Em depoimento prestado à Polícia Federal no âmbito do inquérito que investiga atos ilícitos cometidos por um grupo comandado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (conhecido como "Sicário"), o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, negou ter tentado fugir do Brasil e ter ordenado agressões ou atos de violência contra desafetos.
Vorcaro e seu pai, o empresário Henrique Vorcaro, depuseram por videoconferência — Daniel falou do 19º Batalhão da Polícia Militar ("Papudinha"), em Brasília, e Henrique do complexo prisional Nelson Hungria, em Contagem (MG).
O banqueiro afirmou aos investigadores que seu contato se restringia a Sicário e negou ter tido acesso indevido a investigações sigilosas. Após ter duas propostas de delação premiada rejeitadas, ele tem se limitado a negar o cometimento de crimes.
Os advogados Sergio Leonardo, Daniel Bialski e Engels Muniz, que defendem Vorcaro, classificaram as mensagens interceptadas como meros "desabafos" proferidos em "momentos de indignação" e sustentou que o investigado jamais praticou, determinou ou se envolveu em violência, intimidação, perseguição ou ameaça.
Os advogados enfatizaram que, após oito meses de investigações, não há qualquer vítima reconhecida nos autos e ressaltaram a inexistência de plano de fuga.
Segundo a nota oficial, a tentativa de embarque em uma aeronave privada antes de sua prisão em novembro de 2025 decorreu de uma viagem previamente comunicada às autoridades, com reservas antecipadas de hotel e salas de reunião, além de plano de voo registrado, sendo a ordem de prisão expedida apenas às 15h29 do dia 17 de novembro de 2025.
A defesa também alegou que a ciência sobre os procedimentos decorria do acompanhamento legítimo de advogados, assessores e da imprensa, criticando o vazamento de mensagens protegidas por sigilo.
No entanto, relatórios da Polícia Federal trouxeram à tona diversas conversas extraídas do celular do banqueiro que contrapõem suas declarações. Em mensagens interceptadas, Vorcaro orientou Sicário a agredir o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, simulação de um assalto: "Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto". 7
Em outro trecho, manifestou o desejo de agredir uma empregada da atriz Monique Alfradique, afirmando: "Empregada (da) Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda". Além disso, funcionários de seu barco, como o ex-comandante e o ex-chef de cozinha, prestaram depoimento à PF relatando terem sido abordados por intermediários estranhos na marina.
A investigação aponta ainda ações do grupo contra outros nomes. Em agosto de 2024, após Mourão sugerir uma "medida mais drástica" contra o fundador da Esh Capital, Vladimir Joelsas Timerman, Vorcaro complementou: "E contra o advogado tb", adicionando no dia seguinte que teria de mandar o grupo para São Paulo para "matar esses negócios".
Em relação a publicações ligadas a um pedido de falência do banco envolvendo Daniel Marinelli Meira, Vorcaro concordou em mandar o grupo "ir pra cima" dele.
Em outro caso referente a notícias sobre a instituição em outubro de 2024, ordenou "derrubar" e "mandar turma PF atrás", opinando que "polícia às vezes não vai intimidar tanto" e concordando em mandar dar um "sacode".
As investigações detalham que a estrutura também era acionada para coletar informações sigilosas sobre procedimentos em trâmite na PF, no Ministério Público Federal e na Polícia Civil de SP.
A Turma e Os Meninos
As apurações da Operação Compliance Zero revelaram que a atuação clandestina ligada ao Banco Master era dividida em mais de um núcleo operacional, financiados e mobilizados para defender os interesses de Daniel Vorcaro e de seu pai, Henrique Vorcaro.
O primeiro grupo, denominado "A Turma", funcionava como uma estrutura privada de vigilância, coerção e intimidação. Comandada por Daniel Vorcaro e custeada em cerca de R$ 1 milhão por mês — com o apoio de Fabiano Campos Zettel na intermediação e operacionalização financeira —, "A Turma" operava monitorando presencialmente desafetos, concorrentes, jornalistas e autoridades.
O grupo invadia sigilos telefônicos e bancários, elaborava dossiês privados e acessava ilegalmente bancos de dados governamentais (inclusive da PF e do MPF) utilizando credenciais de terceiros.
