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Entrevistas

"Eleitor contraditório": o que explica o voto em legendas opostas para diferentes cargos?

Cientista político responde principais perguntas sobre o assunto

Biometria
Entenda até que ponto a ideologia pesa para o eleitor brasileiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O primeiro turno das eleições 2026 terminou no último domingo (04), com deputados estaduais, deputados federais e senadores totalmente definidos. Além disso, 20 estados já definiram também o seu governador. Para o segundo turno, restaram 7 estados e a eleição presidencial, de Flávio Bolsonaro (PL) contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

Com 100% das urnas apuradas, em São Paulo, por exemplo, 33 cidades do estado tiveram o voto casado entre Lula para presidente e Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo. 

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O dado chama atenção, porque os candidatos são de campos ideológicos opostos e se vincularam com outros candidatos nesta eleição. Enquanto Lula defendeu Fernando Haddad (PT), da mesma legenda, Tarcísio foi apoiado por Flávio, ambos de direita. 

Um levantamento do Instituto da Democracia (IDDC-INCT), divulgado pelo Meio, de julho deste ano, pode ajudar a começar a explicar esse fenômeno. Isso porque ele demonstra que os eleitores de Lula e Jair Bolsonaro (pai de Flávio) compartilham mais do que imaginam.

A pesquisa "A Cara da Democracia" aponta que metade dos lulistas são contra a "saidinha dos presos"; os bolsonaristas somam 56%. 63% dos bolsonaristas e 57% dos lulistas são contrários a proibição da venda de arma de fogo.

O Brasilianista conversou com Magno Karl, cientista político e diretor executivo do Livres, para responder algumas perguntas e esclarecer o assunto. 

O que pode explicar fenômenos pelo Brasil como esse, de um eleitor que vota ao mesmo tempo em um candidato de direita e de esquerda?

O eleitor costuma ir às urnas com sentimentos e expectativas muito particulares, que nem sempre caminham por linhas partidárias. Existem aqueles que compram pacotes fechados, claro, os que se definem como bolsonaristas ou lulistas, mas o brasileiro tem uma tradição de certa independência, mesmo que seja pela fragilidade histórica dos partidos.

O nosso voto, em geral, tende ser mais uma resposta às alternativas postas, aliada às simpatias e antipatias do eleitor, do que um teste de coerência ideológica.

Em uma eleição tão polarizada, mas diante desse levantamento do IDDC-INCT, é possível dizer que os eleitores petistas e bolsonaristas não são tão diferentes assim?

Eles têm diferenças reais, mas são menos diferentes do que imaginam. Petistas e bolsonaristas tendem a caricaturar o outro lado e a subestimar o quanto compartilham valores sobre família, democracia, segurança, igualdade e ascensão social.

Parte da polarização nasce de divergências substantivas, claro, há muitas visões que os separam, mas parte também vem de identidades políticas que aumentam artificialmente a distância entre os grupos.

É possível dizer o que realmente o eleitor brasileiro procura hoje? Ele está mais preocupado com ideologia ou dinheiro no bolso?

O eleitor tem valores, mas vive uma vida concreta: paga supermercado, procura emprego, precisa de saúde, segurança e escola para os filhos. Ideologia funciona mais como uma lente para interpretar essas experiências, mas no fim, ele pergunta: minha vida melhorou ou piorou? Meu dinheiro chega ao fim do mês? O governo funciona? E penso que não podemos condená-lo por agir assim.

Hoje, qual é o peso real de se associar a um candidato?

A associação ajuda, mas existe um teto. Lula pode transferir votos para Haddad e Bolsonaro para seus aliados, mas nenhum deles entrega automaticamente o seu lote completo de votos.

Uma liderança nacional dá identidade, visibilidade e mobiliza a base já construída. Depois disso, o candidato precisa construir razões próprias para receber o voto. Há um momento em que a influência do padrinho deixa de ser suficiente, e aí tudo depende do que oferece o candidato.

Qual a mensagem que fica para os políticos diante desses números?

A principal mensagem é parar de subestimar o eleitor. Ele não é apenas um petista ou bolsonarista, que recebe orientação e aperta os números correspondentes. Há muita gente fazendo escolhas diferentes entre cargos, temas e candidatos.

A polarização nos ilude de que há campos fixos e incomunicáveis na política brasileira, mas não necessariamente substitui a análise das candidaturas feitas pelo eleitor. O voto automático no bolsonarista ou lulista tem limites. E talvez exista mesmo mais terreno comum na sociedade brasileira do que o ambiente político faz parecer.

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