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Geopolítica

Coreia do Norte volta a ameaçar Japão em meio a tensão militar e feridas do passado

Teste japonês de míssil Tomahawk colocou em evidência uma mudança na estratégia militar de Tóquio

Coreia do Norte volta a ameaçar Japão em meio a tensão militar e feridas do passado

A Coreia do Norte aumentou o tom das ameaças contra o Japão depois que Tóquio realizou, pela primeira vez, um teste de lançamento de um míssil de cruzeiro Tomahawk.

O armamento foi disparado pelo destróier JS Chokai, no Oceano Pacífico, em 29 de julho, em uma demonstração da nova capacidade japonesa de atingir alvos a longa distância.

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A reação veio de Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-un. Ela afirmou que Pyongyang adotará “opções militares adicionais” diante do que considera uma transformação do Japão em uma potência militar mais ofensiva. A declaração também responsabilizou os Estados Unidos pelo fortalecimento das capacidades japonesas.

O episódio, porém, não explica sozinho a deterioração da relação. A tensão entre Coreia do Norte e Japão reúne três elementos que se sobrepõem, o passado da ocupação japonesa da Península Coreana, a ameaça nuclear e missilística de Pyongyang e a transformação da política de defesa de Tóquio.

Teste do Tomahawk mudou o cálculo de Pyongyang

O lançamento realizado pelo Japão representa uma mudança importante porque envolve uma arma desenvolvida para atingir alvos terrestres a grandes distâncias.

O governo japonês afirma que os Tomahawk fazem parte de sua capacidade de defesa de longo alcance e que essas armas seriam utilizadas somente em situações de ataque contra o país.

O Ministério da Defesa japonês confirmou que o teste verificou a capacidade do JS Chokai de realizar o lançamento em condições operacionais. A embarcação passou por modificações e sua tripulação recebeu treinamento nos Estados Unidos antes da operação no Pacífico.

Tóquio também possui uma encomenda de aproximadamente 400 Tomahawk aos Estados Unidos, com entregas previstas até março de 2028. O armamento se tornou uma das peças centrais da estratégia japonesa para desenvolver capacidade de ataque de longo alcance.

Para o professor e advogado de Direito Internacional, Constitucional e Direito Civil Luiz Philipe Ferreira de Oliveira, o movimento japonês precisa ser entendido dentro de uma transformação mais ampla da política de defesa do país.

“O estopim para a recente escalada de tensões, intensificada entre meados de 2025 e agosto de 2026, é a rápida militarização do Japão”, afirma.

Segundo o especialista, o governo da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi passou a adotar uma postura mais assertiva e se afastou gradualmente da interpretação exclusivamente defensiva que marcou o Japão no pós-guerra.

“Para Pyongyang, os movimentos japoneses são vistos como uma ameaça existencial e pretextos perfeitos para acelerar seu próprio programa nuclear”, explica.

Essa percepção ajuda a explicar por que o Tomahawk provocou uma reação tão dura. Para a Coreia do Norte, não se trata apenas da compra de uma nova arma, mas da possibilidade de o Japão adquirir meios para atingir instalações militares norte-coreanas a grandes distâncias.

Japão mudou sua política de defesa

Tropas japonesas em 1937 (Foto: creative commons)

A transformação japonesa ocorre há anos. Depois da Segunda Guerra Mundial, o país manteve uma política de defesa limitada pela Constituição pacifista e estruturou suas Forças de Autodefesa principalmente para proteger o território nacional.

Esse modelo começou a mudar diante do crescimento militar da China e dos testes de mísseis da Coreia do Norte. A estratégia japonesa passou a incorporar armas capazes de atingir alvos distantes, além de novos investimentos em tecnologia e defesa.

O próprio governo japonês afirma que considera o ambiente de segurança atual o mais severo e complexo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Entre as principais preocupações estão o programa nuclear e de mísseis norte-coreano e o crescimento da capacidade militar chinesa.

O plano de fortalecimento da defesa prevê gastos de aproximadamente 43 trilhões de ienes no período fiscal de 2023 a 2027, com o objetivo de elevar os recursos destinados à defesa para o equivalente a 2% do PIB.

O movimento não tem a Coreia do Norte como único alvo. O documento de defesa japonês de 2026 classificou as ações militares da China como o principal desafio de segurança do país, enquanto também descreveu o desenvolvimento nuclear e missilístico norte-coreano como uma ameaça grave e iminente.

Por que o passado entre Japão e Coreia pesa tanto?

A desconfiança entre os dois países não começou com Kim Jong-un. Suas raízes estão na ocupação japonesa da Península Coreana.

O Japão anexou oficialmente a Coreia em 1910 e manteve o domínio colonial até 1945. Durante esse período, ocorreram repressão cultural, trabalhos forçados, deportações e exploração sexual de mulheres coreanas.

O professor Luiz Philipe Ferreira de Oliveira explica que esse passado continua sendo utilizado por Pyongyang para construir sua narrativa sobre o Japão.

