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Geopolítica

Trump vai cortar na Carne?

O presidente dos EUA toma medidas de protecionismo aos produtores americanos dessa indústria

Donald Trump
O impacto nas exportações diretas do Brasil é limitado, mas existe (Foto: @Whitehouse via Fotos Públicas)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na última sexta-feira (28) que pretende acabar com a concentração do setor de carnes no país. 

Para o republicano, parte significativa da propriedade das grandes processadoras de carne não opera nos EUA e, por isso, ele autorizou a preparaçaõ de documentos jurídicos para que produtores americanos tenham direito de processar seus próprios alimentos.

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Vale lembrar que a decisão acontece em meio ao aumento expressivo nos preços de proteína de origem animal nos EUA, junto do crescimento contínuo da inflação americana.

Essencialmente, duas companhias brasileiras estão entre as quatro maiores processadoras de carne bovina nos Estados Unidos — JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef, que controlam cerca de 85% do mercado. A JBS tem origem brasileira e a National Beef é controlada pela MBRF. 

No primeiro semestre de 2026, os EUA foram o segundo maior destino da carne bovina brasileira, comprando 205 mil toneladas, alta de 13% sobre o mesmo período de 2025, e movimentando US$ 1,35 bilhão, evidenciando a relação comercial relevante.

Impactos no Brasil

Marco Aurelio da Silva, especialista em economia, consultor de empresas em Negócios Internacionais e docente do curso de Comércio Exterior da FSG - Centro Universitário da Serra Gaúcha, explica que a sinalização do presidente Donald Trump busca desregulamentar e desburocratizar as regras federais de inspeção sanitária do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), permitindo que pecuaristas realizem o abate e o processamento local de sua própria produção para venda direta ou comércio interestadual.

Para os EUA, isso significa uma resposta política e protecionista às críticas do setor agropecuário local após a autorização de cotas para importação de carne. Visa descentralizar a cadeia de suprimentos e combater as margens do setor frigorífico.

Para o Brasil há dois impactos: o empresarial, pois atinge diretamente o ecossistema de operações das multinacionais brasileiras JBS (via JBS USA) e MBRF/Marfrig (via National Beef); e o sitêmico, porque no curto prazo, o impacto nas exportações diretas do Brasil é limitado, pois o consumo americano supera a capacidade de pequenos produtores locais. No entanto, se o governo americano endurecer regras concorrenciais ou sanitárias contra multinacionais estrangeiras em favor do pequeno produtor local, a rentabilidade das filiais brasileiras nos EUA pode sofrer pressão. 

"A medida é desenhada especificamente para afetar e balançar o domínio das gigantes de grande porte. Grandes grupos como JBS e Marfrig/National Beef sentem o impacto sob a ótica de regulação e margens de lucro nos EUA. Ao tentar incentivar a entrada de frigoríficos locais ou abates na própria fazenda, o governo tenta reduzir o poder de barganha dessas multinacionais junto aos pecuaristas americanos", afirma o especialista.

Já os pequenos e médios exportadores do Brasil praticamente não sofrem alteração direta.

"O fluxo exportador do Brasil para os EUA responde à demanda por carne industrial in natura no atacado global. O gargalo dos pequenos pecuaristas americanos é a capacidade de abate e escala em supermercados locais, um nicho diferente do volume de carne de exportação em contêineres enviado pelo Brasil", comenta.

Indústria da carne nos EUA

Há poucas semanas, o conselheiro comercial dos EUA, Peter Navarro, acusou as quatro grandes empresas do setor de formar um cartel.

Silva comenta que, sob a perspectiva econômica estrita, a indústria de carne nos EUA opera em formato de oligopólio de alta concentração, popularmente chamado no setor de "Big Four".

No entanto, Tiago Velloso, economista, reitera que a concentração não significa cartel.

"Inclusive o governo Trump vem aumentando a concentração de outros setores de acordo com seus interesses. Então existe um problema concorrencial legítimo, mas chamar de cartel exige evidências que vão além da concentração", afirma. 

