Geopolítica

Um novo 11 de Setembro pode acontecer, mas seria diferente

Vinte e cinco anos depois dos ataques da Al-Qaeda, inteligência e segurança aérea tornaram mais difícil repetir a operação de 2001

Ataques de 11 de setembro de 2001
Especialista alerta que ameaças atuais passam por células menores, ciberataques, infraestrutura crítica e novos focos do jihadismo Foto: creative commons

Vinte e cinco anos depois de 19 integrantes da Al-Qaeda sequestrarem quatro aviões comerciais e matarem quase 3 mil pessoas nos Estados Unidos, a possibilidade de um ataque com impacto semelhante ao 11 de Setembro continua existindo.

A forma, porém, provavelmente não seria a mesma. Os sistemas de inteligência foram reorganizados, aeroportos mudaram seus protocolos e a cooperação entre agências aumentou desde 2001.

Ao mesmo tempo, organizações extremistas se descentralizaram e novas vulnerabilidades surgiram em redes elétricas, telecomunicações, sistemas financeiros e outras infraestruturas que hoje sustentam praticamente toda a atividade econômica.

Para Rafael Moredo, internacionalista e especialista em gestão pública, procurar simplesmente uma nova Al-Qaeda planejando outro sequestro simultâneo de aviões pode significar olhar para a ameaça errada.

“A resposta curta é sim pode acontecer — mas provavelmente não da mesma forma”, afirma Rafael Moredo.

A avaliação coincide com um alerta feito nesta quinta-feira (11) pelo diretor-geral do MI5, Ken McCallum.

Ao marcar os 25 anos do atentado, o chefe do serviço de inteligência britânico advertiu que o próximo choque de grandes proporções pode estar sendo preparado justamente em uma área para a qual os governos ainda não estão olhando.

Condições diferentes

O ataque de 2001 exigiu anos de preparação. A Al-Qaeda precisava selecionar integrantes, treiná-los, movimentar dinheiro, organizar viagens internacionais e colocar diferentes células para trabalhar em uma mesma operação.

A Comissão do 11 de Setembro concluiu posteriormente que os 19 sequestradores conseguiram atravessar os controles de segurança e tomar quatro aeronaves em um sistema que não estava preparado para aviões comerciais serem utilizados como armas.

“O 11 de setembro de 2001 foi possível por uma combinação específica de fatores: uma organização transnacional com recursos, planejamento de longo prazo, liberdade de movimento e um alvo que subestimou a ameaça”, explica o internacionalista.

Parte dessas condições mudou drasticamente após os ataques.

“Parte dessa equação foi eliminada. A outra parte evoluiu”, avalia o especialista.

Os atentados levaram à criação de novas instituições de segurança, maior compartilhamento de dados entre governos, mudanças em aeroportos e ampliação dos sistemas de vigilância.

Também deram origem a um aparato que provocou controvérsias sobre privacidade e poderes concedidos ao Estado.

Ataque mais difícil

Moredo considera que uma operação com a mesma estrutura utilizada em 2001 teria hoje maiores chances de deixar rastros antes de ser executada.

“Do ponto de vista técnico, os serviços de inteligência ocidentais ficaram significativamente mais sofisticados após 2001”, observa Moredo.

O compartilhamento de dados passou a ter um peso muito maior. Movimentações bancárias, viagens, comunicações e conexões entre suspeitos podem ser cruzadas entre diferentes órgãos e países.

“A cooperação entre agências, o monitoramento de comunicações e o rastreamento de fluxos financeiros tornaram muito mais difícil replicar um ataque coordenado do porte do original”, destaca o analista.

Isso não elimina a possibilidade.

“Não impossível, mas mais difícil e mais caro para quem ataca”, ressalta o internacionalista.

O próprio MI5 afirma que Al-Qaeda e outros grupos continuam interessados em atentados com grande número de vítimas, apesar de a capacidade operacional da organização criada por Osama bin Laden ter diminuído desde 2001.

Terrorismo mudou

A adaptação dos governos provocou também uma mudança entre organizações extremistas.

O modelo de uma estrutura centralizada que seleciona dezenas de participantes e coordena uma operação durante anos produz uma grande quantidade de informações que podem ser interceptadas.

Atentados cometidos por uma única pessoa ou pequenas células exigem muito menos comunicação.

