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Geopolítica

China expõe como o poder político se sobrepõe ao econômico

Da crise da Evergrande às restrições sobre Microsoft, decisões de Pequim alteraram setores inteiros da economia

China expõe como o poder político se sobrepõe ao econômico

A prisão perpétua de Hui Ka Yan, fundador da Evergrande, mostra até onde o poder político chinês pode avançar sobre grandes grupos empresariais.

O empresário foi condenado por acusações que incluem fraude financeira e captação ilegal de recursos, enquanto a incorporadora e sua principal unidade imobiliária receberam multas bilionárias.

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O caso acontece depois do colapso de uma empresa que chegou a ser uma das maiores incorporadoras do país e acumulou mais de US$ 300 bilhões (R$ 1,55 trilhão) em passivos. A trajetória da Evergrande também mostra outro aspecto do modelo chinês.

A expansão do mercado imobiliário ocorreu durante anos com forte participação de crédito e investimentos, mas Pequim passou a restringir o endividamento das incorporadoras.

As novas regras contribuíram para aumentar a pressão financeira sobre empresas altamente alavancadas, e a Evergrande acabou entrando em default em 2021 e em liquidação em 2024.

Ant Group teve IPO interrompido antes da estreia

Um dos exemplos mais conhecidos aconteceu em 2020, quando a oferta pública inicial da Ant Group, braço financeiro do Alibaba, foi suspensa poucos dias antes da estreia nas bolsas de Xangai e Hong Kong.

A operação poderia movimentar cerca de US$ 34 bilhões (R$ 176 bilhões) e seria uma das maiores aberturas de capital do mundo.

Como informou a Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China, a suspensão ocorreu depois de mudanças no ambiente regulatório das empresas de tecnologia financeira e de reuniões dos reguladores com os executivos da companhia.

A autoridade sustentou que as novas regras poderiam alterar de maneira relevante o modelo de negócios e a estrutura de resultados da Ant. O episódio teve consequências muito maiores do que o adiamento de uma operação financeira.

A Ant precisou reorganizar suas atividades, especialmente aquelas relacionadas a crédito digital, enquanto o governo chinês ampliou a fiscalização sobre grandes plataformas de tecnologia.

O caso se tornou um dos principais símbolos da mudança de postura de Pequim diante das empresas privadas que haviam alcançado enorme influência econômica.

Didi enfrentou restrições após abertura de capital

Outro caso ocorreu com a Didi Chuxing, gigante chinesa de transporte por aplicativo. Poucos dias depois de sua estreia na Bolsa de Nova York, em junho de 2021, a empresa entrou sob investigação de segurança cibernética na China.

Em julho daquele ano, autoridades determinaram a retirada do aplicativo das lojas chinesas e suspenderam novos cadastros durante a análise. A justificativa oficial estava relacionada à segurança de dados e ao cumprimento das leis chinesas.

O episódio, entretanto, também evidenciou o risco enfrentado por companhias chinesas que acessam mercados internacionais de capitais enquanto administram grandes volumes de dados dentro do país.

O caso Didi demonstrou que uma empresa pode crescer internacionalmente e, ainda assim, permanecer submetida a decisões regulatórias tomadas em Pequim.

Educação privada também sofreu uma mudança radical

A interferência não ficou limitada às grandes empresas de tecnologia. Em julho de 2021, o governo chinês determinou mudanças profundas no setor de educação privada voltada ao ensino básico.

As novas regras proibiram a criação de determinadas empresas de reforço escolar e determinaram que companhias existentes se transformassem em organizações sem fins lucrativos.

Também houve restrições para aulas durante fins de semana e feriados e para investimentos estrangeiros no segmento. A medida atingiu uma indústria que havia atraído bilhões de dólares em investimentos e reunia empresas listadas em bolsas.

Em poucos meses, um setor que funcionava como um mercado privado altamente valorizado passou a operar sob regras completamente diferentes. O objetivo declarado era reduzir a pressão financeira sobre famílias e estudantes.

A decisão mostrou como uma determinação política pode modificar rapidamente as perspectivas de um mercado inteiro, afetando empresas, investidores, trabalhadores e famílias.

Facebook ficou fora de um dos maiores mercados

O Facebook representa um exemplo ainda mais direto da influência política sobre a atividade econômica. A rede social foi bloqueada na China em 2009, em meio ao endurecimento do controle estatal sobre plataformas estrangeiras e conteúdos publicados na internet.

A restrição impediu que a empresa desenvolvesse no país uma operação semelhante à existente em outros grandes mercados. Ao mesmo tempo, plataformas chinesas ocuparam o espaço deixado pelas companhias estrangeiras.

O caso ajuda a explicar por que o mercado chinês não pode ser analisado apenas pelo tamanho de sua população ou pelo potencial de consumo.

Para empresas estrangeiras, acesso ao consumidor depende também de regras políticas, tecnológicas e de controle de conteúdo estabelecidas pelo Estado.

Microsoft encontrou espaço, mas sob condições chinesas

A Microsoft seguiu outro caminho. A empresa manteve operações na China durante décadas e chegou a adaptar produtos às exigências do governo.

Entre as iniciativas esteve uma versão do Windows desenvolvida especificamente para órgãos governamentais chineses. Nos últimos anos, porém, a companhia reduziu sua presença física no país.

Documentos corporativos mostram o fechamento de pelo menos 15 filiais e joint ventures, enquanto regras de compras governamentais passaram a favorecer soluções nacionais em determinadas áreas.

Cinco dos seis guias de compras de sistemas de informática do governo chinês analisados entre dezembro de 2023 e maio de 2026 não recomendavam produtos da Microsoft.

A empresa ainda mantém negócios ligados à nuvem e à inteligência artificial, especialmente com companhias chinesas que atuam internacionalmente, mas enfrenta um ambiente no qual a preferência por tecnologias nacionais ganhou peso.

Meta enfrenta barreiras sobre inteligência artificial

A disputa também chegou à inteligência artificial. Em 2026, autoridades chinesas endureceram controles sobre circulação de pessoas, investimentos, dados e tecnologias consideradas estratégicas.

A mudança ocorreu depois da tentativa da Meta de adquirir a Manus, empresa chinesa de inteligência artificial que havia transferido sua sede para Cingapura.

O caso ganhou uma dimensão adicional porque autoridades chinesas já haviam restringido a saída de executivos da Manus e posteriormente determinado o desfazimento da aquisição.

As novas regras ampliaram a possibilidade de controle sobre pessoas e operações relacionadas a tecnologias consideradas sensíveis.

A mudança acompanha uma estratégia econômica mais ampla de Pequim. O país passou a tratar inteligência artificial, semicondutores, terras raras e outras tecnologias como elementos ligados à segurança nacional. O novo planejamento econômico chinês também busca reduzir dependências externas e fortalecer cadeias produtivas domésticas.

O Estado define setores considerados estratégicos

Os casos não são isolados. Desde 1978, quando Deng Xiaoping iniciou o processo de “reforma e abertura”, a China passou a combinar mecanismos de mercado com planejamento estatal, mantendo o controle político sobre setores considerados estratégicos.

Nas últimas décadas, o governo utilizou planos quinquenais para direcionar recursos a áreas consideradas prioritárias, como energia renovável, veículos elétricos, tecnologia e manufatura avançada. O modelo produziu empresas privadas de enorme escala, mas também estabeleceu limites para sua autonomia.

Quando determinado setor passa a ser considerado estratégico, as decisões empresariais podem ficar subordinadas a objetivos definidos pelo Estado, principalmente quando envolvem dados, tecnologia, segurança nacional ou estabilidade financeira.

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