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Geopolítica

China e Indonésia estão construindo uma aliança militar?

Professor explica como a aproximação econômica e de defesa pode ampliar a influência chinesa no Sudeste Asiático sem significar, até agora, uma aliança formal entre os dois países

China e Indonésia
China e Indonésia ampliaram a cooperação em defesa, exercícios militares, tecnologia, minerais e segurança marítima. Foto: creative commons

A aproximação entre China e Indonésia avançou para além do comércio. Pequim e Jacarta passaram a aprofundar exercícios militares, intercâmbio entre Forças Armadas, cooperação tecnológica e projetos envolvendo minerais, energia e indústria de defesa.

Em agosto, ministros das Relações Exteriores e da Defesa dos dois países realizaram em Jacarta a segunda reunião do chamado Diálogo 2+2, mecanismo que reúne simultaneamente as duas áreas.

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China e Indonésia concordaram em institucionalizar a cooperação em equipamentos militares, exercícios conjuntos, treinamento de pessoal e segurança marítima.

A aproximação, porém, ainda não significa que a Indonésia tenha escolhido Pequim como aliada militar em oposição aos Estados Unidos.

Para João Estevam, professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, o movimento precisa ser entendido dentro de uma estratégia mais ampla de equilíbrio entre as potências que disputam influência no Indo-Pacífico.

“Essa é uma cooperação que tem se dado no sentido de manter uma estabilidade entre as potências naquele espaço regional asiático”, contextualiza Estevam.

Potência regional

Com mais de 280 milhões de habitantes, posição estratégica entre os oceanos Índico e Pacífico e uma das maiores economias do Sudeste Asiático, o país ocupa um espaço diferente daquele de outros parceiros de Pequim na região.

“A Indonésia é uma potência regional, e a China, obviamente, uma grande potência”, diferencia o professor.

Essa combinação cria uma relação em que economia, segurança e disputa por influência caminham juntas.

“São duas economias pujantes no Leste Asiático e no Sudeste Asiático”, acrescenta Estevam.

A China já possui presença expressiva na economia indonésia, especialmente nos setores de infraestrutura e minerais.

O níquel é um dos pontos centrais, empresas chinesas investiram pesadamente no processamento do mineral utilizado em baterias e veículos elétricos.

No primeiro semestre de 2026, os investimentos chineses na Indonésia chegaram a aproximadamente US$ 3,9 bilhões (R$ 19,91 bilhões).

Defesa aproxima

Na reunião de agosto, China e Indonésia concordaram em ampliar o contato entre seus ministérios da Defesa e entre as Forças Armadas, além de intensificar treinamento, educação militar, intercâmbio de pessoal e exercícios conjuntos.

Os dois países também discutem cooperação na indústria de defesa. Os acordos incluem uma fábrica conjunta de munições, com previsão de funcionamento a partir de 2027.

Para Estevam, essa dimensão não deve ser analisada isoladamente do ambiente regional.

“É um acordo que pode contribuir para gerar uma maior estabilidade nessa região, que tem sido bastante instável”, avalia o internacionalista.

O professor relaciona essa instabilidade tanto à presença norte-americana quanto aos conflitos territoriais existentes no Pacífico.

Mar do Sul

O Mar do Sul da China concentra algumas das disputas mais delicadas da Ásia.

Pequim reivindica grande parte dessas águas, enquanto Filipinas, Vietnã, Malásia, Brunei e a própria Indonésia possuem interesses ou reivindicações em áreas que se sobrepõem às pretensões chinesas.

“Existem disputas territoriais na região do Pacífico, particularmente no Mar do Sul da China”, recorda Estevam.

A Indonésia não se apresenta formalmente como parte das principais disputas territoriais do Mar do Sul da China, mas já registrou confrontos diplomáticos envolvendo a presença chinesa próxima às Ilhas Natuna, dentro da zona econômica exclusiva reivindicada por Jacarta.

Por isso, uma aproximação militar entre os dois países chama atenção: ela ocorre ao mesmo tempo em que permanecem diferenças sobre determinadas áreas marítimas.

Na reunião ministerial de agosto, Pequim e Jacarta defenderam a ampliação da cooperação em segurança marítima e a manutenção das principais rotas de navegação.

