A guerra entre Estados Unidos e Irã revelou uma mudança importante no mercado mundial de energia.
A China, historicamente tratada como vulnerável por depender de petróleo importado, passou a exercer uma influência que antes estava concentrada principalmente nos grandes produtores.
Ao mesmo tempo, a estratégia chinesa que ajudou a impedir uma disparada ainda maior do petróleo começa a encontrar limites.
Estoques globais diminuíram, rotas alternativas do Oriente Médio passaram a ser atacadas e o barril segue acima de US$ 100 (R$ 515,24).
O resultado é uma combinação de energia cara, inflação persistente, juros maiores e crescimento mais fraco em diferentes países.
As duas consequências foram detalhadas nesta quinta-feira (17) pelo The New York Times.
Uma reportagem mostra como a China transformou estoques, capacidade de refino, eletrificação e controle das exportações de combustíveis em instrumentos de poder.
A outra aponta que os mecanismos utilizados desde o início da guerra para amortecer o choque energético estão se esgotando.
A ligação entre os dois movimentos é direta. A China ajudou a segurar os preços porque comprou menos petróleo.
Agora, o mundo depende cada vez mais de quanto Pequim continuará disposta e será capaz de reduzir suas compras.
China segura preços
Nos primeiros seis meses da guerra, as importações chinesas de petróleo caíram 23% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados alfandegários citados pelo jornal americano.
Para qualquer outro grande importador, uma redução dessa magnitude poderia significar falta de combustível, interrupção de fábricas e necessidade imediata de disputar cargas no mercado internacional.
A China conseguiu fazer diferente. Pequim vinha acumulando grandes reservas de petróleo antes da guerra, construiu capacidade de refino superior à demanda doméstica e desenvolveu alternativas que diminuíram sua dependência direta dos combustíveis fósseis.
O Brasilianista já havia mostrado em março que a estratégia chinesa incluía mais de 1,2 bilhão de barris armazenados, suficientes naquele momento para vários meses de consumo, além da expansão da geração renovável e de outras fontes energéticas.
Quando o Estreito de Ormuz praticamente deixou de funcionar normalmente, a China não precisou disputar cada barril disponível. Ela simplesmente comprou menos.
Poder inesperado
Essa redução ajudou o restante do planeta. David Goldwyn, ex-diplomata americano e ex-integrante do Departamento de Energia dos Estados Unidos, atribuiu à queda das compras chinesas uma parcela central da contenção dos preços do petróleo desde o início do conflito.
Cálculos do Goldman Sachs citados pelo New York Times estimam que, no fim de agosto, o petróleo estava aproximadamente US$ 10 (R$ 51,54) por barril mais barato do que estaria caso a China tivesse continuado importando no ritmo anterior à guerra.
Esse é um tipo diferente de poder energético. Arábia Saudita e outros integrantes da Opep tradicionalmente influenciam preços aumentando ou reduzindo oferta.
A China começa a mostrar que, pelo tamanho de seu mercado, consegue produzir um efeito parecido alterando a demanda.
Erica Downs, pesquisadora do Center on Global Energy Policy da Universidade Columbia, descreveu a capacidade revelada por Pequim como algo que o mercado não imaginava que o país possuía.
O Brasilianista já havia abordado essa mudança em maio, quando mostrou que a China começava a ser vista como uma espécie de força reguladora dos preços justamente porque conseguia decidir quando entrar ou sair do mercado com volumes enormes.
Tanques chineses
A vantagem foi construída durante anos. A China tornou-se importadora líquida de petróleo em 1993 e passou a ampliar suas reservas estratégicas no início dos anos 2000.
Xi Jinping manteve essa política e supervisionou a expansão dos estoques. Segundo estimativas citadas pelo jornal americano, as reservas chinesas representam atualmente aproximadamente um terço dos estoques conhecidos de petróleo no mundo.
Quando a guerra começou, portanto, Pequim possuía uma margem que outros países não tinham.
Em vez de continuar acumulando, passou a utilizar parte desses estoques. Dados de julho já mostravam retiradas estimadas entre 25 milhões e 28 milhões de barris dos depósitos chineses naquele mês.
