O mesmo advogado que aparece ao lado de Flávio Bolsonaro em um voo dos Estados Unidos para Brasília num jatinho ligado a Daniel Vorcaro também está por trás de uma rede de empresas que administra imóveis, aeronaves e negócios que voltam a alcançar o senador.
A revista Piauí identificou que Flávio viajou em 19 de janeiro de 2025, acompanhado da mulher, das duas filhas e do advogado Willer Tomaz, no Legacy 650 de prefixo PP-NLR.
Naquele momento, uma das três cotas do avião pertencia a uma empresa de Tomaz e outra já estava nas mãos da Prime You, empresa que tinha Vorcaro como sócio.
A segunda investigação, produzida pela newsletter Noites Húngaras em parceria com o ICL Notícias, desloca a atenção do avião para os negócios imobiliários de Willer.
A reportagem encontrou Lídia Maria Figueiredo Mazelli, que ocupou cargos de direção em pelo menos 14 empresas relacionadas ao advogado e assinou documentos referentes a uma mansão de cerca de R$ 10 milhões em Angra dos Reis. O imóvel já havia aparecido em episódios envolvendo Flávio.
O ponto que aproxima as duas histórias é Willer Tomaz. E, ao redor dele, reaparecem alguns dos mesmos elementos, Flávio Bolsonaro, empresas patrimoniais, imóveis de alto padrão, aeronaves compartilhadas e, em mais de uma ocasião, estruturas que também tiveram relação com Daniel Vorcaro.
Um voo em família
O voo partiu do Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale-Hollywood e terminou em Brasília em 19 de janeiro de 2025.
Registros de tráfego aéreo, documentos aeroportuários e dados que apareceram nas investigações da Polícia Federal permitiram identificar o avião como o PP-NLR.
A proprietária formal do jato era a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade criada para dividir a aeronave em três cotas.
Uma delas pertencia ao advogado por meio da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira. Outra era de Laércio Cosentino, fundador da Totvs. A terceira havia sido adquirida no fim de 2024 pela Prime You.
Vorcaro foi sócio da Prime You entre 2021 e setembro de 2025. Além de deter parte da aeronave, a companhia também administrava sua utilização por meio da Prime Aviation.
Em maio de 2025, cada participação de um terço no Legacy estava avaliada em cerca de US$ 5,5 milhões (R$ 28,49 milhões), segundo relatório da PF.
A Fraction 024 possuía ainda uma relação financeira direta com o Master. Uma comunicação ao Coaf registra que a empresa transferiu R$ 7,6 milhões ao banco em 36 operações, entre setembro de 2024 e setembro de 2025. No mesmo intervalo, pagou outros R$ 6,5 milhões à Prime Aviation.
Willer afirmou que era proprietário de uma das cotas e que a Prime You administrava o avião.
Segundo sua versão, porém, só soube em abril deste ano que Vorcaro também havia adquirido uma participação.
Após descobrir, diz ter rompido o contrato e entrado em litígio com a operadora. O advogado sustenta que não conhece Vorcaro e que costuma oferecer lugares disponíveis no avião a amigos sem cobrança ou contrapartida.
Flávio não respondeu aos questionamentos enviados pela Piauí sobre o voo até a publicação das reportagens.
O mesmo avião de Moraes
O PP-NLR já era conhecido no Caso Master. Em agosto de 2025, sete meses depois da viagem de Flávio, Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes foram filmados desembarcando do mesmo Legacy 650 no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
O Brasilianista mostrou os registros da relação entre a aeronave, a Prime You e as negociações envolvendo o escritório Barci de Moraes.
Dark Horse
O voo de Fort Lauderdale ocorreu em 19 de janeiro de 2025. O cronograma do financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, previa um aporte de US$ 2 milhões (R$ 10.361 milhões) no dia seguinte.
Vorcaro negociava um investimento total de US$ 24 milhões (R$ 124 milhões) no projeto. No dia seguinte ao pouso em Brasília, Flávio procurou um intermediário da negociação e pediu agilidade na resposta jurídica sobre o investimento. O pedido acabou chegando a Vorcaro.
A primeira transferência não ocorreu na data prevista e foi realizada apenas em 13 de fevereiro.
O Brasilianista acompanha desde maio a relação financeira entre Flávio e Vorcaro.
O senador admitiu ter procurado o banqueiro para captar recursos privados para a produção depois que mensagens, áudios e comprovantes vieram a público. Posteriormente afirmou que sua relação com Vorcaro se restringia ao filme.
A apuração avançou desde então. Documentos revelados posteriormente indicaram que os valores relacionados a Vorcaro enviados ao fundo ligado à produção alcançaram cerca de US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 63,7 milhões pela cotação considerada à época.
Flávio nega ter oferecido qualquer benefício político ou administrativo em contrapartida.
Do avião para os imóveis de Willer
Lídia Maria Figueiredo Mazelli, de 61 anos, trabalhou formalmente no escritório de Willer entre março de 2019 e setembro de 2020, segundo registros trabalhistas consultados pelo ICL e pela newsletter Noites Húngaras.
Dias após o encerramento do vínculo, ela passou a aparecer na administração de empresas ligadas ao advogado.
