Crise no STF piora situação de Flávio Bolsonaro na investigação sobre Dark Horse
Documentos tornados públicos após cobranças de ministros mostram a atuação do senador na captação de recursos com Daniel Vorcaro
O fim do sigilo das investigações sobre Dark Horse colocou Flávio como interlocutor direto de Daniel Vorcaro na captação de patrocínio para a produção do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro
A disputa interna no Supremo Tribunal Federal (STF) entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça afetaram Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e candidato à Presidência da República.
O fim do sigilo das investigações sobre Dark Horse colocou Flávio como interlocutor direto de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, na captação de patrocínio para a produção do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
As apurações da Polícia Federal sobre os repasses do fundador do Banco Master transformaram o financiamento do filme suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
STF em guerra
Mendonça acusou Moraes de trabalhar para Vorcaro; Moraes acusou Mendonça de proteger Flávio
A tensão no tribunal ganhou força quando Alexandre de Moraes acusou André Mendonça de praticar escolha seletiva no manuseio do sigilo das investigações e pediu que o presidente da corte, Luiz Edson Fachin, determinasse o levantamento total do segredo de justiça dos documentos do Caso Master.
Diante dessa pressão e da reação de ministros como Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, que defenderam a unificação e a transparência do processo, Mendonça retirou o sigilo de desdobramentos e peças do caso.
Entre os materiais tornados públicos, sobressaiu-se o acervo de mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Os registros recuperados do telefone celular de Vorcaro mostram que as negociações em torno da cinebiografia tiveram início por intermédio do marqueteiro Thiago Miranda.
Em dezembro de 2024, Miranda procurou o banqueiro para agendar reuniões com o senador, apontando o filme como uma das pautas centrais.
A partir das primeiras sinalizações de acordo, Vorcaro indicou em conversas com seu cunhado, Fabiano Zettel, que as transferências direcionadas à produção cinematográfica representavam a obrigação mais importante do período, exigindo rigor no cumprimento dos fluxos.
"Irmãozão"
Daniel Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, pois a PF temia que ele fugisse do Brasil
Os contatos diretos entre o parlamentar e o dono do Banco Master intensificaram-se ao longo de 2025.
Em reuniões presenciais, mensagens e áudios, Flávio Bolsonaro cobrou repasses em atraso e manifestou apreensão quanto à possibilidade de inadimplência junto a profissionais envolvidos no projeto, como o ator Jim Caviezel — cotado para interpretar Jair Bolsonaro por 4 milhões de dólares — e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Diante dos atrasos recorrentes, o senador alertou que a produção estava no limite e solicitou posicionamentos expressos de Vorcaro sobre a capacidade de manter os aportes, prevendo a necessidade de buscar rotas alternativas de investimento.
O levantamento da PF mapeou a engenharia financeira utilizada na tentativa de viabilizar a obra. Os recursos originavam-se da offshore Entre Investimentos, sediada nas Bahamas, e seguiam em remessas sucessivas para o fundo Havengate Development Fund LP, localizado nos Estados Unidos.
Ao longo de 2025, ano em que Vorcaro foi preso, tais transferências totalizaram 12,3 milhões dólares. Planilhas apreendidas com Vorcaro detalharam um orçamento total de 24 milhões de dólares e mostraram a expectativa de faturamento em bilheteria entre 45 milhões e 100 milhões de dólares.
As projeções chamaram a atenção das autoridades judiciais e policiais por superarem amplamente a arrecadação do filme de maior bilheteria do cinema brasileiro, Minha Mãe é uma Peça 3, que obteve o equivalente a trinta milhões de dólares.
A investigação conectou a estrutura do fundo norte-americano a pessoas próximas do núcleo político do candidato. A Havengate Development Fund LP mantinha ligações com o corretor de imóveis Altierres Santana e com o advogado Paulo Sergio Camin Calixto, responsável pela defesa do deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Além disso, os relatórios policiais identificaram que a gestão do financiamento envolveu orientações repassadas por Eduardo Bolsonaro acerca da condução de valores no exterior.