“O terrorismo respondeu a isso evoluindo. O modelo Al-Qaeda, hierárquico, centralizado, com treinamento em campos físicos, foi em grande parte substituído pelo modelo do lobo solitário ou de células pequenas e autônomas”, pondera o especialista.

Nesses casos, a radicalização pode ocorrer principalmente pela internet, sem que exista contato operacional constante com uma organização terrorista.

“Esses ataques são menores, mas muito mais difíceis de detectar antecipadamente justamente porque geram pouco sinal de inteligência”, adverte Moredo.

Essa mudança já aparece inclusive na percepção dos próprios americanos.

Pesquisa Reuters/Ipsos realizada antes do aniversário mostrou que 33% consideram o terrorismo doméstico a principal ameaça terrorista à segurança, contra 20% que apontam ataques vindos do exterior.

Quando confrontadas diretamente as duas possibilidades, 61% consideram os extremistas domésticos uma ameaça maior.

Infraestrutura crítica

Um evento capaz de provocar consequências econômicas e políticas comparáveis às do 11 de Setembro também não precisa envolver aviões.

Para Moredo, uma das maiores vulnerabilidades está na infraestrutura que mantém sociedades inteiras funcionando.

“O cenário mais provável para um evento de impacto equivalente ao 11/9 — não necessariamente em forma, mas em consequência sistêmica — hoje não passa necessariamente por aviões”, aponta o analista.

Distribuição de água e serviços públicos passaram a depender de estruturas digitais interligadas.

“Passa por infraestrutura crítica: redes elétricas, sistemas financeiros, redes de abastecimento de água ou comunicações”, frisa o internacionalista.

Um ataque bem-sucedido contra diferentes pontos simultaneamente poderia gerar consequências nacionais antes mesmo que o país atacado soubesse quem estava por trás da operação.

“Um ataque cibernético coordenado contra múltiplos nós críticos de uma economia desenvolvida poderia produzir disrupção comparável à de 2001, talvez maior, sem um único agente cruzar uma fronteira física”, considera o especialista.

Autoria difícil

A diferença não estaria somente no alvo. Quando um avião é sequestrado e lançado contra um prédio, a natureza do ataque se torna rapidamente evidente. No ambiente digital, identificar o responsável pode levar semanas ou meses.

Hackers podem utilizar servidores instalados em diferentes países, infraestrutura alugada, computadores comprometidos de terceiros e ferramentas desenvolvidas por outros grupos.

“A atribuição seria mais difícil, a resposta mais ambígua e o impacto econômico potencialmente mais duradouro”, prevê Moredo.

Essa indefinição também cria um problema geopolítico. Antes de retaliar militarmente, um Estado precisaria demonstrar quem realizou o ataque e se havia participação direta de outro governo.

O alerta deixou de envolver apenas organizações terroristas. O chefe do MI5 citou nesta semana também ciberataques e sabotagem promovidos por atores ligados a Estados entre as ameaças que os serviços de inteligência precisam acompanhar.

Sahel cresce

O mapa do jihadismo também mudou. A Al-Qaeda perdeu Bin Laden em 2011 e Ayman al-Zawahiri em 2022. A organização deixou de ter a mesma estrutura centralizada responsável pelo 11 de Setembro, mas suas ramificações continuam operando em partes da África, Oriente Médio e sul da Ásia.

“Geograficamente, os vetores de ameaça se diversificaram”, salienta o internacionalista.

Moredo chama atenção especialmente para o continente africano.

“O Oriente Médio continua relevante, mas o Sahel africano tornou-se o novo epicentro do jihadismo organizado”, assinala o especialista.

Os números sustentam essa preocupação. O Global Terrorism Index 2026 aponta que o Sahel concentrou mais da metade de todas as mortes provocadas pelo terrorismo no mundo em 2025. Burkina Faso registrou 846 mortes e o Níger, 703.

Mali, Burkina Faso e Níger enfrentam grupos ligados tanto à Al-Qaeda quanto ao Estado Islâmico.

“Mali, Burkina Faso e Níger abrigam hoje franquias do Estado Islâmico e da Al-Qaeda com liberdade de movimento que lembra o Afeganistão pré-2001”, ressalta Moredo.

Há, porém, uma diferença importante.

“Esses grupos estão hoje mais focados em consolidar território regional do que em projetar ataques no Ocidente — mas essa equação pode mudar”, avalia o internacionalista.

Mais que terrorismo

O ponto central da análise de Moredo é que um “novo 11 de Setembro” não deve ser entendido apenas como outro atentado terrorista com milhares de vítimas.

