O Brasil completa 204 anos de Independência em 2026 como uma das maiores economias do mundo, grande produtor de alimentos e dono de uma extensa base de recursos naturais.
A soberania política conquistada em 1822, porém, não significa que o país consiga funcionar sem depender de outras nações.
Fertilizantes utilizados pelo agronegócio, medicamentos, equipamentos tecnológicos e componentes relacionados à defesa continuam conectando setores estratégicos brasileiros a fornecedores estrangeiros.
Para Rogério Mehanna, mestre e advogado eleitoral, essa dependência não surgiu necessariamente como uma fragilidade.
Durante décadas, ela fez parte de uma escolha de inserção em uma economia internacional cada vez mais integrada.
“O Brasil sempre optou por um caminho de interdependência nas relações comerciais com outros países”, contextualiza Mehanna.
Escolha brasileira
A estratégia consistia em produzir internamente aquilo em que o país tinha maior capacidade e recorrer ao mercado internacional para determinados produtos, tecnologias e insumos.
“O Brasil privilegiou trazer de fora alguns insumos e produtos de consumo, buscando essa relação com outras nações”, recorda o advogado.
Nesse modelo, importar não representava necessariamente perda de soberania. Era uma consequência da própria globalização e da divisão internacional das cadeias produtivas.
A diplomacia brasileira também permitiu ao país manter relações simultâneas com economias que, muitas vezes, disputavam influência entre si.
“Isso sempre foi reforçado pela excelência da diplomacia brasileira, que, num cenário de mundo globalizado e comércio amplo, era muito bem-vinda”, ressalta Mehanna.
O problema aparece quando a estabilidade necessária para sustentar essa estratégia começa a desaparecer.
Mundo diferente
Guerras, sanções econômicas, disputas tarifárias e conflitos entre grandes potências alteraram a maneira como governos observam suas cadeias de abastecimento.
“O mundo e a geopolítica mundial têm mudado muito de um tempo para cá, e isso tem posto novos desafios para a nação”, avalia o especialista.
Uma relação econômica construída sob a expectativa de estabilidade pode adquirir outro significado quando existe risco real de interrupção no fornecimento.
“Algumas coisas que eram estratégia de intercomunicação e de interdependência passam a virar zonas de risco”, adverte Mehanna.
Para o advogado, uma das maiores fragilidades surge quando o país não apenas importa determinado insumo, mas concentra suas compras em poucos mercados.
Essa situação reduz as alternativas disponíveis caso um fornecedor seja atingido por guerra, sanções, problemas logísticos ou uma ruptura diplomática.
De quem depende
Entre as economias que ocupam posições relevantes nas cadeias brasileiras, Mehanna cita algumas das maiores potências globais.
“No cenário atual, o Brasil é muito dependente da China, da Índia, do Canadá, dos Estados Unidos e da Rússia”, enumera o professor.
Cada relação, entretanto, possui características diferentes.
A China é uma das principais origens de produtos industriais e tecnológicos adquiridos pelo Brasil.
A Índia ocupa posição relevante na indústria farmacêutica internacional. Rússia e Canadá possuem importância particular na cadeia de fertilizantes, enquanto os Estados Unidos aparecem em setores tecnológicos e de defesa.
“Essa dependência está muito fortemente localizada no setor de medicamentos e no setor de fertilizantes”, destaca Mehanna.
Fertilizantes externos
É justamente no campo que uma das contradições da autonomia brasileira fica mais evidente.
O país está entre os maiores produtores agrícolas do planeta, mas depende fortemente de produtos estrangeiros para manter essa produção.
O próprio Plano Nacional de Fertilizantes reconhece que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.
O governo considera que o elevado nível de dependência deixa a economia nacional vulnerável às oscilações internacionais.
Soja, milho e cana-de-açúcar, três produtos fundamentais para o agronegócio brasileiro, respondem juntos por mais de 73% do consumo desses insumos no país.
Para Mehanna, é exatamente esse tipo de situação que passou a exigir uma mudança de planejamento.
“Isso tudo gera uma situação que o Brasil não tem como resolver a curto prazo”, pondera o mestre em Direito.
Sem solução rápida
Construir autonomia em setores estratégicos exige mais do que simplesmente decidir interromper uma importação.
Há cadeias produtivas, infraestrutura, tecnologia, capacidade industrial e investimentos acumulados durante décadas por diferentes países.
“Para solucionar essa dependência dessa produção, o Brasil precisa planejar essa saída e começar a dar os primeiros passos para uma autonomia”, explica Mehanna.
O Plano Nacional de Fertilizantes segue justamente uma estratégia de longo prazo, com horizonte até 2050, destinada a ampliar a produção doméstica e reduzir a vulnerabilidade provocada pelas importações. A discussão, entretanto, não termina no agronegócio.
Defesa nacional
A mudança no ambiente internacional também recolocou a defesa entre os temas relacionados à soberania.
Por décadas, o Brasil conseguiu manter sua política externa sem transformar preparação para conflitos militares em uma das principais preocupações nacionais.
“O Brasil sempre foi tido como um país pacífico, um país que nunca teve muitos investimentos militares”, observa o advogado.
A multiplicação de conflitos internacionais modificou a percepção sobre o risco de depender de outros países também nesse setor.
“Num mundo onde as relações geopolíticas se modificaram tanto, estar com condições de defesa e estar bem equipado é essencial”, enfatiza Mehanna.
O país possui uma indústria própria de defesa e empresas com alcance internacional, especialmente no setor aeroespacial.
A Embraer, por exemplo, desenvolve aeronaves utilizadas por forças militares no Brasil e no exterior.
Isso, porém, não significa independência completa de tecnologias, sistemas e componentes estrangeiros.
“Apesar da Embraer produzir aviões inclusive para defesa, é um outro aspecto onde o Brasil é muito dependente, aqui no caso dos Estados Unidos”, assinala o professor.
Interdependência virou risco
A questão colocada por Mehanna não é abandonar o comércio internacional.
A mudança está na avaliação sobre quanto de uma cadeia considerada indispensável pode permanecer concentrada fora do território brasileiro.
Uma estratégia que funcionava em um ambiente de estabilidade internacional pode apresentar limitações quando governos passam a utilizar tecnologia, energia, matérias-primas e comércio como instrumentos de pressão.
“Essa dependência foi construída estrategicamente e de maneira planejada, mas, no novo mundo, vira um outro desafio”, resume o especialista.
É nesse ponto que a discussão sobre independência deixa de ser apenas histórica.
Em 1822, soberania estava diretamente relacionada à separação política de Portugal e à capacidade de constituir um Estado próprio.
Em 2026, continua significando autonomia política, mas também envolve a capacidade de manter setores essenciais funcionando diante de uma crise externa.
Decisão política
Reduzir essas vulnerabilidades depende, segundo Mehanna, de uma escolha que ultrapassa um único governo.
Indústria nacional, pesquisa, infraestrutura e capacidade produtiva exigem planejamento de longo prazo e investimentos que podem levar anos para apresentar resultados.
“O país precisaria efetivamente encarar esse problema e tomar a decisão política de construir essa autonomia”, defende o advogado.
Parte desse processo não exige necessariamente que o Brasil passe a produzir internamente tudo o que consome. Diversificar fornecedores também diminui o risco provocado pela concentração.
Outra parcela, porém, dependerá da criação de capacidade doméstica em setores considerados essenciais.
“É preciso começar a dar os passos organizacionais e de investimento, muitos deles inclusive em infraestrutura”, projeta Mehanna.
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