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Justiça

O Caso Master encontrou-se com a Carbono Oculto

Terceira fase da operação mira um ex-diretor do Genial e Antônio Carlos Freixo Júnior, delator ligado às apurações sobre Daniel Vorcaro

Carbono Oculto
Aster, Usina Itajobi, Reag, fundos e estruturas financeiras já apareciam nas duas investigações Foto: reprodução

Durante mais de um ano, o Caso Master e a Operação Carbono Oculto avançaram como investigações diferentes, embora alguns nomes, fundos e instituições financeiras aparecessem dos dois lados. Nesta quinta-feira (24), essa sobreposição ficou mais explícita.

A Operação Crédito Oculto, novo desdobramento da Carbono Oculto, colocou entre os alvos Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor e ex-sócio do Banco Genial, e Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos e colaborador das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master.

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A ação tenta reconstruir a engenharia financeira utilizada na aquisição da Tobras Distribuidora de Combustíveis, conhecida como Terrana.

Ao longo dos últimos meses, o BNews mostrou sucessivamente a aproximação dessas duas histórias, primeiro com a Reag, alvo central da Carbono Oculto e posteriormente peça das investigações do Master; depois com fundos usados em operações envolvendo o BRB; mais tarde com a Entre Investimentos e, agora, com a própria terceira fase da operação.

O ponto mais importante da nova ofensiva, porém, está no caminho de mais de R$ 120 milhões.

Segundo o Ministério Público, recursos teriam atravessado empresas como Aster Petróleo, SM Serviços Empresariais, Duvale Distribuidora e Usina Itajobi, algumas delas já conhecidas da Carbono Oculto, antes de chegar à estrutura financeira montada para a compra da Terrana.

R$ 120 milhões que voltam à Aster

Segundo o Gaeco, mais de R$ 120 milhões passaram por diferentes empresas e contas que funcionariam como “contas de passagem”.

Entre elas estão justamente Aster Petróleo, SM Serviços Empresariais, Duvale Distribuidora e Usina Itajobi.

A suspeita é de que essas movimentações fossem utilizadas para aumentar a distância entre a origem dos recursos e os beneficiários finais da aquisição da Terrana.

A Receita Federal descreve uma operação ainda mais complexa. Uma usina sucroalcooleira teria recebido R$ 100 milhões enviados pela organização investigada.

Segundo o órgão, o dinheiro passou “em poucos minutos” por múltiplas contas de três empresas, protegidas por estruturas de fintechs, até chegar à usina.

Depois, os mesmos R$ 100 milhões foram aportados em um fundo de investimento criado especificamente para o negócio. O dinheiro seguiu circulando.

O fundo comprou um Certificado de Depósito Bancário Vinculado, o CDBV, em uma instituição tradicional.

O banco teria utilizado esses recursos em uma operação combinada com a emissão de duas cédulas de crédito bancário para empresas consideradas de fachada pelos investigadores.

Essas empresas foram então utilizadas na estrutura que culminou na compra da distribuidora.

Para a Receita, a arquitetura permitia dar aparência de operações regulares de mercado a recursos cuja origem e beneficiários econômicos estariam sendo ocultados.

Há ainda outra cifra. Os investigadores encontraram uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios envolvendo a usina.

Uma companhia relacionada à estrutura financeira investigada adquiriu esses créditos por meio de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios.

Parte relevante dos recursos, segundo a Receita, teria vindo de fundos controlados pelo mesmo grupo investigado.

A empresa financeira empregada nessa estrutura movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.

A Receita ressalta que o volume deve ser analisado junto das demais evidências reunidas e aponta indícios de ocultação patrimonial e lavagem de capitais.

Aster da Crédito Oculto

Em junho, O Brasilianista mostrou que a Aster já era um dos nomes presentes nas investigações sobre a chamada “Máfia da Nafta”.

Naquele caso, o Ministério Público investigava um sistema em que gasolina praticamente pronta teria sido importada sob a classificação de nafta, submetida a tributação menor.

Segundo a investigação, a estrutura da Dax Oil, instalada no Polo Petroquímico de Camaçari, era utilizada para simular o refino antes de o produto seguir para distribuição.

A decisão obtida pelo O Brasilianista apontava que Dax Oil, Refinaria Riograndense e Companhia Brasileira de Logística movimentaram, em operações relacionadas à Petrodansk, valores que se aproximaram de R$ 1,2 bilhão.