Juridicamente, para ser classificado como "cartel", exige-se a comprovação de acordos ilegais, combinação formal de preços ou divisão deliberada de mercado. O Departamento de Justiça dos EUA tem investigações e processos em andamento contra frigoríficos.

O que ocorre na prática é um enorme poder de mercado, onde poucas empresas definem os rumos dos preços, alimentando as acusações políticas de formação de cartel. 

Outras estratégias de Trump

Para além de permitir maior domínio dos pequenos produtores americanos contra a concentraçaõ da indústria, outra estratégia que poderia ser adotada por Trump nesse cenário seria aumentar a oferta, seja por importações, seja reduzindo algumas barreiras, no curto prazo.

Isso seria possível por meio de aumento nas cotas de importação sem tarifas para países produtores (como Brasil, Austrália e Nova Zelândia) para elevar a oferta interna.

Outra opção é a concessão de subsídios, linhas de crédito baratas e incentivos fiscais para a criação e expansão de plantas de abates de médio porte, criando concorrência real aos grandes grupos.

Os especialistas ainda comentam que submeter fusões e aquisições do setor a regras rigorosas do DOJ e da FTC (Comissão Federal de Comércio) ou forçar o desmembramento de unidades operacionais e conceder auxílios para reduzir custos de insumos (milho e soja) no confinamento de gado, pode baratear o custo final de produção.

Crise da confiança da carne brasileira

Passa a valer neste mês a suspenção da venda de carne brasileira à União Europeia, sob alegações de descumprimento das regras sanitárias do bloco.

O Brasil precisa se adequar especialmente ao uso de antibióticos na criação dos animais para retomar a exportação. Isso pode ser um grande problema, visto que o país é o segundo maior exportador de carne bovina para os europeus.

Segundo o professor de Comércio Exterior, a combinação de barreiras na União Europeia e restrições operacionais/tarifárias nos Estados Unidos cria uma "tenaz protecionista" sobre a pecuária brasileira: pressão negativa sobre as margens (preço do boi gordo), o redirecionamento de volume que seria exportado para esses mercados de alto valor agregado provoca um excesso temporário de oferta no mercado interno, pressionando os preços da arroba no campo; perda de mercados de alto valor comercial, a UE e EUA remuneram cortes nobres e específicos com prêmios de preço significativos em comparação com outros destinos regionaise e a interrupção nesses fluxos reduz a receita líquida por tonelada exportada.

Há também o risco de "efeito cascata" reputacional, em que os bloqueios europeus baseados em critérios sanitários e ambientais (como rastreabilidade do uso de antibióticos e controle do desmatamento) tendem a ser instrumentalizados por outros blocos concorrentes para impor barreiras não tarifárias adicionais.

Velloso complementa que, no curto prazo, o impacto seria principalmente sobre frigoríficos e pecuaristas, visto que menos mercados disponíveis significa maior oferta doméstica e pressão sobre preços.

"Também haveria perda de receita de exportação. Mas eu não vejo, pelos números atuais, um choque capaz de desestruturar o setor. O problema maior seria se as restrições começassem a se espalhar para outros mercados por uma questão sanitária. Aí deixaríamos de ter apenas um problema comercial e passaríamos a ter um problema de confiança na carne brasileira", reitera o economista.

Ainda assim, o Brasil possui uma pauta exportadora diversificada e alta competitividade de custos, o que permite o redirecionamento de fluxos para três eixos principais:

  • China e Hong Kong: a China permanece como o pilar da pecuária brasileira, absorvendo mais da metade das exportações. O país tem capacidade de absorver volume adicional, embora a dependência de um único comprador aumente o poder de barganha de Pequim na negociação de preços;
  • Oriente Médio e Países Islâmicos (Mercado Halal): nações como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Indonésia apresentam demanda crescente por proteína animal brasileira, sustentada por acordos de certificação sanitária rigorosos;
  • América Latina e Outros Emergentes: países como Chile e México têm ampliado a compra de carne in natura, atuando como amortecedores regionais de volume.

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