Geopolítica

Interferência externa em eleições vai além de ações militares, alerta especialista

Discussões sobre intervenções ocorrem em meio à disputa por ativos estratégicos do país

Interferência externa em eleições vai além de ações militares, alerta especialista
A soberania do país é discutida com mais frequência no campo da esquerda, enquanto a direita, representada por Flávio Bolsonaro, almeja ampliar a influência norte-americana Antonio Cruz/Agência Brasil

Um relatório sigiloso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), encaminhado ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), classificou como crítico o risco de interferência nas eleições previstas para ocorrer em 4 de outubro de 2026.

O documento foi enviado em agosto e alerta para uma possível ameaça ao processo eleitoral de 2026. De acordo com informações reveladas pela jornalista Mônica Bergamo, a agência tem observado um movimento de pressão por parte dos norte-americanos.

A Abin informou que o país se tornou alvo da gestão de Donald Trump, que demonstra maior disposição política para defender suas estratégias com intensidade, pressionando para que o Brasil ceda aos seus interesses.

A exemplo disso, o Brasil lidou, especialmente nos últimos dois anos, com ações voltadas a reduzir a influência chinesa no país por meio de ameaças e aplicação de sanções econômicas, além de disputas para ampliar espaço em ativos considerados estratégicos, como terras raras e minerais críticos, e em infraestruturas como o Pix, sob a justificativa de que a ferramenta desfavorece instituições norte-americanas atuantes no território brasileiro.

O Itamaraty chegou a rejeitar o pedido de visto de dois agentes norte-americanos, Riley M. Barnes e Samuel Samson, que trabalham na Secretaria de Estado dos Estados Unidos, sob o comando do secretário Marco Rubio. Eles viriam ao Brasil para observar o pleito.

O governo brasileiro justificou que a medida tinha caráter incomum e apontou a suspeita de que a presença dos dois serviria para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

O Brasilianista conversou com o cientista político e internacionalista Henrique do Amaral, formado pela Universidade de Brasília (UnB), para explicar o que caracteriza uma interferência estrangeira em eleições, quais fatores podem ter embasado a avaliação da Abin e quais são os possíveis riscos para o Brasil.

O que, do ponto de vista das relações internacionais e da soberania nacional, caracteriza uma interferência estrangeira em um processo eleitoral?

Eu não diria que dá para ser muito categórico. Definitivamente, já tivemos interferências dos Estados Unidos no Brasil. Não foi exatamente durante uma eleição, mas durante o golpe de 64 houve apoio norte-americano para a realização da ação. Não foi necessária uma intervenção militar direta no terreno, mas a estrutura deles estava próxima ao território brasileiro.

Recentemente, vimos intervenções feitas, digamos assim, com o uso da força. Tivemos o próprio caso do presidente da Venezuela no começo deste ano, em que se utilizou força armada em uma intervenção direta, com bombardeio da capital, Caracas, e mortes na guarda pessoal do presidente e de outros militares venezuelanos.

No entanto, existem outras interferências em processos eleitorais que não se dão necessariamente pela força direta, pelo conflito armado ou por uma intervenção ostensiva. Há diversas outras possibilidades de realizar essa intervenção.

Acredito que o que está acontecendo agora no Brasil se insere nesse contexto. Não temos notícias de nenhuma intervenção militar direta, mas existem definitivamente ações que visam interferir no processo.

Quais são hoje os mecanismos mais comuns de influência externa sobre eleições, especialmente em democracias como a brasileira?

Os mecanismos são diversos, ainda mais vindos dos Estados Unidos, que possuem uma inserção privilegiada e muito forte na ordem internacional, seja militar, econômica ou politicamente.

Aquela carta com exigências noticiada pela mídia, com propostas do governo norte-americano ao Brasil sobre alterações que o governo deveria seguir para a normalização das relações e remoção de tarifas, ilustra bem algumas dessas possibilidades. Os Estados Unidos adotaram diversas medidas de pressão econômica e política para alterar tarifas agrícolas, como a eliminação de tarifas sobre o etanol americano, por exemplo.

Há também formas de privilegiar empresas norte-americanas, seja no comércio de aviação, que foi uma das exigências, no comércio digital ou na indústria, além de facilitar o acesso dos Estados Unidos aos minerais críticos no Brasil, reduzindo o espaço de nações não alinhadas, provavelmente referindo-se à China.

Essa pressão econômica busca reafirmar a hegemonia sobre o continente e reduzir a influência de potências rivais. O foco recai sobre ativos estratégicos como terras raras, riquezas naturais, infraestrutura e comércio de bens e serviços mais industrializados, como aeronaves.

Na seara política, a pressão se reflete no combate a facções criminosas. A classificação de grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos EUA é, sem dúvida, uma forma de pressão política.

Todos esses exemplos representam formas coordenadas de pressão para interferir em um processo eleitoral. A intervenção não significa necessariamente mexer em uma urna no dia da votação, mas sim mudar o cenário econômico e político do país, imputar crimes a autoridades e desestabilizar o regime, o que altera diretamente o ambiente eleitoral.

Vale destacar também declarações recentes, como as de Eduardo Bolsonaro, atuando de forma semelhante a um chanceler paralelo. Além disso, recebi relatos de que agências do governo americano têm contratado professores de língua portuguesa em regime relâmpago, com cursos intensivos de uma a duas semanas para atuar principalmente nos meses de outubro e novembro.

Quais tipos de movimentações a Abin pode estar se referindo ao classificar como "crítico" o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições de 2026?