Somente as compras de nafta petroquímica citadas no documento ultrapassavam R$ 1,3 bilhão.

Os empresários que colaboraram com as autoridades na Bahia já haviam atuado em São Paulo por meio da Copape e da Aster.

Paralelamente, eram investigados pelo Ministério Público paulista por suspeitas de lavagem de dinheiro ligada à estrutura atribuída ao PCC.

Agora, a Aster reaparece não apenas no setor de combustíveis, mas na rota financeira dos recursos utilizados para chegar à Terrana.

Itajobi e Genial 

A Usina Itajobi, também citada agora entre as empresas pelas quais teriam passado os mais de R$ 120 milhões, não é novidade na investigação.

Em maio, O Brasilianista mostrou que o Genial Investimentos havia sido atingido por um bloqueio de R$ 176 milhões em uma cautelar relacionada à Carbono Oculto.

A reportagem registrou que empresas que antes utilizavam estruturas da Reag haviam migrado operações para o Genial.

Entre os ativos transferidos estava um FIDC de cerca de R$ 500 milhões ligado a uma carteira de crédito consignado do Banco Master.

Aqui, o cruzamento começa a ficar mais claro. Segundo a reportagem, os recursos diziam respeito a um empréstimo feito à Usina Itajobi, ligada ao grupo Copape/Aster.

A Itajobi, por sua vez, teria aplicado R$ 176 milhões em CDBs do Genial por intermédio do fundo Radford. O Radford reaparece na operação desta quinta-feira.

O BNews informa que os investigadores analisam os fundos Radford, Derby 44 e Los Angeles 01, além de estruturas como Berna Holdings e Branson Holdings, constituídas pouco antes da aquisição da Terrana.

Ou seja, alguns dos elementos que aparecem agora na terceira fase já estavam espalhados em documentos e investigações anteriores.

O Genial afirmou que Humberto Tupinambá deixou sua diretoria e quadro societário em maio de 2026, quando foi destituído. O banco também tem declarado que presta informações às autoridades e colabora com a investigação.

Antes do Genial, havia a Reag

Para entender onde o Caso Master realmente começa a se aproximar da Carbono Oculto, é preciso voltar a 28 de agosto de 2025.

Naquele dia, a Carbono Oculto foi às ruas com uma dimensão rara: a Receita Federal classificou a operação como a maior ofensiva contra o crime organizado já realizada no país em termos de cooperação institucional e amplitude.

A Receita identificou irregularidades em mais de mil postos de combustíveis espalhados por dez Estados, que movimentaram aproximadamente R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

Cerca de 140 estabelecimentos não registravam movimentação comercial, mas haviam recebido mais de R$ 2 bilhões em notas fiscais.

A investigação encontrou ainda uma fintech que teria funcionado como uma espécie de banco paralelo, movimentando cerca de R$ 46 bilhões, além de pelo menos 40 fundos de investimento, com patrimônio na casa de R$ 30 bilhões, utilizados nas estruturas de ocultação patrimonial.

O BNews registrou a mobilização de cerca de 1.400 agentes, centenas de alvos e o avanço da investigação do setor de combustíveis para a Faria Lima.

Entre os principais alvos naquele primeiro momento estava a Reag Investimentos.

A Reag encontrou o Master

Em dezembro de 2025, o BNews publicou que o Banco Central havia identificado uma nova suspeita envolvendo o Banco Master e fundos administrados pela Reag DTVM, então já investigada na Carbono Oculto.

Segundo a reportagem, a suspeita envolvia operações que poderiam alcançar R$ 11,5 bilhões e havia sido encaminhada ao Ministério Público Federal.

O BC investigava se estruturas de fundos haviam sido utilizadas em aportes no Master em um momento de pressão sobre o capital da instituição.

A Reag afirmou à época que não havia, nos documentos da Carbono Oculto, prova de ligação da empresa com o PCC e sustentou que colaborava com as autoridades.

Poucas semanas depois, em janeiro, o BNews revelou outra conexão. Um fundo da Reag teria aportado R$ 159 milhões em outro veículo que se tornou um dos principais acionistas privados do BRB e ajudou a ampliar o capital do banco público no período em que o BRB buscava adquirir o Master. As autoridades passaram a investigar a finalidade dessa operação.