Até meados de agosto, outros aproximadamente 26 milhões teriam sido consumidos, segundo estimativas da Kpler e da Vortexa citadas pela Reuters.
Isso também significa que a estratégia possui prazo. Estoques não são infinitos.
Menos petróleo
A China também conseguiu reduzir a necessidade de petróleo de maneira estrutural.
Veículos elétricos já correspondem a aproximadamente 14% dos automóveis de passageiros em circulação no país, segundo os dados citados pelo New York Times.
A Agência Internacional de Energia calcula que a eletrificação fez a China consumir cerca de 1,5 milhão de barris por dia a menos no segundo trimestre do que utilizaria caso sua frota dependesse exclusivamente de gasolina e diesel.
O país possui ainda a maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo e pode utilizar carvão em processos petroquímicos nos quais outras economias dependem mais diretamente do petróleo.
A Sinopec, maior refinadora chinesa, já considera provável que o consumo nacional tenha atingido seu pico em 2025, antes do previsto anteriormente.
Combustível político
A guerra mostrou que Pequim também está disposta a controlar aquilo que vende.
Nos primeiros meses do conflito, a China restringiu severamente exportações de gasolina, diesel e combustível de aviação para garantir o próprio abastecimento.
Como o país ultrapassou os Estados Unidos e se tornou um dos principais centros mundiais de refino, a decisão foi sentida por outras economias asiáticas.
Parte do pouco combustível liberado durante o período mais crítico foi direcionada principalmente a países com relações próximas de Pequim, como Vietnã e Tailândia.
Austrália e Filipinas, que mantêm disputas políticas e territoriais com a China, estiveram entre os mercados mais afetados pela redução.
A comparação feita por analistas é com terras raras. A China domina etapas importantes dessas cadeias e já demonstrou disposição para restringir exportações durante confrontos comerciais.
Efeito geopolítico
Durante décadas, estrategistas americanos consideraram a dependência chinesa de petróleo marítimo uma vulnerabilidade em uma eventual crise no Pacífico.
Grande parte dos carregamentos precisa atravessar estreitos e rotas que poderiam ser interrompidos em um conflito.
A experiência com o Irã demonstrou que a China consegue suportar uma redução abrupta nas importações por mais tempo do que muitos analistas imaginavam.
Ex-integrantes do governo americano ouvidos pelo New York Times avaliam que essa redução da vulnerabilidade energética pode entrar nos cálculos estratégicos de Pequim, inclusive em cenários de tensão envolvendo Taiwan.
Arábia pede ajuda
Outro sinal da nova posição apareceu justamente nesta quinta-feira. A Arábia Saudita pediu ajuda à China depois do avanço dos houthis, aliados do Irã, na região do Mar Vermelho e de Bab el-Mandeb.
Pequim então pediu reservadamente a Teerã que utilizasse sua influência sobre o grupo para conter uma nova expansão dos ataques, segundo três fontes iranianas ouvidas pela Reuters.
A preocupação chinesa é econômica. Hormuz já está praticamente bloqueado para o tráfego comercial regular.
Se Bab el-Mandeb também sofrer interrupções maiores, dois dos corredores mais importantes para abastecer a Ásia estarão simultaneamente comprometidos.
Na quarta-feira, apenas três navios comerciais atravessaram o Estreito de Ormuz, contra 12 no dia anterior e média de 17 nos dez dias anteriores.
Mundo sem estoque
A economia mundial resistiu melhor do que se previa aos primeiros seis meses da guerra.
China reduziu compras. Estados Unidos, Japão e países europeus liberaram reservas.
Produtores encontraram trajetos alternativos. Consumidores diminuíram demanda. Mas esses amortecedores estão enfraquecendo.
Os estoques dos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico caíram aos menores níveis em décadas, segundo dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos citados pelo jornal.
A Arábia Saudita também perdeu temporariamente uma das principais alternativas a Ormuz depois de ataques atingirem seu oleoduto Leste-Oeste.
Foi essa combinação que levou o petróleo para perto de US$ 110 (R$ 566,69) por barril nesta semana. Ainda assim, o preço permanece muito acima do registrado antes da guerra.