“As tensões atuais estão profundamente enraizadas no passado imperial do Japão, e os dois países nunca estabeleceram relações diplomáticas oficiais”, destaca.

A ocupação também atingiu diretamente a identidade cultural coreana. O domínio japonês impôs restrições ao uso da língua coreana, alterou nomes e submeteu a população a políticas de assimilação.

O histórico deixou uma memória política que permanece especialmente forte na Coreia do Norte. O regime de Pyongyang apresenta o Japão como uma antiga potência colonial que pode voltar a representar uma ameaça caso recupere capacidade militar ofensiva.

O passado também permanece presente em outras relações da região. A ocupação japonesa da Coreia e os conflitos envolvendo China e Japão deixaram uma herança de desconfiança que continua influenciando a política regional.

A Guerra da Coreia criou uma divisão que permanece

As estimativas variam, mas acredita-se que pelo menos dois milhões de civis coreanos, morreram durante a Guerra da Coreia. (Foto: creative commons)

A derrota japonesa em 1945 encerrou a ocupação, mas não trouxe estabilidade à Península Coreana.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Coreia foi dividida entre uma área sob influência soviética, ao norte, e outra sob influência americana, ao sul. A

divisão ocorreu em meio ao início da Guerra Fria e transformou a península em uma das principais áreas de disputa entre os dois blocos.

Em 1950, tropas norte-coreanas atravessaram a fronteira e invadiram o Sul. Os Estados Unidos apoiaram a Coreia do Sul, enquanto a União Soviética e a China apoiaram o Norte.

O conflito matou mais de 3 milhões de pessoas e terminou em 1953 com um armistício. Não houve um tratado de paz definitivo.

Esse ponto é fundamental para compreender a segurança do Leste Asiático. A Guerra da Coreia terminou nos campos de batalha, mas a estrutura política criada pelo conflito permanece.

A península continua dividida pela Zona Desmilitarizada, enquanto Coreia do Norte e Coreia do Sul mantêm forças militares concentradas próximas à fronteira.

A Coreia do Norte passou, nas décadas seguintes, a desenvolver um programa nuclear e um arsenal de mísseis. Para Tóquio, essa capacidade representa uma ameaça direta porque o arquipélago japonês está dentro do alcance de diferentes sistemas norte-coreanos.

“O aumento do poder militar do Japão, inicialmente focado em dissuadir uma possível ação da China sobre Taiwan, gera um ‘dilema de segurança’”, lembra Luiz Philipe.

Para ele, o problema não se limita a Japão e Coreia do Norte.

“Países vizinhos, China e Coreia do Norte, sentem-se ameaçados e aceleram seus próprios programas de armas, aumentando o risco de uma corrida armamentista na região do Indo-Pacífico.”

Sequestros também mantêm a relação sem solução diplomática

O histórico entre os dois países inclui ainda uma questão que permanece aberta, os sequestros de cidadãos japoneses realizados pela Coreia do Norte nas décadas de 1970 e 1980.

Segundo o especialista, agentes norte-coreanos sequestraram japoneses em áreas costeiras do país. Pyongyang admitiu parte dos casos apenas no início dos anos 2000.

A questão continua sendo um dos principais obstáculos para uma normalização das relações entre Tóquio e Pyongyang.

Estados Unidos colocam mais um elemento na disputa

Washington aparece diretamente na equação porque o Japão é um dos principais aliados militares dos Estados Unidos na Ásia.

A Coreia do Norte acusa os americanos de estimular o fortalecimento militar japonês e interpreta exercícios conjuntos como preparação para possíveis operações contra Pyongyang.

A declaração de Kim Yo-jong após o teste do Tomahawk seguiu exatamente essa linha. Ela afirmou que os Estados Unidos estão por trás dos “movimentos militares perigosos” do Japão.

Para Washington, Tóquio e Seul, entretanto, a cooperação militar possui outra justificativa: responder ao desenvolvimento de armas nucleares e mísseis pela Coreia do Norte e acompanhar o crescimento das capacidades militares chinesas.

O Japão também participou de exercícios militares liderados pelos Estados Unidos nas Filipinas em maio. Kim Yo-jong citou essas atividades como parte das evidências de que Tóquio estaria abandonando uma postura exclusivamente defensiva.

Coreia do Sul, China e Rússia entram no cálculo

A Coreia do Sul também mudou sua posição diante do fortalecimento norte-coreano. Embora tenha seu próprio histórico de desconfianças com o Japão, Seul passou a cooperar de maneira mais estreita com Tóquio e Washington em questões de segurança.

A aproximação entre os três países cria uma estrutura de cooperação que Pyongyang interpreta como uma ameaça conjunta.

Do outro lado, a Coreia do Norte mantém relações importantes com China e Rússia. O professor Luiz Philipe Ferreira de Oliveira destaca especialmente a aproximação com Moscou no contexto da guerra da Ucrânia.

“Enquanto o Japão e os EUA se unem à Coreia do Sul, a Coreia do Norte tem se aproximado fortemente da Rússia e mantém a China como seu principal sustentáculo econômico”, afirma Luiz Philipe.

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