Geopolítica

Brasil é realmente soberano em 2026?

Professor aponta fertilizantes, tecnologia, medicamentos e defesa como pontos de vulnerabilidade em um cenário internacional mais conflituoso

Soberania Nacional
Dependência de poucos fornecedores pode transformar relações comerciais em vulnerabilidades estratégicas para o Brasil Foto: creative commons

A independência política conquistada pelo Brasil em 1822 resolveu apenas uma parte do que significa ser um país soberano.

Mais de dois séculos depois, a capacidade de decidir os próprios rumos também depende de algo menos visível: quem fornece os insumos necessários para que a economia, a produção de alimentos, a tecnologia, a saúde e a defesa continuem funcionando em uma crise internacional.

Para o advogado e professor de Direito Constitucional e Internacional Luiz Philipe Ferreira de Oliveira, mestre e doutor em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), discutir soberania em 2026 exige olhar para essas dependências.

“A independência política conquistada em 1822 não eliminou a necessidade de o Brasil se integrar nas cadeias globais de produção”, contextualiza Oliveira.

Essa integração permitiu ao país construir relações comerciais com diferentes potências e participar de cadeias internacionais de produção.

O problema aparece quando setores considerados essenciais ficam excessivamente dependentes de fornecedores externos.

“Hoje o país tem autodomínio em alguns setores estratégicos, como a produção de alimentos, petróleo e energia renovável, mas, em vários outros, continua muito dependente”, avalia o professor.

Soberania prática

Soberania, nessa perspectiva, não significa produzir absolutamente tudo dentro das próprias fronteiras ou romper relações comerciais.

O desafio está em evitar que uma interrupção externa seja suficiente para comprometer atividades essenciais dentro do país.

“A dependência do Brasil de outros países sempre foi vista como, na verdade, um relacionamento estratégico com esses países, numa correlação muito sustentável que o Brasil sempre teve com outras nações”, recorda o especialista.

Essa interpretação, porém, passou a enfrentar um cenário internacional diferente daquele no qual muitas dessas relações foram construídas.

Guerras, disputas comerciais, sanções econômicas e tensões entre grandes potências aumentaram o risco de interrupções em cadeias produtivas.

“As relações geopolíticas mudaram muito nos últimos anos e, em especial, nos últimos meses. O mundo está mais bélico, o mundo está mais conflituoso”, alerta Oliveira.

Fertilizantes preocupam

Entre todas as dependências brasileiras, uma aparece para o professor como especialmente sensível, os fertilizantes utilizados pelo agronegócio.

“O ponto de vulnerabilidade mais evidente, para mim, parece ser a questão dos fertilizantes, porque eles são fundamentais para o agronegócio, que é o carro-chefe, o ponto mais forte da nossa economia”, destaca o advogado.

O diagnóstico encontra respaldo nos próprios documentos do governo federal. O Plano Nacional de Fertilizantes reconhece que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados e classifica a elevada dependência externa como uma vulnerabilidade para uma economia fortemente apoiada no agronegócio.

Dados do Banco Central referentes a 2025 também mostram concentração relevante entre fornecedores.

A Rússia respondeu por 25,9% das importações brasileiras de fertilizantes, seguida pela China, com 18,8%. O Oriente Médio representou outros 14,5%.

“Em um mundo mais bélico e mais conflituoso, aquelas relações que antes a gente olhava como produtivas, como de amizade, como de interdependência, hoje demonstram fragilidade de autonomia”, pondera o professor.

Poucos fornecedores

A preocupação não está apenas em importar, mas em depender de poucos países para produtos essenciais.

Oliveira identifica China, Rússia, Índia, Estados Unidos e Canadá entre os países com papel importante em diferentes cadeias brasileiras.

“Na China, a gente tem uma questão de fornecimento de produtos tecnológicos e industriais muito relevante. Na Rússia, são ainda combustíveis e insumos para fertilizantes”, enumera o especialista.

A lista se estende para outras áreas.

“Na Índia, a gente recebe muito produto farmacêutico. Nos Estados Unidos, são questões ainda vinculadas à tecnologia e todo o aparato de defesa. E o Canadá também fornece potássio, que é relevantíssimo para fertilizantes”, acrescenta Oliveira.

A relação farmacêutica com a Índia permanece relevante em 2026. Em fevereiro, por exemplo, Brasil e Índia ampliaram a cooperação regulatória e a Anvisa aprovou fabricantes indianos de insumos destinados a medicamentos utilizados contra diferentes doenças.

Risco concentrado

A concentração cria um problema adicional, uma crise localizada em um fornecedor pode produzir efeitos a milhares de quilômetros de distância.

“Parece que o maior risco do Brasil está na questão de que nós temos os nossos fornecedores muito concentrados em poucos lugares”, observa o internacionalista.

Uma guerra, embargo, desastre ou ruptura diplomática não precisa ocorrer dentro do território brasileiro para afetar a produção nacional.

