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Geopolítica

O Brasil não tem plano concreto para a negociação com os EUA

As conversas começam nesta segunda-feira (31), mas a ideia central não é oferecer proposta estruturada de concessões

Lula e Trump
O Brasil não pretende levar uma proposta concreta para aumentar a lista de produtos isentos do tarifaço (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, entram em reunião virtual nesta segunda-feira (31) para dar início a uma nova rodada de negociação sobre o tarifaço.

O telefonema entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump no último dia 21 destravou as conversas novamente entre os países. O Brasil não pretende levar uma proposta concreta para aumentar a lista de produtos isentos do tarifaço que pode chegar a 37,5% sobre exportações brasileiras.

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Em reunião da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) realizada na semana passada, o ministro relatou que a ideia central seria primeiro retomar o diálogo. Só depois seriam definidos os caminhos da negociação. O representante explicou que um eventual acordo pode envolver negociação por setores, listas de produtos, diferentes regras para diferentes segmentos e definição das "regras do jogo" do comércio bilateral.

Ele ainda mencionou que a retomada de contato não seria possível sem o telefonema de Lula à Trump, ou sem uma oferta inicial. A posição oficial do Brasil é de que o país não aceita as tarifas porque são consideradas "indevidas" e "abusivas", mas há espaço para negociar. 

Rosa também destacou que será um diálogo difícil, mas que o "caminho a percorrer" já é conhecido. 

"Nós não vamos propor nada que não favoreça o interesse brasileiro. Jamais proporíamos algo que pudesse causar dano à economia nacional. Ao contrário, todo o esforço do governo é para reparar o dano que já foi nos causado. E o Brasil é muito maior, muito maior. E o seu povo muito mais altivo do que qualquer decisão unilateral e governo estrangeiro, ainda que seja um parceiro tão importante quanto os Estados Unidos com quem nós queremos cultivar a relação", afirmou.

A reunião deve contar também com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A expectativa é de que seja firmado um bom acordo. 

"A lei de reciprocidade está na mesma mesa, de negociação", reiterou Rosa.

Setores em negociação

O ministro citou como exemplos setores que poderiam entrar numa negociação ampla. São eles:

  • máquinas;
  • bens industriais;
  • químico;
  • autopeças;
  • etanol;
  • açúcar;
  • defensivos agrícolas;
  • fertilizantes.

Ou seja, a visão apresentada é de que não seria uma negociação simples sobre uma única lista de produtos, mas potencialmente um acordo comercial muito mais amplo. De toda forma, ele reiterou que a pasta busca a diversificação de mercados para ficar cada vez menos refém de sanções como a dos EUA.

"O Brasil aumentou as suas exportações a ponto decontemporizar um pouco o dano que causa a redução dos Estados Unidos. Então, o caminho é esse, é socorrer minimamente as nossas empresas, é promover a negociação com altiveis e cabeça erguida, porque o país não vai sucumbir e, obviamente, está aberto para eventual acordo", disse.

Os interesses da cada lado

Conforme O Brasilianista mostrou nesta reportagem, o objetivo imediato brasileiro com a conversa é bastante claro: reduzir as tarifas americanas, ampliar as exceções e diminuir os prejuízos para setores exportadores brasileiros. 

Por outro lado, a agenda americana coloca sobre a mesa questões relacionadas ao comércio digital, sistemas de pagamentos, propriedade intelectual, etanol, meio ambiente e outras políticas brasileiras. Portanto, os Estados Unidos tentarão transformar eventual redução tarifária em moeda de troca.

Lula e Trump protagonizam um simbolismo relevante nesse momento. Os dois presidentes possuem estilos políticos muito diferentes, mas compartilham uma característica importante: ambos compreendem profundamente o valor político de uma negociação apresentada como vitória pessoal.

Segundo especialista, Trump gosta da imagem do negociador que for seu adversário a fazer concessões. Já Lula gosta da imagem do estadista capaz de conversar com qualquer liderança internacional e defender os interesses brasileiros. 

Isso significa que um eventual encontro entre os dois poderá ser muito mais do que uma reunião diplomática, mas transformar-se numa disputa narrativa. Há três possíveis cenários para essa negociação:

  • Acordo parcial: primeiro e mais provável no curto prazo, infere que algumas tarifas serão reduzidas, algumas exceções são ampliadas e grupos técnicos continuam negociando;
  • Grande acordo político: Trump oferece uma redução significativa das barreiras e o Brasil oferece concessões específicas em determinadas áreas;
  • Fracasso das negociações: nesse caso, haveria manutenção das tarifas, aprofundamento da disputa jurídica e possibilidade de medidas brasileiras de reciprocidade.

O primeiro cenário é mais plausível neste momento, visto que permite que os dois governos digam que houve progresso, sem exigir grandes concessões imediatas de nenhum lado.

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