O ataque de 2001 teve impacto porque alterou decisões tomadas durante décadas.

“O 11/9 não foi apenas um ataque terrorista — foi um evento que reorganizou a ordem mundial”, enfatiza o especialista.

Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão em 2001 e o Iraque em 2003. Vieram depois Guantánamo, prisões secretas, expansão da vigilância e uma guerra global contra o terrorismo.

“Desencadeou duas guerras, redefiniu o debate sobre soberania e intervenção, acelerou a construção do Estado de vigilância moderno e consumiu recursos e atenção estratégica americana por duas décadas”, analisa Moredo.

A Reuters lembra que as guerras iniciadas depois dos atentados deixaram mais de 900 mil mortos, principalmente no Iraque e no Afeganistão.

Para Moredo, a concentração americana nesses conflitos teve ainda consequências na disputa entre grandes potências.

“Abriu espaço para que China e Rússia se reposicionassem globalmente enquanto Washington estava no Afeganistão e no Iraque”, argumenta o internacionalista.

Taiwan e chips

É por isso que um evento de impacto equivalente não precisaria sequer partir de uma organização terrorista.

Uma escalada militar em Taiwan, por exemplo, poderia provocar uma ruptura em cadeias tecnológicas globais.

“Poderia ser uma escalada no estreito de Taiwan que interrompesse o fornecimento global de semicondutores”, exemplifica o especialista.

A ilha continua ocupando posição central na indústria mundial de chips avançados.

O peso estratégico desse setor levou Taiwan a ampliar investimentos industriais nos Estados Unidos e na Europa para reduzir a concentração da produção, ao mesmo tempo em que utiliza sua liderança em semicondutores como instrumento diplomático.

Um conflito envolvendo China e Taiwan poderia, portanto, produzir consequências econômicas em países que estivessem milhares de quilômetros longe do campo de batalha.

Sistema financeiro

Outra possibilidade passa diretamente pelo dinheiro. Bancos centrais, instituições financeiras, bolsas e sistemas de pagamento dependem de redes digitais capazes de executar milhões de operações em segundos.

“Poderia ser um colapso de infraestrutura financeira digital”, projeta Moredo.

Nesse cenário, o impacto não dependeria necessariamente de mortes imediatas para assumir proporções históricas.

A paralisação de pagamentos, indisponibilidade de bancos, interrupção do comércio e perda de confiança poderiam se espalhar de uma economia para outra.

É essa dimensão que diferencia a ideia de “impacto equivalente” de uma repetição literal dos atentados de 2001.

Risco biológico

Moredo inclui ainda ameaças biológicas entre os eventos capazes de produzir uma ruptura mundial.

“Poderia ser um ataque biológico — deliberado ou acidental — com capacidade de propagação que a pandemia de Covid mostrou ser real e subestimada”, adverte o analista.

A discussão ganhou uma nova dimensão com o avanço da inteligência artificial. Modelos mais sofisticados podem auxiliar pesquisas médicas, mas especialistas também discutem o risco de que ferramentas avançadas reduzam barreiras técnicas para agentes mal-intencionados desenvolverem ataques digitais ou trabalharem com patógenos.

O ponto cego

Para o internacionalista, a principal lição de 2001 está justamente na dificuldade de antecipar o formato do próximo grande choque.

“As maiores ameaças sistêmicas raramente chegam pelo vetor que os sistemas de defesa estão olhando”, resume Moredo.

Antes do 11 de Setembro, os Estados Unidos tinham informações sobre a ameaça representada pela Al-Qaeda. O problema foi transformar diferentes fragmentos de inteligência em uma avaliação capaz de impedir a operação.

“Em 2001, o mundo estava preocupado com guerra entre Estados e armas de destruição em massa convencionais”, recorda o especialista.

O ataque acabou sendo executado por 19 homens que sequestraram aeronaves comerciais e exploraram vulnerabilidades de segurança que hoje parecem evidentes, mas não eram tratadas daquela forma antes dos atentados.

O alerta de Moredo encontra eco, 25 anos depois, justamente na declaração do chefe do MI5: a preocupação excessiva com o ataque conhecido pode deixar aberta a porta para o ataque que ainda não foi imaginado.

“A pergunta mais útil não é ‘onde está a próxima Al-Qaeda’, mas ‘o que estamos subestimando agora da mesma forma que subestimamos aquela ameaça’”, conclui Rafael Moredo.

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