A coordenação operacional ficava a cargo de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário", que se suicidou na Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais após ser preso em março de 2026.
Além do monitoramento direto, "A Turma" mantinha conexões com o próprio Banco Central (Bacen). Servidores como Paulo Sérgio (ex-Chefe-Adjunto de Supervisão Bancária) e Belline Santana atuavam como consultores particulares do banqueiro, orientando estratégias e revisando minutas de ofícios.
Para remunerar essas assessorias e cobrir repasses, foram firmados contratos simulados de prestação de serviços por meio de empresas de consultoria, como a Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda.
O esquema financeiro por trás da organização envolvia a captação de recursos via emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade acima do mercado, direcionados para ativos de baixa liquidez e títulos podres.
Estima-se um impacto de R$ 50 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O arranjo envolveu a venda de carteiras de crédito infladas ao Banco de Brasília (BRB), papéis sem lastro vindos da Tirreno Consultoria (R$ 6,7 bilhões) e notas comerciais de empresas de fachada como Clínica Mais Médicos e Hospital São José.
Outras entidades, como a Cartos (que nega ter negociado carteiras com a Tirreno ou Master) e associações como Asteba e Asseba, também foram citadas no ecossistema de créditos do produto Credcesta. O ex-CEO Augusto Lima atuava como ponte do grupo com a cúpula política e fundos de pensão estaduais, como o Rioprevidência — cujo ex-presidente Deivis Marcon Antunes foi preso em fevereiro de 2026.
Após descobrirem "A Turma", as investigações da PF identificaram um segundo núcleo paralelo: "Os Meninos". Trata-se de uma célula de inteligência cibernética e guerra digital formada por hackers, também gerenciada por Sicário, encarregada de executar ataques virtuais e monitoramentos digitais clandestinos a mando dos Vorcaro.
A liderança técnica de "Os Meninos" era exercida por David Henrique Alves, proprietário da empresa Bipe Software Brasil Ltda., repassando o pagamento mensal de R$ 75 mil oriundo dos empresários. O grupo contava com a seguinte divisão de papéis:
- Victor Lima Sedlmaier: prestava os serviços técnicos digitais;
- Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos ("Rodriguinho"): responsável por adquirir domínios na internet e manter a infraestrutura de TI das operações;
- Katherine Venâncio Telles: encarregada do apoio logístico e de ocultar provas e equipamentos eletrônicos.
Com o desencadeamento da primeira fase da Operação Compliance Zero em novembro de 2025, "Os Meninos" montaram uma estrutura móvel para evitar a apreensão de laptops criptografados, servidores e tecnologias de ponta.
Para despistar as autoridades federais, o grupo mudava constantemente de endereço e tentava esconder Alves. Toda essa logística de ocultação e fuga foi financiada diretamente por Henrique Vorcaro logo após a primeira prisão de seu filho Daniel.
R$ 20 bilhões
Segundo reportagem da revista Piauí, áudios e gravações telefônicas obtidas pelas investigações revelam declarações de Fabiano Zettel, cunhado e apontado operador financeiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Nas conversas mantidas com sua amante, Zettel afirma expressamente que o ex-controlador do Banco Master teria enviado e escondido cerca de R$ 20 bilhões no exterior antes da liquidação da instituição financeira e das ações policiais que atingiram o grupo.
O operador detalhou a situação de paralisia financeira do cunhado, enfatizando que, apesar da quantia bilionária mantida fora do país, Vorcaro estava sem acesso prático aos recursos.
Nas gravações, Zettel desabafa que o empresário "não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar", pontuando que qualquer tentativa de movimentar ou reaver os valores resultaria em nova prisão imediata, tornando inútil a tentativa de blindagem patrimonial fora do Brasil.
As declarações de Zettel vieram à tona no âmbito das investigações da Polícia Federal sobre a ocultação e o desvio de patrimônio após a intervenção no Banco Master.
O episódio se insere em um contexto mais amplo de apurações em que tanto Vorcaro quanto Zettel acabaram detidos, enquanto o ex-banqueiro tenta negociar acordos de delação premiada sem ter revelado, até então, o caminho exato do dinheiro remetido ao exterior.
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