de Flávio; o Valor Econômico destacou um cenário positivo para empresas domésticas e Petrobras; o Infomoney cunhou esta segunda como "dia da euforia"; e o Estadão, Alvaro Gribel afirmou que o movimento econômico de hoje deu uma "lição amarga ao PT".
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