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Geopolítica

Qual o interesse da China na “autossuficiência” da América Latina?

Pequim busca evitar que governos latino-americanos se alinhem exclusivamente a Washington

Qual o interesse da China na “autossuficiência” da América Latina?

A defesa da “autossuficiência” da América Latina feita pelo presidente da China, Xi Jinping, tem um objetivo que vai além da retórica sobre soberania.

Ao defender que os países da região decidam com quem querem estabelecer relações, Pequim cria condições para disputar espaço econômico com os Estados Unidos em mercados estratégicos.

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A declaração ocorreu nesta terça-feira (18), durante o encontro de Xi com o presidente do Equador, Daniel Noboa, em Pequim. O equatoriano mantém proximidade com o presidente norte-americano Donald Trump e viajou à China para uma agenda de uma semana com forte foco comercial.

O conteúdo da declaração mostra que a defesa chinesa da autonomia regional acontece ao mesmo tempo em que Pequim negocia comércio, energia e investimentos com governos latino-americanos.

Xi associa autonomia a interesses nacionais

Durante a reunião, Xi Jinping defendeu que os países latino-americanos não devem sofrer pressão externa para definir suas relações internacionais.

“Os países da América Latina deveriam demonstrar ‘autonomia’ e ‘realizar a cooperação externa com base em seus próprios interesses nacionais’”, afirmou Xi.

Para Pequim, essa posição também cria uma vantagem diplomática. Se os governos latino-americanos mantiverem liberdade para negociar com diferentes potências, empresas chinesas podem disputar contratos, investimentos e acesso a matérias-primas sem enfrentar necessariamente uma orientação regional favorável a Washington.

Xi também defendeu a preservação da estabilidade política no continente.

“A China defende sistematicamente que não se deve enfraquecer o status da América Latina e do Caribe como uma zona de paz, nem interromper o caminho de desenvolvimento e revitalização dos países da região”, declarou Xi.

A escolha do tema ocorre em uma região onde comércio e influência política caminham juntos. Por isso, a defesa chinesa da autonomia pode funcionar como instrumento para manter abertas as portas de negociação com governos de diferentes orientações ideológicas.

O que Pequim ganha com uma região menos dependente?

O interesse econômico aparece quando se observa o tipo de relação que a China constrói com os países latino-americanos. Pequim não depende apenas de acordos políticos. O país busca alimentos, energia, minerais, infraestrutura e novos mercados para suas empresas.

O Brasilianista explicou que a relação entre Brasil e China envolve commodities, minerais críticos, tecnologia, investimentos e projetos de infraestrutura.

O consultor de Comércio Internacional Victor Gabriel Roger Jaumouillé avaliou que a defesa chinesa da soberania brasileira possui uma dimensão estratégica justamente por ocorrer em um período de tensão com os Estados Unidos.

“O apoio público de Xi Jinping ao Brasil reflete, em primeiro lugar, a tradicional posição da diplomacia chinesa em defesa da soberania e da não interferência em assuntos internos, especialmente nas relações com parceiros do Sul Global”, pontuou.

Para o especialista, porém, o momento político modifica o peso dessa manifestação.

“O momento da manifestação, em meio à escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos, também lhe confere uma dimensão estratégica”, completou.

A mesma lógica aparece agora no Equador. A China não precisa que Noboa rompa com Washington. O interesse de Pequim está em preservar uma relação própria com Quito, mesmo quando o governo equatoriano mantém proximidade com Trump.

Equador mostra a dimensão comercial da estratégia

Às vésperas da visita de Noboa, Pequim restabeleceu a autorização para que oito plantas processadoras de camarão equatorianas exportassem novamente para o mercado chinês. O produto está entre os principais itens vendidos pelo Equador ao país asiático, atrás apenas do petróleo.

O movimento mostra que a autonomia defendida por Xi não significa afastamento das grandes potências. Pelo contrário. Para a China, governos com maior liberdade de negociação podem manter simultaneamente relações com Washington, Pequim e outros centros econômicos.

Os dois países também concordaram em estimular a cooperação em energia fotovoltaica e na preparação para possíveis efeitos do fenômeno El Niño.

Brasil tem peso maior na estratégia chinesa

O caso brasileiro possui uma dimensão ainda maior por causa do tamanho da economia e da importância do país para o comércio internacional. O Brasilianista mostrou que a posição brasileira interessa diretamente às duas potências.

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador associado do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (Caeni) da Universidade de São Paulo (USP), Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira, classificou o país como um ator capaz de alterar o equilíbrio entre Washington e Pequim.

“O Brasil é visto como uma espécie de Estado pivô, potência média, que dependendo de que lado ele ficar, nisso que muitos chamam de nova guerra fria, nós podemos ter aqui uma divisão bastante forte”, afirmou Vieira.

A posição brasileira também interessa porque o país reúne características que poucos mercados latino-americanos concentram simultaneamente: produção agrícola em larga escala, recursos minerais, capacidade energética e participação em organismos multilaterais.

Por isso, uma política externa que preserve relações com os dois lados oferece à China acesso a um parceiro relevante sem exigir uma ruptura brasileira com os Estados Unidos.

Disputa por influência chega às escolhas dos governos

O internacionalista Rafael Moredo apontou que a disputa passou a incluir tecnologia, energia, infraestrutura digital e cadeias produtivas estratégicas.

“A principal transformação já está em curso: o mundo está deixando de ter uma ordem econômica e tecnológica integrada para ter duas esferas de influência parcialmente separadas”, explicou Moredo.

A defesa da autonomia latino-americana produz ainda um ganho diplomático para a China. Pequim passa a se apresentar como uma potência que reconhece o direito de países menores definirem seus próprios caminhos, especialmente diante de uma relação historicamente marcada pela influência dos Estados Unidos. Xi resumiu essa posição ao tratar diretamente da escolha de parceiros.

“Não se deve interferir em seu direito de escolher parceiros de maneira independente”, afirmou o presidente chinês.

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