Publicidade
Entrevistas

EUA, China, UE, Argentina e mais: qual o interesse do mundo nas eleições brasileiras?

Especialista explica o que cada país espera do Brasil e como as decisões das urnas podem influenciar a política e economia interna

Mundo
Diversas potências aguardam o resultado das eleições no Brasil em 2026 (Foto: Magnific)

É fato que as eleições brasileiras já estão movimentando diversos tabuleiros nacionais, mas a verdade é que essa atenção para a decisão que será tomada nas urnas em outubro extrapola os limites do país e alcança potências e grupos internacionais. 

Daniel Toledo, advogado que atua na área do Direito Internacional e especialista em negócios internacionais, Fundador da Toledo e Associados, escritório de advocacia internacional, conversou com exclusividade com O Brasilianista apontando quem são os principais países de olho nas eleições, assim como o motivo para isso.

Publicidade

Qual é o interesse dos Estados Unidos nas eleições brasileiras?

Eu vejo o Brasil como um país estratégico para os Estados Unidos por vários motivos. Não estamos falando apenas de comércio. Existe uma disputa por influência econômica, tecnológica e diplomática na América Latina, e o Brasil tem um peso muito grande nesse tabuleiro.

Hoje, um dos principais pontos de atenção de Washington é justamente a relação que o Brasil mantém com a China. Ao mesmo tempo, existem questões bilaterais envolvendo comércio, plataformas digitais, propriedade intelectual, energia e acesso a mercados. Em 2026, inclusive, os Estados Unidos adotaram novas medidas tarifárias contra produtos brasileiros depois de uma investigação conduzida pela representação comercial americana. Isso mostra que a relação econômica está muito presente na agenda entre os dois países.

Por isso, acredito que os Estados Unidos acompanham a eleição tentando entender qual será o grau de aproximação do próximo governo com Washington, como ficará a relação com Pequim e qual posição o Brasil adotará nas grandes discussões internacionais. Não é simplesmente uma questão de esquerda ou direita. É uma questão de alinhamento estratégico.

Qual é o interesse da China nas eleições brasileiras?

Para a China, eu diria que existe um interesse econômico muito concreto. Ela é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, e essa relação envolve soja, minério de ferro, petróleo, energia, infraestrutura, tecnologia e uma série de investimentos de longo prazo.

De janeiro a julho de 2026, a corrente de comércio entre Brasil e China chegou a aproximadamente US$ 114 bilhões. Só as exportações brasileiras para o mercado chinês somaram cerca de US$ 69 bilhões no período. Isso dá uma dimensão de quanto essa relação é importante para os dois lados.

Na minha leitura, Pequim procura principalmente previsibilidade. A China quer saber se o próximo governo brasileiro manterá canais abertos para investimentos, comércio e cooperação e se o Brasil continuará adotando uma política externa que permita negociar tanto com chineses quanto com americanos sem aderir automaticamente a um dos lados.

Qual é o interesse da Rússia nas eleições brasileiras?

O interesse russo passa principalmente pelo BRICS, pelo agronegócio e pela posição diplomática que o Brasil ocupa em discussões internacionais.

Existe uma relação econômica importante na área de fertilizantes, por exemplo. Em 2025, a Rússia respondeu por 25,9% dos fertilizantes importados pelo Brasil, segundo dados citados pelo Banco Central. Isso é especialmente relevante para um país cuja produção agrícola depende fortemente de insumos externos.

Mas há também uma questão política. A Rússia vê o Brasil como um parceiro importante dentro do BRICS e como um país que historicamente tenta preservar certa autonomia diplomática. Então, acredito que Moscou estará muito atenta à forma como o próximo governo brasileiro vai conduzir sua relação com os Estados Unidos, com a Europa, com o BRICS e com os conflitos internacionais.

Qual é o interesse da Argentina nas eleições brasileiras?

Eu colocaria a Argentina em uma situação diferente porque existe uma dependência econômica e política muito mais imediata. Brasil e Argentina são vizinhos, membros do Mercosul e possuem cadeias produtivas bastante conectadas, principalmente na indústria.

Entre janeiro e julho de 2026, a corrente de comércio entre os dois países foi de aproximadamente US$ 16,3 bilhões. Então, qualquer mudança relevante na política econômica brasileira, no câmbio, nas importações, nas exportações ou na estratégia para o Mercosul tem reflexos do outro lado da fronteira.

Por isso, eu acredito que a Argentina acompanha a eleição brasileira olhando muito para a capacidade de diálogo entre os governos. Pode haver diferenças ideológicas entre presidentes, naturalmente, mas a relação entre Brasil e Argentina é grande demais para ficar restrita à afinidade pessoal entre os mandatários.

Qual é o interesse da União Europeia nas eleições brasileiras?

No caso da União Europeia, existe hoje um elemento muito concreto: o acordo com o Mercosul. O acordo comercial provisório começou a ser aplicado em 1º de maio de 2026, depois de mais de duas décadas de negociações.

Então, os europeus estarão interessados em saber como o próximo governo brasileiro vai conduzir essa implementação, além de temas como meio ambiente, transição energética, minerais críticos, investimentos, tecnologia e segurança jurídica.

Eu diria que a União Europeia procura previsibilidade regulatória e institucional. Para empresas que pretendem investir bilhões de euros em outro país, saber qual será a política econômica, ambiental e comercial dos próximos quatro anos é extremamente relevante.

Qual é o interesse do Mercosul nas eleições brasileiras?

O Brasil é a maior economia do Mercosul. Portanto, qualquer eleição presidencial brasileira acaba tendo consequências para o rumo do próprio bloco.

Na minha visão, a principal questão será entender se o próximo governo pretende fortalecer o Mercosul como plataforma de negociação internacional, flexibilizar algumas regras ou buscar uma integração ainda maior entre os países.

Isso ganhou ainda mais importância depois do avanço do acordo com a União Europeia. A partir daí, o Mercosul passa a discutir não apenas o comércio interno, mas também sua capacidade de fechar acordos com outros mercados. A posição brasileira é determinante para esse processo.

Qual é o interesse do BRICS nas eleições brasileiras?

Eu acredito que o interesse do BRICS está principalmente no papel que o Brasil pretende desempenhar dentro do grupo. O bloco ampliou sua dimensão nos últimos anos e vem discutindo comércio, investimentos, financiamento, inteligência artificial, governança internacional e mecanismos de pagamento, além de defender maior participação dos países emergentes nas instituições globais.

O Brasil tem uma característica que considero especialmente importante nesse contexto: consegue participar do BRICS e, ao mesmo tempo, manter relações econômicas profundas com Estados Unidos e União Europeia. Essa capacidade de conversar com diferentes polos de poder aumenta o peso diplomático brasileiro.

Por isso, mais do que saber quem será o presidente, os demais integrantes vão observar qual será a estratégia externa do próximo governo. Se o Brasil continuará apostando nessa autonomia diplomática, se dará mais peso ao BRICS ou se buscará uma aproximação maior com Estados Unidos e Europa. Esse equilíbrio é provavelmente um dos aspectos da eleição brasileira que mais desperta atenção internacional.

Siga O Brasilianista