A Polícia Federal (PF) indiciou nesta quarta-feira (28) o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, e outras 13 pessoas por suspeitas de participação em um esquema de fraudes bilionárias contra o sistema financeiro.
O relatório parcial, com mais de 700 páginas, aponta que os dois empresários integravam o núcleo estratégico de uma organização criminosa que teria utilizado carteiras de crédito para inflar o patrimônio do Master e viabilizar a negociação de sua compra pelo banco público do Distrito Federal.
Vorcaro é apontado pelos investigadores como líder do grupo. Apesar dos indiciamentos, a apuração ainda não foi concluída.
A PF pediu mais 60 dias para finalizar perícias e apresentar um relatório complementar ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Comando das operações
O relatório atribui a Vorcaro o controle das decisões relacionadas à produção, aquisição e transferência de carteiras de crédito utilizadas pelo Banco Master para captar recursos.
Segundo os investigadores, ele coordenava tanto os integrantes da instituição quanto as estruturas empresariais associadas às operações suspeitas.
A PF aponta que Paulo Henrique Costa participava do núcleo responsável por articular a relação entre as instituições.
O executivo presidiu o BRB durante as negociações para adquirir o Master, anunciadas em 2025 e posteriormente barradas pelo Banco Central.
Os investigadores atribuem a Vorcaro os crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, prestação de informação falsa, fraude à fiscalização, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. A Polícia Federal também identificou indícios de possíveis crimes de corrupção ativa e passiva relacionados à transferência de imóveis entre os envolvidos.
Carteiras sem lastro
O banco público realizou operações financeiras de grande valor com a instituição privada, incluindo a aquisição de carteiras de crédito cuja existência, documentação e valor passaram a ser questionados.
Uma carteira de crédito reúne direitos de receber pagamentos de empréstimos ou outros contratos.
Quando um banco compra esses direitos, espera receber os valores dos devedores nas condições previstas.
Se os contratos não possuem documentação adequada, apresentam valores artificialmente elevados ou não correspondem a operações reais, a instituição compradora pode assumir perdas significativas.
No caso investigado, a suspeita é de que esse mecanismo tenha permitido apresentar ativos com valores incompatíveis com sua realidade econômica.
A Polícia Federal procura estabelecer quem estruturou as operações, quem autorizou as transferências e quais dirigentes tinham conhecimento das irregularidades.
O problema também alcança a fiscalização bancária. A qualidade e a composição das carteiras influenciam os balanços, os indicadores patrimoniais e a avaliação da saúde financeira de uma instituição.
O Banco Central barrou a aquisição do Master pelo BRB antes de decretar a liquidação da instituição privada, em novembro de 2025.
Documentos fabricados
Uma das principais frentes da investigação envolve a suspeita de produção artificial de documentos para justificar operações de crédito.
Relatórios anteriores da PF, apontaram a utilização de sistemas automatizados para gerar Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) e procurações associadas a contratos de empréstimos consignados.
Segundo a apuração, funcionários ligados ao Master teriam utilizado CPFs existentes em bases antigas para criar documentos que simulavam operações financeiras.
A investigação identificou a geração automatizada de aproximadamente 2.700 procurações, incluindo documentos supostamente utilizados para autorizar a assinatura de contratos em nome de clientes.
O material teria sido empregado para conferir aparência de legitimidade a créditos negociados com o BRB.
Os investigadores também identificaram a participação da empresa Tirreno, apontada em documentos como originadora de parte das operações.
Relatórios policiais indicaram que a diretoria do banco público aprovou aquisições em procedimentos acelerados, apesar de alertas técnicos e jurídicos.
A documentação reunida pela PF deverá ser confrontada com os controles internos, as autorizações e as responsabilidades individuais dos dirigentes.
Propina investigada
A relação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa também é examinada sob a perspectiva de possíveis vantagens indevidas.
A Polícia Federal apontou indícios de repasses de aproximadamente R$ 146,5 milhões ao ex-presidente do BRB, por meio de transações envolvendo imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília.
A suspeita é de que essas operações tenham funcionado como contrapartida pela atuação do executivo nas negociações entre os bancos.
Outros indiciados
Além de Vorcaro e Costa, a Polícia Federal incluiu Augusto Lima, ex-sócio do Master, entre os principais investigados.
Ele participou da estrutura empresarial ligada à instituição e também foi alvo das diligências da Operação Compliance Zero.
O relatório identifica outros 12 indiciados, entre eles Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, Alberto Félix de Oliveira Neto, Luiz Antônio Bull, Dário Oswaldo Garcia Júnior, Allan da Silva Machado, Daniel Lopes Monteiro, André Felipe de Oliveira Seixas Maia, Henrique Souza e Silva Peretto, Cristiane Maria Lima Bukowitz, Luana de Andrade Ribeiro, Diogo Ilário de Araújo Oliveira e José Maria Correa Dias Junior.
A inclusão de todos no mesmo procedimento não significa que cada um tenha recebido as mesmas imputações. A responsabilização individual deverá considerar as funções desempenhadas nas operações, os documentos examinados e os elementos de participação atribuídos pelos investigadores.
Dinheiro bloqueado
A Operação Compliance Zero começou em novembro de 2025 e passou por diferentes fases ao longo de 2026.
Em março, Vorcaro foi novamente preso preventivamente por determinação do ministro André Mendonça, após a PF apontar risco de interferência nas investigações.
Em maio, a operação havia resultado em 21 ordens de prisão temporária ou preventiva, 116 mandados de busca e apreensão e determinações judiciais de bloqueio e sequestro de bens próximas de R$ 27,7 bilhões.
A apuração também alcançou suspeitas de atuação de servidores públicos, inclusive agentes ligados à fiscalização bancária.
Na decisão que autorizou prisões em março, o STF mencionou indícios de interlocução de Vorcaro com funcionários do Banco Central responsáveis pela supervisão financeira.
Fiscalização comprometida
Uma das investigações paralelas identificou possíveis pagamentos ao ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, Belline Santana.
Documentos da PF, mensagens e registros financeiros indicaram uma cobrança de R$ 500 mil ao grupo de Vorcaro.
A suspeita envolve a utilização de empresas intermediárias para dissimular repasses e possíveis acessos indevidos a informações de órgãos de investigação.
Santana negou irregularidades. Vorcaro também rejeitou acusações de corrupção.
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