Diesel aperta
O problema não está apenas no petróleo bruto. A capacidade mundial de transformar óleo em gasolina, diesel e combustível de aviação também está pressionada.
Refinarias do Oriente Médio operam sob impacto da guerra. Na Rússia, ataques ucranianos retiraram parte importante da capacidade de processamento.
Moscou prorrogou restrições às exportações de diesel para preservar seu mercado doméstico.
Executivos da Shell e da Equinor alertaram nesta semana que os mecanismos utilizados para absorver choques de oferta estão perdendo eficácia.
Desde fevereiro, o mercado teria perdido aproximadamente 1,6 bilhão de barris de petróleo e condensados, além de 36 milhões de toneladas métricas de gás natural liquefeito.
O diesel americano chegou a níveis recordes. E, diferentemente da gasolina utilizada diretamente pelos consumidores, o diesel entra no custo de caminhões, máquinas agrícolas, construção, mineração e transporte de mercadorias.
Inflação retorna
O Banco Asiático de Desenvolvimento projeta inflação de 5,2% na Ásia em 2026, contra 3% no ano passado.
Na avaliação de Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics ouvido pelo New York Times, inflação nos Estados Unidos, Reino Unido e Europa pode permanecer entre 3,5% e 4% até pelo menos meados de 2027.
A consequência apareceu nesta semana. O Federal Reserve realizou sua primeira alta de juros em três anos, elevando a taxa americana em 0,25 ponto, para o intervalo de 3,75% a 4%.
Dezesseis dos 18 integrantes do Fed projetaram pelo menos mais um aumento até o fim do ano.
O problema para os bancos centrais é conhecido: elevar juros não produz petróleo.
Taxas maiores podem conter consumo e impedir que o aumento da energia contamine os demais preços, mas não reabrem Ormuz nem recuperam refinarias destruídas.
Estagflação volta
É daí que reaparece uma palavra que economistas tentavam deixar para trás: estagflação. A combinação envolve inflação alta com crescimento fraco.
A Reuters apontou nesta quinta que petróleo acima de US$ 100 (R$ 515,24), combustíveis mais caros e juros globais maiores estão aproximando várias economias desse cenário.
Até agora, crescimento e investimentos, principalmente os relacionados à inteligência artificial, ajudaram a sustentar a atividade. Mas crédito, hipotecas e consumo começam a sentir a pressão.
A Alemanha já flerta com recessão. Japão e Indonésia gastaram bilhões em subsídios para impedir que toda a alta energética chegasse ao consumidor. Bangladesh e Paquistão enfrentam dificuldades de abastecimento e interrupções de energia.
A guerra também acrescentou cerca de US$ 330 bilhões (R$ 1,70 trilhão) à conta mundial de importação de combustíveis fósseis, segundo levantamento citado pela Associated Press. União Europeia, China e Índia estão entre os maiores atingidos.
Brasil exposto
O Brasil possui uma situação diferente da de grandes importadores de petróleo porque é produtor e exportador relevante.
A guerra chegou inclusive a aumentar as oportunidades para o petróleo brasileiro.
O Brasilianista mostrou que, no primeiro trimestre, as vendas de petróleo bruto brasileiro para a China chegaram a US$ 7,2 bilhões (cerca de R$ 37,1 bilhões), contra US$ 3,7 bilhões (aproximadamente R$ 19,1 bilhões) no mesmo período de 2025.
Após o início do conflito, a China chegou a responder por 65% do volume exportado pelo Brasil.
Mas a vantagem exportadora não elimina os problemas domésticos. Petróleo e derivados mais caros pressionam combustíveis e inflação e podem limitar a redução dos juros.
Nesta quarta-feira, o Banco Central realizou o quinto corte consecutivo da Selic, para 13,75%, mas elevou sua projeção de inflação de 2026 para 5,2%.
O próprio ambiente energético internacional permanece entre os riscos considerados pelas autoridades monetárias.
Nesta quinta-feira, a Petrobras anunciou alta média de R$ 1 por litro no diesel vendido às distribuidoras, aumento que será compensado por subsídio federal de igual valor dentro do novo programa do governo.
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