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Geopolítica

Donos da JBS e do BTG viram ponte entre Brasil e Trump

Joesley Batista e André Esteves têm atuado como interlocutores em Washington durante tarifaços dos EUA

André Esteves/Trump/Joesley Batista
Controlador da JBS ajudou a destravar entrada temporária de 300 mil toneladas de carne bovina sem tarifa nos Estados Unidos Foto: Creative commons

O banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e o empresário Joesley Batista, um dos controladores da JBS, conseguiram nas últimas semanas algo que a diplomacia brasileira teve dificuldade para obter durante boa parte da crise entre Brasil e Estados Unidos, acesso direto e presencial ao presidente Donald Trump.

Joesley foi recebido no Salão Oval em 20 de agosto e discutiu pessoalmente a tarifa sobre a carne brasileira.

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Nove dias depois, Esteves passou 45 minutos com o republicano em seu clube de golfe na Virgínia, acompanhado pela chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles.

As reuniões ocorreram enquanto Brasília tentava recompor os canais oficiais de negociação com o governo americano.

As conversas não representam formalmente o governo brasileiro. Nos dois casos, porém, os empresários trataram de assuntos que extrapolam seus negócios particulares e alcançam diretamente a relação bilateral, como tarifas, sistema eleitoral, segurança, minerais estratégicos e oportunidades de investimento.

Carne brasileira

Joesley argumentou que aumentar a oferta de carne brasileira poderia ajudar a reduzir os preços nos Estados Unidos caso o governo retirasse uma tarifa de 26% aplicada ao produto.

A alta da carne tornou-se um problema político para Trump. A redução do rebanho americano pressionou os valores pagos pelos consumidores e colocou a inflação dos alimentos novamente entre as preocupações da Casa Branca.

Joesley apresentou o Brasil como parte da solução. O país é um dos maiores produtores de carne bovina do mundo, enquanto a própria JBS possui operações relevantes dos dois lados da relação comercial.

No dia seguinte à reunião, Trump anunciou um plano para permitir a entrada temporária de até 300 mil toneladas métricas de aparas de carne bovina magra, durante 90 dias, sem cobrança de tarifa.

O volume corresponde a aproximadamente 2% do consumo anual americano.

O republicano afirmou ainda que os produtos importados poderiam chegar ao mercado com preços 25% inferiores aos praticados naquele momento.

Interesse próprio

A medida interessa diretamente à JBS. A companhia já é uma das maiores processadoras de carne dos Estados Unidos e também controla grandes operações no Brasil.

Uma abertura maior para produtos brasileiros amplia as possibilidades de abastecimento de suas unidades e de participação no mercado americano.

Nos primeiros seis meses deste ano, o Brasil exportou aproximadamente US$ 1,5 bilhão (R$ 7,71 bilhões)em carne bovina aos Estados Unidos, alta de 10% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.

A proposta apoiada por Joesley encontrou resistência dentro do próprio Partido Republicano.

Parlamentares de estados pecuaristas e a National Cattlemen’s Beef Association criticaram a ampliação das importações sob o argumento de que ela poderia prejudicar os produtores americanos.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos também investiga as quatro maiores processadoras do país, incluindo a JBS, por possíveis práticas anticoncorrenciais. As empresas negam irregularidades.

Outra visita

Joesley já havia exercido papel semelhante durante o primeiro tarifaço imposto por Trump ao Brasil, em 2025.

Naquele ano, o presidente americano anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, em meio a uma crise que misturava comércio e divergências políticas relacionadas ao julgamento de Jair Bolsonaro.

Poucas semanas depois, Joesley foi novamente recebido por Trump na Casa Branca.

Na conversa, tratou dos efeitos da tarifa sobre a carne, discutiu a importação de celulose brasileira e defendeu que as diferenças entre os dois países fossem resolvidas por meio de diálogo entre os governos.

A movimentação empresarial coincidiu com a primeira distensão significativa da crise.

A atuação da JBS e de outras grandes empresas brasileiras ajudou a fortalecer dentro da gestão americana o grupo favorável a tratar a relação com o Brasil principalmente pela ótica comercial.

Semanas depois, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, Trump fez um aceno público a Lula e afirmou ter tido “química” com o presidente brasileiro.

Acesso antigo

A proximidade da JBS com o ambiente político americano não começou com as tarifas.

A Pilgrim’s Pride, controlada majoritariamente pela companhia brasileira, doou US$ 5 milhões para o comitê da posse de Trump, a maior contribuição individual feita por uma empresa para a cerimônia, segundo registros apresentados à Comissão Federal Eleitoral americana.

Essa estrutura empresarial tornou Joesley um interlocutor com interesses concretos nos dois países.

Agora, pela segunda vez em pouco mais de um ano, ele aparece participando diretamente de uma discussão capaz de alterar uma medida comercial adotada pela Casa Branca.

Vez de Esteves

André Esteves seguiu caminho parecido no último sábado, 29 de agosto. O fundador e principal acionista do BTG Pactual esteve durante 45 minutos com Trump no Trump National Golf Club, nos arredores de Washington.

Susie Wiles, chefe de gabinete do presidente americano e uma das pessoas mais influentes da administração, também participou.

Esteves informou previamente o Palácio do Planalto sobre a conversa e falou com Lula antes do encontro.

A pauta avançou além de interesses financeiros do BTG. O banqueiro defendeu a legitimidade e a eficiência do sistema eleitoral brasileiro, alvo de críticas do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro.

Também falou sobre a atuação brasileira contra o crime organizado, em um momento no qual Washington discute medidas contra facções latino-americanas classificadas como organizações terroristas.

Negócios estratégicos

Esteves apresentou ainda oportunidades econômicas brasileiras e latino-americanas.

O banqueiro destacou a capacidade da região de fornecer commodities estratégicas, energia e minerais, além de oportunidades ligadas a infraestrutura tecnológica e data centers.

Trump demonstrou interesse particular pela situação da Venezuela.

Ao fim dos 45 minutos, Esteves acompanhou o presidente americano até outro espaço do clube, onde ocorreria um jantar do Partido Republicano.

Dois dias depois, já em Brasília, o banqueiro participou do jantar oferecido por Lula a 16 grandes empresários no Palácio da Alvorada. Joesley também estava entre os convidados.

Canais oficiais

A atuação dos dois empresários acontece paralelamente à retomada das negociações governamentais.

Lula e Trump conversaram por telefone durante 80 minutos em 21 de agosto, um dia após o encontro do americano com Joesley.

Segundo o governo brasileiro, tarifas, segurança e conflitos internacionais estiveram entre os assuntos.

Na segunda-feira (31), representantes dos dois governos voltaram à mesa. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial americano, Jamieson Greer, realizaram uma reunião virtual e acertaram novos encontros para discutir as tarifas.

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