Um vídeo obtido pelo O Globo mostra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho ligado ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. O registro é de 22 de agosto de 2025, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
A aeronave é um Legacy 650, de prefixo PP-NLR, que também aparece nos documentos analisados pela Polícia Federal sobre a relação de Vorcaro com o escritório Barci de Moraes.
O vídeo acrescenta um registro visual a uma sequência de informações sobre viagens do casal que já vinha sendo revelada desde março.
Naquele mês, o gabinete do ministro afirmou que as informações sobre deslocamentos em aeronaves ligadas ao banqueiro eram “absolutamente falsas” e declarou que Moraes “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”.
Procurado novamente pelo O Globo após a divulgação do vídeo, o ministro manteve a versão anterior.
O jatinho
O PP-NLR ganha importância no caso porque a aeronave também foi mencionada em uma segunda negociação envolvendo uma empresa de Vorcaro e o escritório de Viviane.
Documentos encontrados pela PF apontam uma proposta de contratação de até R$ 50 milhões.
Pela minuta de um acordo de dação em pagamento, R$ 40 milhões poderiam ser quitados por meio de cotas de duas aeronaves: o Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1.
Outros R$ 10 milhões seriam destinados a despesas relacionadas aos voos.
O escritório Barci de Moraes contesta que esse segundo negócio tenha sido efetivado.
A banca afirma que apenas o contrato anterior, de aproximadamente R$ 131 milhões, foi firmado com o Banco Master e sustenta que a nova proposta não foi aceita e que “nada foi assinado”.
Mensagens recuperadas pela PF, porém, mostram que as aeronaves já eram tema de conversas entre Vorcaro e pessoas responsáveis pela operação dos aviões.
Em julho de 2025, Marcos Matta, então ligado à Prime, perguntou a Viviane se estavam gostando da utilização das cotas.
Segundo os registros, ela respondeu positivamente. Em outra conversa, no mês seguinte, uma funcionária informou Vorcaro sobre uma viagem de Viviane, e o banqueiro determinou que o atendimento a “Barci” fosse mantido.
Outros voos
O episódio de agosto não é o primeiro deslocamento atribuído ao casal em aeronaves relacionadas ao grupo.
Em março, levantamento baseado em registros da Agência Nacional de Aviação Civil, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo e de terminais executivos apontou ao menos oito voos entre maio e outubro de 2025 em aeronaves de empresas ligadas a Vorcaro ou a seu cunhado, Fabiano Zettel.
Na ocasião, o escritório de Viviane confirmou que utiliza serviços de táxi aéreo e que a Prime Aviation esteve entre as empresas contratadas.
A banca afirmou, porém, que Vorcaro e Zettel não estavam nos voos e que a contratação seguia critérios operacionais, sem vínculo pessoal com os proprietários das aeronaves.
O Brasilianista já mostrou que os voos fazem parte de um conjunto mais amplo de informações encontradas pela PF no celular de Vorcaro.
A investigação identificou mensagens, encontros e documentos relacionados a Moraes, além dos contratos do Master com o escritório de sua esposa.
Em uma das minutas do contrato de R$ 131 milhões, os metadados indicaram alterações feitas por um usuário registrado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O escritório confirmou que o magistrado foi consultado para verificar possíveis impedimentos à contratação.
Caso suspenso
As informações sobre os voos chegam em meio à disputa no próprio STF sobre o destino do material reunido pela Polícia Federal.
Na terça-feira (15), o plenário iniciou a análise da validade do relatório que reúne mensagens e registros envolvendo Moraes e Vorcaro.
A sessão terminou sem decisão depois de Flávio Dino pedir vista, o que suspendeu a discussão antes de o Supremo decidir se há base para uma investigação formal contra Moraes.
Moraes nega ter favorecido Vorcaro ou o Banco Master e sustenta que nunca julgou causas da instituição no Supremo.
Também questiona a legalidade das diligências conduzidas sob determinação de André Mendonça.
O novo vídeo não resolve essas discussões jurídicas nem, por si só, demonstra favorecimento ao banqueiro.