O documento é reservado. Até onde sei, não tive acesso à íntegra, pois acredito que ele não foi divulgado oficialmente pela mídia em razão da própria natureza de uma agência de inteligência. No entanto, os fatores identificados pela Abin envolvem exatamente essa natureza de tentativas de interferência em aspectos econômicos e políticos.

Uma das exigências que constavam no documento inicial de demandas dos Estados Unidos era a realização de "eleições livres e justas", permitindo a participação de "dissidentes políticos". O que exatamente eles definem como dissidente político fica em aberto, mas é muito provável que se refiram à família Bolsonaro, talvez ao próprio Jair Bolsonaro.

Portanto, esse ponto já caracteriza fortemente uma interferência no pleito: um governo estrangeiro exigindo, em troca da remoção de tarifas econômicas, que o país realize eleições dentro de critérios subjetivos estabelecidos por eles e com a participação desses atores políticos.

Como interpreta o episódio em que o governo brasileiro negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA que pretendiam vir ao país para discutir temas relacionados à liberdade de expressão e integridade eleitoral? Esse tipo de iniciativa costuma ser considerado uma prática legítima de cooperação internacional ou pode ser percebido como uma tentativa de influência sobre assuntos internos?

Eu vejo como uma tentativa de influência. Obviamente, não é estranho que organismos internacionais verifiquem a integridade de eleições. A Organização dos Estados Americanos (OEA) regularmente fiscaliza pleitos realizados na América Latina, assim como a Comissão Europeia envia equipes e delegações para fazer essa observação. Nesses casos, porém, trata-se de uma atuação com natureza muito clara de auxílio e promoção da transparência do processo eleitoral.

Já no cenário atual de tensões entre Estados Unidos e Brasil, com todas as exigências colocadas nessa carta — algumas inclusive sugerindo que a América Latina seria o "quintal" dos EUA, que as políticas brasileiras deveriam mudar, ou de que a família Bolsonaro estaria sofrendo perseguição política —, o contexto é completamente diferente.

Diante de todas essas declarações e desse ambiente de desconfiança, decidiu-se por não aceitar a entrada desses representantes em território nacional. Normalmente isso não seria feito, pois o Brasil não tem a tradição de negar visto ou remover agentes estrangeiros do seu território sem um motivo concreto. Contudo, nesse caso, o contexto de desconfiança, disputa retórica e pressão econômica entre os dois países justificou a decisão do governo.

Em que medida a presença ou atuação de agentes governamentais estrangeiros em discussões sobre integridade eleitoral pode gerar preocupações de soberania para o Brasil?

Vamos pegar, por exemplo, o caso das eleições mais recentes na Venezuela, ocorridas nos últimos anos. A atuação de agentes dos Estados Unidos interessados em monitorar ou interferir nesse processo faz parte da política externa norte-americana por estarem em sua área imediata de influência.

Essa atuação de agentes pode ocorrer tanto a partir do próprio território dos Estados Unidos, por meio de monitoramento à distância, quanto pela presença de pessoal em campo. E em campo você pode ter agentes atuando oficialmente na embaixada ou indivíduos dos quais ninguém tomará conhecimento oficial, como agentes de serviços de inteligência infiltrados no país.

Isso aconteceu também na Bolívia em um passado não muito distante, em meio às disputas eleitorais no país — como quando venceu o candidato oposicionista, que posteriormente se desentendeu com a linha de Evo Morales e Luis Arce. Houve bastante influência direta dos Estados Unidos naquele processo: declarações de Elon Musk sobre o lítio boliviano, posicionamentos de membros do governo americano opinando abertamente sobre o pleito e até episódios de violência política na região com suspeitas de presença externa.

Dado o histórico de intervenções dos Estados Unidos na região, não causa estranhamento que eles acompanhem e até tentem interferir, de formas mais veladas, nos processos eleitorais dos países latino-americanos.

Quais seriam, na prática, os principais riscos para o Brasil caso houvesse algum grau de interferência estrangeira no processo eleitoral de 2026?

Podemos especular com base no histórico. Se tomarmos o golpe de 1964 como exemplo, a interferência dos Estados Unidos foi mais indireta, uma vez que não houve atuação militar ostensiva em campo no Brasil — embora essa possibilidade existisse —, mas isso foi suficiente para mudar todo o regime político do país, com a derrubada de um governo e a instalação de outro sob uma diretriz ideológica oposta, resultando no período ditatorial. Essa é uma das possibilidades em cenários de intervenção.

Trazendo para os dias de hoje, essa interferência seria mais velada, focada em alterar os resultados do pleito e garantir a eleição do candidato de seu interesse. Caso o governo norte-americano fosse contrariado pelo resultado nas urnas, a questão é se tentariam mudar o governo brasileiro por vias institucionais ou pela força.

Se houvesse a não aceitação de um governo eleito, as consequências seriam imediatas, com mudanças profundas em diversos eixos da política nacional. Veríamos, provavelmente, a concessão de anistia a Jair Bolsonaro, o retorno de Eduardo Bolsonaro ao país e a reinserção de opositores no cenário político institucional.

Além disso, a aproximação estratégica com a China seria drasticamente limitada ou desfeita. A política de exploração de terras raras seria desenhada de forma a favorecer os Estados Unidos, assim como setores industriais e comerciais, a exemplo da aviação, passariam a beneficiar empresas americanas em detrimento da Embraer. O mesmo ocorreria na política agrícola, com a criação de facilidades para o mercado norte-americano em prejuízo dos produtores brasileiros. São dinâmicas que um governo estrangeiro certamente buscaria para atuar em favor de seus próprios interesses.

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