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Justiça

A relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

Novas conversas encontradas no celular do dono do extinto Banco Master mostram por que o senador do PL chamava o banqueiro de “irmão”

Flávio e Vorcaro
Registros da PF revelaram novos detalhes da relação Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/reprodução

Novos registros encontrados no celular de Daniel Vorcaro ampliam a dimensão da relação mantida pelo ex-dono do Banco Master com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A perícia da Polícia Federal recuperou cerca de três meses de conversas entre os dois, além de referências a seis encontros presenciais.

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O material mostra contatos frequentes, pedidos para falar por telefone, tratativas sobre reuniões e mensagens trocadas até a véspera da primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025.

Segundo registros revelados pelo Estadão, Flávio tentou falar com Vorcaro em cada um dos quatro dias anteriores à prisão.

Em 13 de novembro, perguntou se o banqueiro poderia atender. No dia seguinte, fez uma chamada de voz que não foi atendida.

Em 15 de novembro, voltou a procurar Vorcaro e, no dia 16, houve outra ligação perdida.

Horas depois, o senador enviou uma das mensagens que já haviam se tornado públicas nas primeiras revelações sobre a relação entre os dois.

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz”, escreveu Flávio.

Vorcaro foi preso no fim da tarde do dia seguinte, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar para o exterior.

A prisão estava prevista para ocorrer no dia 18, mas foi antecipada diante da possibilidade de saída do país.

A frequência desses contatos ajuda a contextualizar um tratamento que aparece repetidamente nas conversas.

Flávio chama Vorcaro de “irmão”, “mermão” e “irmãozão”, e o banqueiro utiliza expressões semelhantes ao responder ao senador.

Em novembro de 2025, ao enviar a Vorcaro um vídeo relacionado à produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, Flávio também escreveu que “tudo isso só está sendo possível por causa de vc”, afirmou o senador na mensagem. Vorcaro respondeu que o resultado havia ficado “perfeito”.

O primeiro contato

A aproximação entre Flávio e Vorcaro começou no fim de 2024. As conversas mais antigas não estavam mais disponíveis no aparelho apreendido, mas a PF conseguiu recuperar aproximadamente os três últimos meses de diálogos antes da prisão.

Registros divulgados anteriormente mostram que, a partir de 2025, a interlocução passou a envolver diretamente o financiamento de Dark Horse.

Flávio admitiu ter procurado Vorcaro em busca de recursos privados para o filme sobre o pai.

A negociação previa até US$ 24 milhões (R$ 124 milhões). Documentos e relatórios financeiros revelados posteriormente indicaram que pelo menos US$ 12,3 milhões (R$ 63 milhões) foram enviados por estruturas ligadas ao banqueiro ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.

Um dos pagamentos, de cerca de US$ 1,6 milhão (R$ 8,29 milhões), ocorreu em 16 de setembro de 2025, elevando o total conhecido dos repasses.

As conversas mostram Flávio cobrando a continuidade dos pagamentos e tratando diretamente com Vorcaro sobre o andamento da produção.

Em setembro de 2025, os dois também fizeram chamadas telefônicas e combinaram reuniões.

Registros analisados posteriormente identificaram ao menos cinco ligações entre eles apenas naquele mês, somando mais de seis minutos de conversas pelo WhatsApp.

O material não permite saber se houve outros telefonemas pela rede convencional.

Em outubro, quando as filmagens já haviam começado, Flávio voltou a pedir uma definição sobre os recursos e convidou Vorcaro para um jantar em São Paulo com Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh.

O banqueiro ofereceu a própria casa para o encontro. As mensagens mostram a organização da reunião, mas não confirmam que ela tenha efetivamente ocorrido.

Contatos seguiram durante a crise do Master

Em 8 de setembro de 2025, cinco dias depois de o Banco Central rejeitar a compra da instituição pelo BRB, o senador enviou um áudio ao banqueiro cobrando parcelas atrasadas do financiamento de Dark Horse.

Na mensagem, Flávio reconheceu que Vorcaro atravessava um “momento dificílimo” e disse ficar constrangido em cobrá-lo, mas afirmou que a produção precisava de uma definição sobre os pagamentos.

Vorcaro respondeu que tentaria resolver a situação e, no dia seguinte, os dois fizeram uma ligação de 2 minutos e 28 segundos.

Em março de 2026, quando seu telefone apareceu na agenda de Vorcaro, o senador afirmou que nunca havia tido contato com ele e sugeriu que seu número poderia ter sido repassado por terceiros.

Após a divulgação das mensagens, porém, Flávio reconheceu que conhecia Vorcaro desde dezembro de 2024 e disse que havia negado anteriormente a relação por causa de uma cláusula de confidencialidade ligada ao contrato de Dark Horse.

“Foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, declarou Flávio ao explicar a negociação.

Jatinho e outras conexões

Outros episódios revelados nos últimos meses adicionaram novas camadas às conexões entre Flávio e pessoas ou estruturas ligadas a Vorcaro.

Em 19 de janeiro de 2025, quando as negociações para Dark Horse já estavam em andamento, Flávio voltou da Flórida para Brasília com a família e o advogado Willer Tomaz em um Legacy 650 de prefixo PP-NLR.

Uma das três cotas da aeronave pertencia à Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio naquele período.

Flávio afirmou que considerava o avião pertencente a Willer Tomaz. O advogado, que também detinha uma cota da aeronave, declarou ter custeado integralmente aquele voo e disse que Vorcaro não autorizou, pagou ou participou da viagem.

Durante a campanha deste ano, Flávio também utilizou em São Paulo um apartamento de uma empresa de Tomaz que anteriormente havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

O imóvel foi comprado por Zettel em abril de 2025 por R$ 5,5 milhões e vendido, menos de dez meses depois, por R$ 3,5 milhões à empresa do advogado. 

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