Sem aliança

Apesar dos avanços, chamar a relação atual de aliança militar seria prematuro. A Indonésia mantém historicamente uma política externa de não alinhamento e continua desenvolvendo cooperação de defesa com os Estados Unidos e outros países ocidentais.

A demonstração mais recente ocorreu poucos dias depois dos acordos com Pequim.

Em 31 de agosto, Indonésia e Estados Unidos iniciaram o exercício militar Super Garuda Shield, que reúne mais de 4,7 mil militares de 15 países, entre eles Japão, Coreia do Sul, Austrália e Canadá.

As atividades incluem operações navais, defesa cibernética, combate em selva e lançamentos de mísseis.

Jacarta aumenta a cooperação militar com a China enquanto simultaneamente mantém exercícios de grande escala com Washington.

Essa estratégia permite ao governo indonésio evitar uma escolha explícita entre os dois lados.

Influência chinesa

O cenário pode mudar caso essa aproximação se torne mais profunda e duradoura.

“Se a estratégia se concretizar, de uma maior aproximação da China com relação aos Estados do Sudeste Asiático, isso pode alterar o quadro geopolítico regional”, projeta Estevam.

Pequim também precisa administrar disputas com Índia, Filipinas, Vietnã e outros vizinhos para transformar sua força econômica em influência política mais estável.

“Ainda mais se conseguir dirimir os seus litígios territoriais e disputas geopolíticas com a Índia, com a Indonésia e com os demais países da região”, pondera o professor.

Nesse cenário, o crescimento da influência chinesa deixaria de ser apenas comercial.

“Isso pode levar a uma maior influência não só econômica, mas também política e, quem sabe, até mesmo militar da China com relação aos seus vizinhos”, aponta o especialista.

Reação americana

Essa expansão ocorreria diretamente em uma região considerada estratégica pelos Estados Unidos.

Washington mantém alianças formais com Japão, Coreia do Sul e Filipinas, além de parcerias militares importantes com Austrália e Indonésia.

Estevam avalia que uma aproximação mais profunda entre Pequim e Jacarta poderia produzir uma reação do governo americano.

“Com relação aos Estados Unidos, a gente tem visto cada vez mais uma tendência a uma resposta mais unilateral”, analisa o professor.

Para ele, a política externa do governo Donald Trump tem demonstrado disposição para utilizar instrumentos econômicos como forma de pressão.

“Ele tem buscado minar quaisquer esforços de cooperação de longo prazo entre os países com a China”, afirma Estevam.

O professor cita a possibilidade de instrumentos comerciais entrarem nessa disputa caso Jacarta avance para uma parceria mais abrangente com Pequim.

“Existe a possibilidade de se ter uma reação por parte do governo Trump, principalmente na geração de sanções comerciais ou de uma retirada de assistência militar secundária dos Estados Unidos”, considera o internacionalista.

Até agora, entretanto, Washington segue aprofundando sua própria relação militar com a Indonésia.

O Super Garuda Shield de 2026 ocorre após o anúncio, em abril, de uma nova parceria de defesa que prevê apoio americano à modernização das Forças Armadas indonésias e ao treinamento de militares.

Disputa equilibrada

A posição da Indonésia demonstra por que a competição na Ásia não se resume à formação de dois blocos fechados.

Jacarta pode comprar, investir e cooperar com a China sem abandonar exercícios militares com os Estados Unidos.

Da mesma forma, pode aprofundar relações de defesa com Washington sem romper seus vínculos econômicos com Pequim.

Essa flexibilidade oferece à Indonésia maior capacidade de negociação.

Para China e Estados Unidos, porém, significa disputar continuamente a preferência de um dos países mais importantes do Sudeste Asiático.

Recuo americano

Para Estevam, o ponto de inflexão ocorreria caso a China consiga ampliar de forma duradoura sua influência sobre vários países do Sudeste Asiático enquanto os Estados Unidos perdem capacidade de atuação regional.

“Isso diminuiria ainda mais o raio de influência norte-americana na região”, avisa o professor.

Desde o governo Barack Obama, Washington tenta aumentar o peso diplomático, econômico e militar dos Estados Unidos na Ásia por meio da estratégia que ficou conhecida como Pivot to Asia, posteriormente incorporada a políticas mais amplas para o Indo-Pacífico.

“Se essa situação se prolongar no longo prazo, marcaria um importante recuo, uma importante perda para a política do Pivot to Asia inaugurada durante o governo Obama”, conclui Estevam.

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