A Meta tentou reorganizar parte de sua estrutura para substituir tarefas realizadas por funcionários por agentes de inteligência artificial, mas recuou depois que a tecnologia não entregou os ganhos de produtividade esperados e a estratégia provocou uma reação interna.
Meses depois, porém, a empresa continua avançando em outra frente de automação, desta vez com robôs capazes de executar atividades físicas dentro de seus data centers.
O plano inicial, comandado pelo CEO Mark Zuckerberg, foi batizado de Project OT, abreviação de Organization Transformation.
Documentos internos mostram que a empresa chegou a estudar cenários em que algumas equipes seriam reduzidas em até 60%, enquanto grupos menores de funcionários passariam a trabalhar acompanhados de agentes de IA.
A Meta ressalta que nunca planejou demitir 60% de toda a sua força de trabalho.
A tentativa de automatizar o trabalho acontece enquanto a companhia amplia os investimentos em inteligência artificial.
A Meta pretende gastar pelo menos US$ 130 bilhões (R$ 672,65 bilhões) em chips e outras infraestruturas de IA em 2026, ao mesmo tempo em que enfrenta pressão para demonstrar aos investidores que esse volume de recursos produzirá ganhos concretos para os negócios.
Plano radical
A ideia começou a tomar forma no início deste ano. Em janeiro, Zuckerberg e executivos da companhia discutiram uma estrutura considerada “AI native”, na qual agentes digitais assumiriam uma parcela maior das tarefas cotidianas executadas por milhares de pessoas.
Em vez de grandes equipes tradicionais, a Meta pretendia criar pequenos grupos chamados de “pods”.
Um modelo interno comparava equipes convencionais, com dez a 20 integrantes especializados, a grupos de três a cinco pessoas no novo formato.
Funções de engenheiros, designers, cientistas de dados e outros profissionais seriam mais flexíveis e parte das atividades seria apoiada ou realizada por sistemas de IA.
O projeto previa duas etapas de reorganização. A primeira aconteceria em maio e a segunda estava planejada para novembro.
Além de demissões, os cenários estudados incluíam fechamento de vagas abertas, transferência de trabalhadores para áreas consideradas prioritárias e desligamentos relacionados a desempenho.
A Meta confirmou a existência do Project OT e reconheceu que os cenários mais agressivos previam redução de até 60% em determinadas equipes.
A companhia afirmou, entretanto, que os números faziam parte de exercícios de planejamento e que nem todas as alternativas consideradas seriam colocadas em prática.
Revolta interna
A primeira rodada ocorreu em 20 de maio, quando a Meta cortou aproximadamente 10% de seus funcionários.
Horas antes das demissões, porém, Zuckerberg decidiu cancelar o planejamento para uma segunda rodada de reorganização prevista para novembro.
Até aquele momento, a companhia ainda não havia definido quantos funcionários seriam atingidos pela segunda etapa.
Após os cortes de maio, Zuckerberg comunicou aos trabalhadores restantes que não esperava realizar outras demissões em toda a empresa durante 2026.
O recuo aconteceu em meio a uma deterioração do ambiente interno. Funcionários passaram a questionar se estavam sendo utilizados para treinar sistemas destinados a substituí-los.
A empresa chegou a instalar ferramentas em equipamentos de trabalhadores americanos para registrar movimentos de mouse e teclado, informações que seriam utilizadas no treinamento de agentes capazes de reproduzir ações humanas em computadores.
A insatisfação apareceu também nos indicadores internos da companhia. A proporção de respostas favoráveis em uma pesquisa de sentimento entre funcionários caiu de 74% para 55%, enquanto movimentos de organização dos trabalhadores ganharam força.
A Meta posteriormente suspendeu parte do monitoramento e permitiu que alguns empregados transferidos para novas áreas de IA retornassem às equipes anteriores.
IA abaixo
Além da reação dos funcionários, os próprios indicadores utilizados pela Meta começaram a colocar em dúvida a velocidade dos ganhos proporcionados pela inteligência artificial.
Dados internos mostraram que alterações de código em plataformas e sistemas utilizados pelos funcionários haviam aumentado 220% em um ano com o uso de IA.
No entanto, modificações que efetivamente chegaram aos usuários na forma de produtos novos ou melhorias cresceram apenas 36% no mesmo período.
