A tentativa de permanecer distante das disputas entre Estados Unidos, China e Rússia tornou-se mais complexa à medida que a competição entre as grandes potências deixou de se concentrar apenas em alianças militares e conflitos armados.
Hoje, decisões sobre comércio, tecnologia, energia, investimentos e até plataformas digitais podem aproximar um país de determinado centro de poder, mesmo quando sua diplomacia procura preservar relações com diferentes lados.
Para Mariana Malta, mestra e doutoranda em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP) e professora de Relações Internacionais na Universidade Anhembi Morumbi, ainda existe espaço para políticas externas independentes.
“Um país pode evitar alianças militares, não participar diretamente de conflitos, manter relações comerciais com diferentes potências, adotar posições independentes em organismos multilaterais e cooperar com instituições e fóruns que reúnem países com interesses antagônicos”, explica a professora.
A dificuldade aparece quando essa postura diplomática é confrontada com as dependências econômicas e estratégicas construídas ao longo do tempo.
Neutralidade limitada
Manter canais abertos com diferentes governos não significa, necessariamente, possuir liberdade para contrariá-los.
Um país pode adotar uma postura formalmente equilibrada e, ainda assim, depender fortemente de uma potência em setores considerados essenciais.
“Na prática, porém, neutralidade não significa necessariamente autonomia”, ressalta Malta.
Exportações agrícolas, fertilizantes, energia, equipamentos militares e novas tecnologias estão entre os setores capazes de limitar essa independência.
A avaliação da especialista é que a disputa internacional contemporânea precisa ser observada para além das declarações diplomáticas ou da participação direta em guerras.
“A competição contemporânea entre as grandes potências não ocorre apenas no campo militar ou diplomático. Ela envolve cadeias produtivas, padrões tecnológicos, moedas, plataformas digitais, investimentos e controle de recursos estratégicos”, destaca a pesquisadora.
Nesse cenário, saber com quem determinado país mantém boas relações deixa de ser suficiente para compreender sua posição no tabuleiro internacional.
“A questão fundamental para compreender o posicionamento de um país é: de quais potências ele depende, em quais setores, e qual é o custo de contrariar seus interesses?”, questiona Malta.
Pressão econômica
As grandes potências também dispõem de mecanismos para elevar o custo político ou econômico das decisões tomadas por governos estrangeiros.
No comércio, tarifas, embargos, restrições às importações e novas exigências regulatórias podem funcionar como instrumentos de pressão. Na área financeira, entram sanções econômicas e congelamento de ativos.
“As grandes potências podem utilizar diferentes instrumentos para pressionar outros países e aumentar sua capacidade de influência”, afirma a professora.
A tecnologia passou a ocupar um espaço particularmente importante nessa disputa. Semicondutores, inteligência artificial e satélites são setores estratégicos tanto para a economia quanto para a segurança nacional.
“Na área tecnológica, a disputa envolve o controle de tecnologias estratégicas, como semicondutores, inteligência artificial e satélites”, aponta Malta.
Na segurança, a influência pode aparecer por meio da venda de armamentos, acordos militares e compartilhamento de inteligência.
Já na diplomacia, coalizões e negociações dentro de organismos internacionais ajudam a ampliar ou restringir o espaço de atuação de diferentes governos.
O objetivo nem sempre é obrigar diretamente um país a romper com um dos lados.
“As potências podem aumentar os custos de determinadas escolhas e, ao mesmo tempo, oferecer benefícios para manter ou aproximar um país de sua área de influência”, observa a especialista.
Margem brasileira
Países como Brasil, Índia e Indonésia procuram justamente evitar uma vinculação exclusiva a um único polo de poder.
A estratégia permite negociar simultaneamente com governos que competem entre si, mas não os protege completamente de retaliações.
“Esses países conseguem manter relações estratégicas com diferentes potências, mas não estão livres de pressões e retaliações”, pondera Malta.
Para a professora, o objetivo desses governos costuma ser preservar a capacidade de negociação diante das rivalidades internacionais.
“Em linhas gerais, sua estratégia consiste em evitar compromissos exclusivos e aproveitar a rivalidade entre as potências para ampliar sua própria margem de negociação e preservar sua autonomia estratégica”, analisa a pesquisadora.
O Brasil é um exemplo dessa tentativa de equilíbrio. A China ocupa uma posição central nas relações comerciais brasileiras, enquanto os Estados Unidos continuam relevantes para investimentos, tecnologia, comércio e diplomacia.
Paralelamente, Brasília participa do BRICS e mantém atuação em organismos multilaterais.
“Tanto a China quanto os Estados Unidos ocupam posições importantes na política externa brasileira”, reforça Malta.
A capacidade de lidar com os dois países, portanto, depende menos de uma neutralidade absoluta e mais da redução de vulnerabilidades.
Dependências diversas
Diversificar parceiros pode se tornar uma das principais ferramentas para países que desejam preservar espaço de decisão em um cenário de rivalidade crescente.
Isso significa evitar que áreas essenciais da economia dependam exclusivamente de um único mercado, governo ou fornecedor.
“No contexto atual, uma estratégia fundamental é a diversificação de dependências, ou seja, evitar que o país se torne excessivamente dependente de um único mercado, fonte de financiamento, tecnologia ou parceiro estratégico”, explica a professora.
Essa estratégia não elimina relações de dependência, mas pode dificultar que uma potência concentre instrumentos suficientes para pressionar determinado governo.
“Essa diversificação não elimina as relações de dependência, mas reduz vulnerabilidades e amplia a margem de manobra do país diante das pressões externas”, acrescenta Malta.
A lógica também altera a ideia tradicional de que autonomia significa simplesmente manter boas relações com todos.
“O ponto principal não é simplesmente manter relações com todos, mas construir relações suficientemente diversificadas para conseguir preservar a autonomia e resistir a pressões”, enfatiza a especialista.
Blocos flexíveis
Apesar do aumento das tensões internacionais, Malta não vê como cenário mais provável uma reprodução direta da divisão rígida que marcou a Guerra Fria.
Em vez de dois grandes blocos, países podem construir alianças diferentes conforme seus interesses em comércio, defesa, tecnologia ou energia.
“A tendência mais provável não é um retorno a blocos rígidos, mas sim um sistema multipolar fragmentado e pragmático, em que países vão negociar com diferentes parceiros, de acordo com o setor”, projeta a professora.
Essa configuração pode abrir oportunidades especialmente para potências médias capazes de oferecer recursos, mercados ou posições estratégicas importantes para diferentes lados.
“Nesse contexto, as potências médias podem ampliar seu poder de barganha, principalmente em setores estratégicos nos quais existe forte interdependência”, avalia Malta.
O resultado tende a ser um cenário internacional com alianças menos permanentes e disputas que variam conforme o tema.
“É possível que se estabeleçam múltiplos centros de poder, alianças variáveis e disputas por influência”, prevê a pesquisadora.
Nesse ambiente, a neutralidade absoluta pode se tornar cada vez mais difícil. A autonomia, no entanto, continuará possível para países capazes de identificar onde estão suas maiores dependências e reduzir os riscos associados a elas.
“A capacidade de preservar autonomia dependerá cada vez mais da habilidade diplomática de diversificar relações e da capacidade política de diagnosticar e reduzir vulnerabilidades estratégicas”, conclui Mariana Malta.
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