Justiça

Caso Master: Como era a relação de Vorcaro com o Judiciário?

Ex-banqueiro tinha pelo menos R$ 14,3 bilhões vinculados a 16 ações judiciais

Vorcaro e o Judiciário
Vorcaro manteve contatos, encontros ou relações indiretas com integrantes do STF, STJ e pessoas próximas a magistrados Foto: creative commons

Antes de o Caso Master transformar Daniel Vorcaro em personagem recorrente nos gabinetes do Supremo, o Judiciário já tinha peso bilionário nos negócios do banqueiro.

Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo mostram que Vorcaro tinha pelo menos R$ 14,3 bilhões aplicados em direitos relacionados a 16 processos judiciais.

O retorno desses ativos estava condicionado a decisões tomadas em instâncias como o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF), porque os valores seriam pagos pela União.

Esse mapa consta de um relatório elaborado em 2024 pelo escritório Galdino Advogados, contratado pelo Master.

O documento acabou entregue ao Banco Central no contexto da fiscalização da instituição e avaliava a chance de recebimento dos créditos e o tempo necessário para que isso ocorresse.

O valor de R$ 14,3 bilhões pode não representar toda a exposição, dos 16 casos analisados, oito apareciam sem estimativa financeira.

Parte dos investigadores ouvidos pela Folha passou a chamá-lo de “concierge do Judiciário”.

A expressão representa a avaliação desses investigadores diante dos contatos identificados e não corresponde a uma conclusão judicial.

Negócios por trás dos precatórios

Boa parte dos interesses financeiros do Master estava ligada a uma disputa antiga entre a União e usinas de açúcar e álcool.

Nas décadas de 1980 e 1990, o antigo Instituto do Açúcar e do Álcool controlava preços do setor.

Empresas alegaram na Justiça que eram obrigadas a vender abaixo dos custos e cobraram indenizações pelos prejuízos.

Com decisões favoráveis em diferentes processos, esses direitos passaram a circular no mercado.

Investidores podiam comprar antecipadamente a expectativa de recebimento por um valor menor e assumir o risco de o pagamento ser confirmado posteriormente.

Foi nesse mercado que o Master entrou. Direitos judiciais desse tipo eram comprados por valores próximos a 20% da quantia estimada da ação.

Se a tese fosse mantida pelos tribunais e o dinheiro liberado, a diferença poderia gerar ganhos bilionários. 

A Advocacia-Geral da União estima que existam cerca de 178 processos relacionados à controvérsia.

Só os precatórios já expedidos do setor sucroalcooleiro alcançam aproximadamente R$ 47,8 bilhões.

Isso ajuda a explicar por que decisões do STF e do STJ eram economicamente relevantes para Vorcaro muito antes de o próprio banqueiro passar a depender dos tribunais para responder às acusações do Caso Master.

Kássio e R$ 8,5 bilhões

As mensagens do celular do ex-banqueiro ligam essa carteira de créditos diretamente a debates que chegaram ao STF.

Em um dos diálogos, Vorcaro recebeu a informação de que o ministro Kassio Nunes Marques havia votado em processo relacionado a usina de açúcar e álcool.

Nunes Marques rejeita a associação. Segundo o ministro, sua posição dizia respeito exclusivamente àquele caso, não criou precedente amplo para as demais ações do setor e não teve como objetivo beneficiar o banco.  Ele afirma também que nunca trocou mensagens com Vorcaro.

A discussão voltou ao primeiro plano nesta semana. Gilmar Mendes pediu que o plenário do Supremo analise a tese.

Um dos processos envolve a Destilaria Alcídia. Vorcaro chegou a se encontrar com Gilmar, em abril de 2024, para apresentar os interesses envolvidos no recurso.

O encontro não significou voto favorável. Gilmar decidiu contra a tese defendida pelo Master, assim como André Mendonça.

Kássio, Dias Toffoli e Edson Fachin ficaram do outro lado e formaram a maioria favorável à empresa.

O conjunto de processos ligado àquela discussão poderia representar aproximadamente R$ 8,5 bilhões para o Master.

O resultado dos votos, sozinho, não demonstra que tenha existido interferência de Vorcaro na atuação dos magistrados.

“Turma do KN”

Kássio também aparece em outro conjunto de mensagens. O Brasilianista mostrou nesta terça-feira (23) que o celular de Vorcaro traz referências à chamada “Turma do KN”, expressão usada em conversas sobre pessoas próximas ao ministro.

Entre os nomes estão a advogada Camilla Ramos e o marido, Newton Ramos, desembargador do TRF-1.

O vínculo profissional de Camilla com o Master também passava justamente pelos precatórios.

Seu escritório tinha um contrato que poderia render até R$ 427 milhões em honorários de êxito em 12 ações do setor sucroalcooleiro.

Outra reportagem do O Brasilianista recuperou conversas sobre o aluguel de uma mansão por R$ 1,45 milhão no Carnaval de 2025, que seria destinada a um “ministro” identificado como “KN”, além de tratativas relativas a viagens internacionais.

Kássio sustenta que nunca pediu nada a Vorcaro e não manteve conversas com o banqueiro.

Também há mensagens em que aparecem R$ 500 mil mensais associados ao advogado Kevin Marques, filho do ministro.