Também apareceram problemas operacionais. Equipes de infraestrutura alertaram para riscos de confiabilidade relacionados à produção acelerada de código por IA.
Segundo documentos internos, grandes incidentes técnicos e de segurança aumentaram 40% em comparação com o ano anterior, enquanto o tempo utilizado pelos trabalhadores para solucionar esses problemas cresceu 70%.
Em julho, Zuckerberg reconheceu internamente que havia errado na velocidade esperada para a reorganização.
O executivo afirmou que a tecnologia de agentes de IA não havia avançado tão rapidamente quanto imaginava e estimou que os benefícios poderiam se tornar mais perceptíveis nos três a seis meses seguintes.
Robôs físicos
O recuo não significa, porém, que a Meta tenha abandonado a automação do trabalho.
A empresa também está testando robôs em seus data centers para realizar atividades atualmente desempenhadas por técnicos.
Entre os equipamentos avaliados estão braços robóticos capazes de desligar e reiniciar servidores, máquinas destinadas a trocar cabos de rede e sistemas móveis utilizados para transportar equipamentos.
A companhia testa tecnologias de fabricantes como Kinova, ABB e Watney Robotics.
Em algumas instalações, há ainda um equipamento relativamente simples que funciona como um “dedo” robótico.
O dispositivo pode ser acionado remotamente para apertar o botão físico de um computador ou servidor que precise ser reiniciado.
Os testes ocorrem em instalações americanas, incluindo o complexo de Altoona, em Iowa, utilizado pela Meta para experimentar novas tecnologias, e o novo campus de New Albany, em Ohio.
Alguns robôs de transporte e controle de estoque já funcionam em outras unidades da companhia.
Limites atuais
A automação ainda enfrenta dificuldades. Alguns robôs precisam ser recarregados com frequência, apresentam problemas para circular por ambientes com cabos e continuam mais lentos que trabalhadores humanos em determinadas atividades.
Um dos equipamentos utilizados para inspeções possui câmera que enxerga apenas em escala de cinza e, por isso, não consegue distinguir luzes verdes e vermelhas dos equipamentos.
Em situações desse tipo, a verificação humana continua necessária. A Meta também reconheceu internamente que determinadas atividades complexas de cabeamento ainda não podem ser transferidas às máquinas.
Apesar das limitações, o avanço desperta preocupação entre funcionários. Um trabalhador ouvido pela Wired estimou que, caso determinado projeto tenha sucesso, um robô poderia executar até 80% da carga de trabalho de algumas funções.
O número se refere à quantidade de tarefas e não significa que a Meta tenha definido cortar 80% desses empregos.
A companhia não comentou especificamente os projetos revelados pela reportagem, mas afirmou que continua investindo na contratação e na capacitação de profissionais qualificados para construir e operar seus data centers.
Microsoft, Google e Amazon também estudam diferentes formas de utilização de robôs nessas instalações.
Novo filme
A reorganização ocorre em um momento em que Zuckerberg e a Meta voltam a ser retratados no cinema.
A Sony Pictures divulgou nesta semana um novo trailer de “The Social Reckoning”, filme escrito e dirigido por Aaron Sorkin e apresentado como uma obra complementar a “A Rede Social”, de 2010.
Desta vez, a história deixa de se concentrar na criação do Facebook e acompanha Frances Haugen, ex-funcionária que denunciou práticas da companhia depois de ter acesso a documentos internos.
No filme, Haugen é interpretada por Mikey Madison e procura o jornalista Jeff Horwitz, vivido por Jeremy Allen White, para revelar informações da empresa. Jeremy Strong interpreta Zuckerberg.
A produção é inspirada nos acontecimentos que deram origem ao Facebook Files, série de reportagens publicada em 2021 a partir de documentos internos levados por Haugen.
Entre os temas expostos estavam pesquisas realizadas pelo próprio Facebook sobre os efeitos de seus produtos e decisões tomadas internamente pela companhia.
Sorkin, que ganhou o Oscar de roteiro adaptado por “A Rede Social”, retorna agora também como diretor. “The Social Reckoning” tem estreia prevista para 9 de outubro de 2026 e vai abordar novamente os bastidores da companhia e a atuação de Zuckerberg na história.
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