A tentativa de compra do Master pelo BRB acabou barrada pelo Banco Central, mas os fundos utilizados nas operações continuaram sob análise.

João Carlos Mansur

João Carlos Mansur, fundador da Reag, fechou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República no conjunto das investigações relacionadas ao Banco Master.

O Brasilianista revelou que a proposta envolvia 17 anexos e previa pagamento de R$ 40 milhões.

Mansur se comprometeu a detalhar operações realizadas por fundos administrados pela antiga gestora.

O BNews publicou posteriormente que Mansur atribuiu a fundos da Reag o uso em operações que, segundo sua versão, teriam servido para ocultar pagamentos atribuídos a Daniel Vorcaro. 

O Brasilianista mostrou que um dos blocos apresentados por Mansur alcança diretamente a Carbono Oculto, com referências a Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco.

Mineiro nas duas investigações

Mineiro é fundador do Grupo Entre Investimentos e da Entrepay. Já vinha aparecendo em diferentes partes do Caso Master antes de se tornar alvo da fase atual da Carbono Oculto.

Em julho, O Brasilianista destacou que a Entre Investimentos havia recebido R$ 159,2 milhões de fundos investigados em operações relacionadas à apuração sobre Daniel Vorcaro.

Desse montante, R$ 139,2 milhões teriam vindo da Sefer Investimentos e outros R$ 20 milhões do Gold Style, fundo administrado pela Reag.

Dias depois, O Brasilianista publicou que a Entre teria transferido R$ 26,2 milhões para a ACX ITX Serviços de Tecnologia, empresa que, segundo a Polícia Federal, fazia parte de uma estrutura de lavagem de dinheiro.

A companhia afirmou atuar regularmente e disse estar à disposição das autoridades.

Em setembro, Mineiro fechou uma colaboração premiada com a PGR. Ele afirmou ter funcionado como operador financeiro de Vorcaro em determinadas operações e entregou documentos relacionados a transferências para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.

Segundo sua versão, houve pelo menos sete remessas, somando US$ 12,33 milhões (R$ 63,85 milhões).

Beto Louco e Primo

A Carbono Oculto sempre teve dois personagens recorrentes, Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo.

O Ministério Público os aponta como figuras centrais da estrutura investigada. O BNews mostrou, já em agosto de 2025, que Primo era tratado pelos investigadores como um dos principais articuladores do esquema.

O Brasilianista revelou posteriormente que a investigação havia ampliado para mais de mil postos de combustíveis o universo potencialmente relacionado aos grupos empresariais dos dois.

O número era muito superior aos cerca de 300 estabelecimentos mapeados na fase inicial.

Em abril deste ano, o BNews noticiou que Beto Louco apresentou uma proposta de delação premiada ao Ministério Público paulista.

O acordo poderia alcançar fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e eventual participação de agentes públicos, mas a negociação enfrentou resistência dos investigadores.

Em maio, o BNews informou que Beto fechou um acordo com o Ministério Público da Bahia, restrito aos fatos investigados naquele Estado.

A segunda fase

Em 28 de maio, uma nova ofensiva vinculada à Carbono Oculto foi às ruas. O BNews registrou o cumprimento de 55 mandados em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Segundo os investigadores, parte da estrutura teria continuado funcionando mesmo depois da primeira operação.

Relatórios financeiros apontavam movimentações atípicas próximas a R$ 4 bilhões em uma das frentes.

Em outra apuração, a Receita identificou transações consideradas suspeitas que, somadas, se aproximavam de R$ 26 bilhões.

Uma fintech localizada na Avenida Faria Lima teria movimentado mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo.

Para a Receita, fintechs e plataformas de pagamento funcionavam como “dutos financeiros” do grupo.

Até Roberto Justus

Em janeiro, o BNews mostrou outro ponto curioso de contato entre as investigações.

Documentos societários da Steelcorp, empresa comandada por Roberto Justus, indicavam a participação do fundo SH, cujo único cotista seria o Banco Master.

A estrutura havia aparecido em documentos relacionados às investigações que orbitavam a Carbono Oculto. A menção não atribui a Justus participação no esquema investigado.

Em agosto, quando a primeira grande ofensiva completou um ano, a Receita lançou a Operação Bomba Oculta.

O BNews informou que 1.283 CNPJs e 228 inscrições estaduais seriam tornados inaptos, com o objetivo de interromper o funcionamento de empresas e postos considerados irregulares.

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