“Num cenário geopolítico complexo, de possibilidade de rupturas, até mesmo de guerras, o atingimento de um desses fornecedores praticamente zera as nossas cadeias de entrada”, explica Oliveira.

É justamente essa possibilidade que transforma uma discussão econômica em questão de soberania.

Tecnologia dependente

Outro ponto de atenção está na capacidade tecnológica. Semicondutores, equipamentos eletrônicos, softwares, infraestrutura digital e componentes industriais passaram a ocupar um papel semelhante ao de recursos tradicionalmente considerados estratégicos.

Essa dependência ganha relevância à medida que serviços públicos, instituições financeiras, empresas, telecomunicações e estruturas de defesa ficam cada vez mais conectados a tecnologias produzidas ou controladas fora do país.

Autonomia deixa de significar apenas possuir território e instituições próprias. Passa a envolver também capacidade tecnológica para manter essas estruturas funcionando.

Defesa nacional

O terceiro setor apontado por Oliveira é a defesa. O governo federal classifica oficialmente a Base Industrial de Defesa como estratégica para a soberania, proteção territorial e autonomia tecnológica brasileira.

A política industrial do setor busca ampliar a capacidade nacional de desenvolver tecnologias de alta complexidade.

“A área de defesa também não pode ser negligenciada, porque a gente depende muito da produção armamentícia externa e, no atual cenário geopolítico, a área de defesa ganhou uma importância muito grande”, ressalta o advogado.

O Brasil possui empresas capazes de disputar mercados internacionais, especialmente no segmento aeroespacial, mas isso não elimina a necessidade de componentes, tecnologias e sistemas produzidos no exterior.

“Apesar de empresas como a Embraer também produzirem elementos de defesa, não é suficiente para exaurir a nossa dependência”, adverte Oliveira.

Interdependência muda

A questão central não é considerar toda relação externa uma ameaça. Durante décadas, a especialização internacional permitiu que países comprassem de parceiros aquilo que seria mais caro ou menos eficiente produzir internamente.

O problema, segundo Oliveira, é que a mesma interdependência passa a ser vista de maneira diferente quando aumenta a possibilidade de uma ruptura.

“O que antes era uma interdependência, agora a gente olha como falta de autonomia”, resume o professor.

Essa mudança ajuda a explicar por que temas como produção de fertilizantes, semicondutores, medicamentos, energia e equipamentos militares passaram a aparecer com frequência nas estratégias industriais de diferentes governos.

Mais fornecedores

Para Oliveira, uma das respostas mais rápidas não depende necessariamente de substituir importações por produção brasileira em todos os setores.

“O caminho seria, principalmente nesses setores mais necessários e estratégicos, já iniciar transações para termos fornecedores variados, não sermos tão dependentes de fornecedores exclusivos”, propõe o especialista.

A lógica é semelhante à de uma carteira de investimentos, quanto maior a concentração, maior o impacto causado por um único problema.

A diversificação, entretanto, resolve apenas parte da vulnerabilidade.

Autonomia brasileira

No longo prazo, Oliveira defende que o Brasil possui capacidade para produzir internamente uma parcela maior daquilo que considera estratégico.

“O Brasil tem plenas condições de reduzir qualquer espécie de dependência e aumentar sua autonomia”, sustenta o professor.

Essa transformação, porém, não ocorre apenas por decisão administrativa.

“Muitos dos setores que se trata como dependentes do Brasil demandam um planejamento estratégico da nação e investimentos para que possam construir essa autonomia num processo de médio a longo prazo”, esclarece Oliveira.

A produção nacional pode exigir infraestrutura, pesquisa científica, formação profissional, indústria, financiamento e participação conjunta do Estado e da iniciativa privada.

“Tudo isso depende muito da existência da vontade política da nação de ter essa autonomia em determinado setor e de investimentos públicos e privados”, enfatiza o advogado.

Prioridades brasileiras

Na avaliação de Oliveira, dois setores deveriam receber atenção especial diante do cenário internacional atual.

O primeiro é justamente aquele responsável por uma parcela importante das exportações e da produção brasileira de alimentos.

“O que há de mais forte no nosso comércio, que é o nosso agronegócio, precisa ser mais autônomo, e ele ainda é muito dependente de fertilizantes externos”, pontua o professor.

O Plano Nacional de Fertilizantes segue justamente uma estratégia de longo prazo, até 2050, voltada à expansão da produção doméstica, pesquisa, inovação e redução da dependência das importações.

A outra prioridade está diretamente associada à capacidade de um Estado proteger o próprio território.

“Em um mundo mais belicoso, o país precisa, sim, se preocupar com questões de defesa da nação”, defende Oliveira.

Para o professor, soberania em 2026 não exige isolamento econômico, mas capacidade de atravessar crises externas sem perder condições básicas de funcionamento.

“Ser autônomo na nossa produção de alimentos garante tanto internamente quanto externamente a manutenção do agronegócio, mas, dado o cenário geopolítico atual do mundo, também é necessário investimento em defesa”, conclui o internacionalista.

Siga O Brasilianista!