Kevin admite ter recebido R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em razão de serviços jurídicos, mas nega ter atuado para o Banco Master. Kássio igualmente afirma que o filho nunca foi remunerado pela instituição.

Moraes e aeronaves

No Supremo, nenhuma relação teve tanta repercussão quanto a que envolve Alexandre de Moraes, sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e o banco de Vorcaro.

Como O Brasilianista destacou, o escritório Barci de Moraes assinou um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões com o Master. 

Metadados do arquivo indicaram que uma versão da minuta foi aberta e modificada em um sistema identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

A banca não nega que Moraes tenha analisado o documento. A explicação apresentada é que o ministro foi consultado para verificar se havia algum impedimento jurídico à contratação do banco, já que Viviane era sócia-diretora do escritório.

Segundo a defesa do contrato, Moraes não relatava processos do Master e jamais julgou causa envolvendo a instituição.

Depois surgiu uma segunda proposta, estimada em R$ 50 milhões, que incluía a possibilidade de pagamento por meio de cotas de um jatinho e de um helicóptero.

O escritório afirma que essa negociação não foi concluída e que nenhum novo contrato foi assinado.

A relação voltou ao noticiário quando apareceu um vídeo de Moraes e Viviane desembarcando de um Legacy 650 ligado a uma companhia da qual Vorcaro havia sido sócio.

A explicação do escritório é que diferentes empresas de táxi aéreo eram contratadas normalmente e que Vorcaro nunca esteve presente nas viagens.

A PF encontrou ainda mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes antes da prisão do banqueiro, com questionamentos sobre investigações.

Nos registros analisados, porém, a corporação não identificou respostas do ministro.

“sempre à disposição”

No STJ, O Brasilianista revelou mensagens com o ministro Benedito Gonçalves, hoje corregedor nacional de Justiça.

Em julho de 2024, ele escreveu ao banqueiro que estava “sempre à disposição”. Em outro momento, enviou a frase “tamo junto sempre”.

Benedito também participou de um evento privado organizado por Vorcaro em Londres.

A assessoria do ministro foi procurada pelo O Brasilianista, mas não havia respondido até a publicação da reportagem.

Na mesma órbita aparece Paulo Gonet, embora a Procuradoria-Geral da República não integre o Judiciário.

O procurador-geral participou do encontro em Londres e também foi fotografado com Vorcaro em abril de 2024.

A PGR confirmou a autenticidade da imagem. Gonet sustenta que aquela foi a única vez em que esteve reunido com o ex-banqueiro.

André Mendonça

Outro ministro que recebeu Vorcaro pessoalmente foi André Mendonça. Os dois se encontraram em março de 2025.

Naquela ocasião, já estava em julgamento no Supremo um processo sobre créditos de precatórios que interessavam ao Master.

Mendonça afirma que ouviu Vorcaro apenas sobre essa disputa jurídica e que não tratou da crise do banco perante o Banco Central.

Segundo seu gabinete, o ministro orientou o banqueiro a encaminhar as teses formalmente por meio dos advogados.

A sequência posterior também precisa entrar na conta, Mendonça terminou votando contra o interesse defendido por Vorcaro naquele processo.

O nome do ministro voltou a aparecer em decisão de Flávio Dino ligada à Operação Transparência.

O documento relata articulações atribuídas ao deputado Cezinha da Madureira para aproximar um empresário do setor financeiro de um ministro do Supremo e cita encontros envolvendo negócios de Vorcaro. A investigação, porém, não tem Mendonça como alvo.

Toffoli

Dias Toffoli esteve no outro extremo dessa relação, começou como responsável pela investigação no Supremo.

A posição ficou insustentável depois que a Polícia Federal enviou ao presidente da Corte informações encontradas no celular de Vorcaro com menções ao ministro.

Ao mesmo tempo, passaram a ser examinadas operações envolvendo fundos associados à Reag e o resort Tayayá, empreendimento que teve como sócia uma empresa da família de Toffoli

O ministro nega ter relação com Vorcaro ou com o Master e afirma que não participava das decisões administrativas da empresa familiar.

Toffoli acabou deixando a relatoria. O processo passou para André Mendonça e, posteriormente, o próprio Toffoli declarou suspeição nos casos relacionados ao Master.

O filho de Fux

A proximidade de Vorcaro com pessoas ligadas aos tribunais também alcançou Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux.

O Brasilianista mostrou que os dois trocaram mensagens durante cerca de 15 meses, entre maio de 2024 e agosto de 2025.

Os registros incluem convites, tentativas de encontros em Brasília, São Paulo e Rio e conversas sobre uma eventual colaboração profissional.

Em novembro de 2024, Vorcaro escreveu que queria a ajuda do advogado em um “caso”. Depois de uma videochamada, encaminhou um documento para que Rodrigo analisasse.

O escritório Fux Advogados diz que nunca trabalhou para Daniel Vorcaro, Banco Master ou empresas vinculadas ao grupo e afirma que não houve pagamento.

Os registros divulgados também não indicam participação de Luiz Fux nessas conversas. Mais tarde, Luiz Fux votou para manter Vorcaro preso preventivamente. 

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