Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, confirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) ter realizado sete transferências bancárias para o Havengate Development Fund a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Os pagamentos, feitos ao longo de 2025, somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época, segundo apuração publicada pelo O Globo.
O Havengate está sediado nos Estados Unidos e é administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro.
O fundo foi utilizado na estrutura de financiamento de Dark Horse. Agora, Polícia Federal e PGR tentam esclarecer se todo o dinheiro enviado ao Havengate teve como destino a produção ou se parte dos recursos pode ter bancado despesas relacionadas à permanência de Eduardo nos Estados Unidos.
Até o momento, não há evidência pública de que recursos de Vorcaro tenham sido desviados para Eduardo.
Sete repasses
A novidade trazida pela colaboração de Mineiro está na confirmação de uma sequência de pagamentos que, até então, vinha sendo reconstruída a partir de documentos, comprovantes bancários e mensagens.
As sete parcelas foram enviadas entre fevereiro e setembro de 2025. Uma das primeiras movimentações identificadas foi de US$ 2 milhões, em 13 de fevereiro, remetidos pela Entre Investimentos e Participações, empresa de Mineiro, para o Havengate.
O último pagamento ocorreu meses depois. Em setembro de 2025, mais US$ 1,66 milhão, aproximadamente R$ 9 milhões pela cotação daquele período, foi enviado ao fundo. A transferência já havia sido revelada pela revista piauí.
Mineiro afirma às autoridades ter sido o responsável pelas sete transferências e diz que agiu a pedido de Vorcaro.
A Entre já aparecia na investigação da PF como uma espécie de braço operacional utilizado para movimentações definidas pelo ex-banqueiro.
Mineiro também relatou que realizava outras operações para Vorcaro, inclusive obtenção e entrega de dinheiro vivo.
Malas de dinheiro
O relato do empresário não ficou restrito a Dark Horse. Mineiro afirmou ter realizado entregas de dinheiro em espécie a terceiros indicados por Vorcaro.
Em algumas ocasiões, segundo a colaboração, o volume exigia que as notas fossem transportadas em malas.
O empresário relatou que Vorcaro passou a solicitar operações consideradas “não ortodoxas”, entre elas movimentações sem lastro e obtenção de dinheiro vivo.
Operadores cobrariam comissão para disponibilizar as quantias, que depois eram entregues ao ex-banqueiro.
Mineiro disse, contudo, que não sabia qual era a destinação final desses valores.
Eduardo no projeto
Quando as primeiras revelações sobre Dark Horse vieram a público, o ex-deputado negou controlar o fundo ou administrar os recursos destinados à produção.
Documentos divulgados posteriormente, porém, mostraram que Eduardo havia sido identificado contratualmente como “produtor executivo” do projeto.
Outro documento chegou a descrevê-lo como “financiador”, embora não haja confirmação de que esse aditivo tenha sido assinado.
O próprio Eduardo reconheceu ter colocado dinheiro na fase inicial do filme. Segundo sua versão, foram aproximadamente US$ 50 mil de recursos próprios para assegurar a permanência de um diretor no projeto antes da entrada dos grandes investidores. Ele afirma que posteriormente recebeu o valor de volta.
Ao negar envolvimento na administração do Havengate, Eduardo afirmou:
“Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem.”
A declaração foi feita quando documentos sobre sua participação na produção começaram a ser divulgados.
A versão apresentada pelo ex-deputado é que o título de produtor executivo esteve relacionado ao risco financeiro assumido por ele no início do projeto e deixou de ter função prática depois da entrada de outros investidores.
“Quem diz que recebi dinheiro de Daniel Vorcaro ou do fundo criado nos Estados Unidos está mentindo”, declarou Eduardo ao explicar o episódio.
A PF tenta determinar justamente até onde ia a influência do ex-deputado sobre a estrutura financeira de Dark Horse.
Elo com Calixto
Outro ponto que aproxima a investigação do entorno de Eduardo é Paulo Calixto. O advogado administra o Havengate, destino dos sete pagamentos agora confirmados por Mineiro, mas não aparece formalmente como produtor de Dark Horse ou integrante da Go Up Entertainment, responsável pelo filme.
Como mostrou O Brasilianista o nome de Calixto estava nos metadados de uma nota de esclarecimento encaminhada pela produtora.
Os registros mostravam que o advogado havia criado o arquivo cerca de duas horas antes de ele ser enviado à publicação.
Michael Davis, sócio da Go Up, negou participação de Calixto na produção. Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora, também não apresentou à época uma explicação conclusiva para a presença do nome do advogado nos metadados.
Contas do filme
Uma perícia particular encomendada pela própria Go Up afirma que Dark Horse consumiu US$ 13.393.081,29 até 4 de junho deste ano e que a produtora recebeu do Havengate valor equivalente.
O laudo aponta que 72% dos gastos ocorreram nos Estados Unidos e 28% no Brasil.
Das cinco fases de realização apontadas no documento, apenas as filmagens teriam ocorrido no Brasil.
A chamada soft production, etapa anterior à pré-produção, teria consumido cerca de US$ 2,69 milhões, aproximadamente 20% do orçamento apresentado.
Produções cinematográficas costumam reservar algo entre 3% e 5% do orçamento para essa fase. A pré-produção de Dark Horse, por sua vez, aparece no laudo com custo de US$ 2,66 milhões.
A perícia privada não encerrou as dúvidas. O documento não detalha individualmente todos os pagamentos a atores, produtores e fornecedores, nem torna públicos todos os comprovantes necessários para reconstruir integralmente o percurso dos recursos.
No mês passado, a Polícia Federal cobrou da Go Up esclarecimentos sobre aspectos financeiros, contratuais e operacionais do filme. A resposta da produtora foi encaminhada às autoridades na última sexta-feira (4).
Lado de Flávio
O caminho até Vorcaro também passa por Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Como O Brasilianista já destacou, o senador admitiu ter procurado o então banqueiro para conseguir financiamento para o filme sobre o pai.
Um áudio divulgado em maio registrou Flávio cobrando novos recursos para a conclusão da produção.
Flávio também confirmou que esteve na residência de Vorcaro em São Paulo quando o empresário cumpria medidas cautelares.
O senador sustenta que os contatos estavam relacionados exclusivamente ao financiamento de Dark Horse e nega ter oferecido qualquer vantagem política ou administrativa ao banqueiro.
A revelação do financiamento atingiu sua campanha presidencial. Depois de inicialmente prometer uma apresentação detalhada das contas do longa, Flávio passou a tratar publicamente o assunto como “página virada”.
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