Ao longo dos anos, Lídia ocupou cargos em 14 empresas, segundo o levantamento.
A lista atravessa negócios de imóveis, aviação, comunicação, mineração, investimentos e meios de pagamento.
Entre os nomes estão WT Administração de Imóveis e Bens, Jet Line, Alcazar, Friponor, RioPag e Ícaro Aviation, esta última relacionada à operação de um hangar executivo em Brasília.
A reportagem inicialmente apresentou Lídia como empregada doméstica porque, ao ser abordada, ela própria afirmou trabalhar como doméstica e negou conhecer Willer ou saber que figurava na direção das empresas.
Depois da publicação, Lídia contestou essa versão. Disse ser bacharel em Administração desde 2002, trabalhar como gerente administrativa desde 2010 e ter exercido efetivamente os cargos de direção.
A reportagem posteriormente localizou registro profissional em seu nome no Conselho Federal de Administração. Ela afirmou ter dado respostas evasivas por estar assustada com a abordagem.
A mansão de Angra
Como diretora-presidente da WT Administração de Imóveis e Bens, Lídia assinou documentos relacionados a uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.
O imóvel foi comprado em 2020 pela Sport 70, empresa ligada ao jogador Richarlison, e acabou envolvido numa disputa judicial com a empresa de Willer. O processo terminou em 2025 com resultado favorável ao advogado.
Flávio não era parte da ação, mas apareceu como testemunha indicada pelos advogados ligados ao jogador e esteve no imóvel antes de a empresa de Willer obter a posse.
O antigo ocupante do imóvel, Antônio Marcos da Silva, disse à reportagem que Flávio e Willer falavam sobre negócios conjuntos durante uma visita.
A defesa de Willer contesta integralmente essa versão, diz que Flávio não participou da aquisição e afirma que o senador jamais teve participação na propriedade.
Também questiona a credibilidade de Antônio Marcos, que foi condenado por estelionato em primeira instância e afirma recorrer da decisão.
Outra mansão
Em fevereiro deste ano, Flávio comemorou o aniversário da filha em outra residência compartilhada na Ilha Comprida, da qual Willer era cotista.
Essa segunda propriedade era administrada pela Prime You, a mesma empresa que gerenciava o PP-NLR e que teve Vorcaro entre os sócios.
No avião, Willer possuía uma cota e a Prime You, então ligada a Vorcaro, possuía outra.
Na casa usada pela família de Flávio em Angra, Willer também aparece como cotista e a Prime You como administradora.
E há ainda o apartamento usado na campanha
O Brasilianista destacou que Flávio permaneceu durante cerca de 15 dias de agosto em um apartamento em São Paulo ligado a Willer Tomaz.
A unidade havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e personagem das investigações do Caso Master.
Zettel havia comprado o apartamento por R$ 5,5 milhões em abril de 2025. Em fevereiro de 2026, a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa de Willer, comprou o imóvel por R$ 3,5 milhões. O registro da transferência ocorreu em março.
É a mesma WT Administração que teve Lídia em sua diretoria e que aparece na disputa sobre a mansão de Angra.
Willer disse à Piauí que não conhecia Zettel ou Vorcaro. Flávio declarou anteriormente que havia se hospedado em hotéis próximos à estrutura de sua campanha em São Paulo.
Bets, ilha e hangar
As empresas administradas por Lídia ampliam o alcance patrimonial do grupo de Willer para além das casas.
A Friponor Brasil Turismo, que ela presidiu, controla o direito de ocupação de uma ilha particular em Angra dos Reis que chegou a ser anunciada por R$ 17 milhões.
Em 2025, Lídia assinou pedido ao órgão ambiental fluminense para saber que parcela da área poderia receber um empreendimento turístico.
Ela também integrou a administração da empresa que hoje se chama RioPag, contratada pela Loterj para processar movimentações financeiras das empresas de apostas credenciadas pelo governo estadual.
O contrato foi estimado em R$ 32 milhões por cinco anos e posteriormente se tornou alvo de disputas entre a própria Loterj e a empresa.
Outra empresa, a Ícaro Aviation, está relacionada a um hangar para jatos executivos em Brasília.
Willer Operação Sem Desconto
O advogado já vinha aparecendo nas investigações da Polícia Federal por outra razão.
Em agosto, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou buscas e apreensões em endereços ligados a Willer, além da quebra de sigilos, dentro de uma frente da Operação Sem Desconto.
A PF buscava esclarecer suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a uma estrutura que poderia ter beneficiado o senador Weverton Rocha.
O Brasilianista informou que a investigação descreveu Willer como alguém relacionado a empresas, imóveis, aeronaves, funcionários e operadores financeiros.
A defesa rejeita irregularidades. O próprio advogado afirma que não é investigado por desvios de aposentadorias e cita manifestação da PGR contrária à diligência.
O nome de Willer apareceu ainda em outra conexão. Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de Flávio, afirmou ter sido indicada pelo advogado. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, em uma das empresas examinadas nas investigações.
O Brasilianista permanece aberto à manifestação de todas as pessoas e instituições citadas nesta reportagem. Os canais de comunicação do portal estão à disposição.
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