Dinheiro público
Rogério Marinho é coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro
Outra linha de apuração associada ao filme passou a correr no gabinete do ministro Flávio Dino, relator no STF de um inquérito sobre desvios de emendas parlamentares.
Os documentos da investigação sobre Dark Horse mostraram que a PF optou por direcionar a Dino pedidos de autorização para operações relacionadas ao filme por desconfiar de André Mendonça.
Algumas dessas diligências miraram Karina da Gama, proprietária da Go Up, produtora contratada para executar o filme, e o deputado federal Mario Frias, apontado como produtor executivo de Dark Horse.
Os investigadores identificaram indícios de triangulação financeira de mais de R$ 6 milhões envolvendo contratos públicos da Prefeitura de São Paulo — chefiada por Ricardo Nunes (MDB), que orbita a zona de influência da família Bolsonaro por ser aliado político de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador paulista e ex-ministro de Jair Bolsonaro.
Esses contratos foram firmados com o Instituto Conhecer Brasil, que repassava o dinheiro recebido a empresas terceirizadas que devolviam as quantias à Academia Nacional de Cultura, entidade controlada por Karina da Gama.
Prestando contas
Foto de Flávio e Sicário, assessor de Vorcaro responsável por chefiar as milícias do dono do Master
Após as primeiras divulgações da relação entre Flávio e Vorcaro, em junho deste ano, o senador prometeu que prestaria contas sobre Dark Horse. Mas nunca cumpriu a promessa.
Mas o tratamento dado por Flávio aos eleitores foi diferente daquele concedido a Vorcaro. Em novembro de 2025, o senador lhe enviou vídeos para mostrar o andamento do longa-metragem e reconheceu o papel do apoio prestado pelo dono do Master.
Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro, o parlamentar tentou ligações telefônicas, enviou imagens de visualização única e registrou mensagens afirmando aliança permanente com o interlocutor.
Vorcaro foi preso na noite de 17 de novembro de 2025, no momento em que tentava embarcar em uma de suas aeronaves com destino a Dubai. Essa viagem motivou o adiantamento da deflagração da Operação Compliance Zero.
Mudanças
Crise no STF fez Luiz Edson Fachin assumir relatorias do Caso Master e das fraudes no INSS, que eram relatados por Mendonça
Os embates entre Mendonça e Moraes, mais a pressão de Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, fizeram com que Luiz Edson Fachin assumisse as relatorias do Caso Master e das investigações sobre fraudes no INSS.
Se Mendonça estava agindo politicamente para blindar Flávio e o Bolsonarismo, como acusou Alexandre de Moraes, agora, essa possibilidade não existe mais. Fachin, que conduzirá os processos a partir de agora, foi uma das principais vítimas dos ataques bolsonaristas nos últimos anos.
Esse contexto pode não prejudicar Flávio, mas, com certeza, não ajudará o senador nem sua campanha à Presidência da República. Vale lembrar que o presidente do STF foi bem rígido nas decisões que tomou quando assumiu a relatoria dos processos da Lava Jato.
A decisão de Flávio Dino neste domingo (13), que acabou com o sigilo dos documentos do Caso Dark Horse obtidos pela Polícia Civil de São Paulo, aumenta ainda mais a pressão sobre Flávio Bolsonaro.
Além de mais elementos sobre o filme passarem por escrutínio público, o senador terá Dino em seu encalço, devido à suspeita de uso de emendas parlamentares no financiamento de Dark Horse.
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Formou-se em jornalismo pela Unip, em 2012, tem pós -graduação em Relações Internacionais pela Fesp-SP e especialização em Macroeconomia e Finanças pela FGV. É jornalista especializado na cobertura do Poder Judiciário desde 2015, analisando tecnicamente os tribunais superiores, traduzindo temas jurídicos complexos e detalhando seus efeitos na política e no setor privado.