Uma possível ligação entre financiamento eleitoral estrangeiro e interesses econômicos sobre minerais estratégicos brasileiros será investigada pela Polícia Federal (PF) por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em decisão assinada nesta terça-feira (27), o magistrado ordenou a abertura de um inquérito para apurar se a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) recebeu recursos, serviços ou outras vantagens de origem internacional.
A investigação também deverá examinar possíveis manipulações de algoritmos de redes sociais destinadas a favorecer ou prejudicar candidatos nas eleições de 2026.
A determinação integra a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1.178, originalmente apresentada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
O documento de 38 páginas identifica cinco frentes de apuração, que incluem a atuação da organização norte-americana Rockbridge Network, a circulação de publicidade eleitoral financiada no exterior e possíveis contrapartidas envolvendo terras raras.
Dino estabeleceu que a investigação tramitará sob supervisão do STF, diante da possibilidade de participação de integrantes do Congresso Nacional. ADPF 1178 27102026.pdf
Interesses minerais
Um dos pontos menos explorados da controvérsia envolve a possível relação entre apoio político internacional e acesso a recursos minerais brasileiros.
Na decisão, Dino determina que os investigadores identifiquem se houve propostas de financiamento vinculadas a interesses econômicos em terras raras e minerais críticos.
Esses materiais são utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos, sistemas de energia, veículos elétricos e tecnologias militares.
Sua exploração possui importância estratégica diante da disputa internacional por cadeias de produção e fornecimento.
O ministro determinou que a PF esclareça quem teria apresentado eventual proposta, a quem ela foi dirigida e qual seria a contrapartida oferecida.
A investigação também poderá examinar possíveis negociações de imóveis rurais, caso sejam identificados elementos relacionados à aquisição de terras por estrangeiros.
O documento ressalta que os recursos minerais pertencem à União e que sua exploração depende de autorização ou concessão, conforme a Constituição.
Rede americana
A Rockbridge Network, organização conservadora norte-americana cofundada pelo vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, aparece como um dos principais elementos da apuração.
Segundo a decisão, Tallis Gomes e Pedro Sang teriam participado de contatos relacionados à obtenção de apoio para a campanha de Flávio Bolsonaro.
A PF deverá verificar a natureza dessas negociações e se houve fornecimento de dinheiro, serviços, pessoal ou outros benefícios economicamente mensuráveis.
Empresários ligados à organização teriam prestado serviços de aconselhamento e elaborado relatórios relacionados à candidatura do senador.
A apuração identificou documentos sobre a possível instalação da Rockbridge no Brasil e a formação de um conselho de tecnologia.
Procurados pela Folha, os empresários negaram ter intermediado financiamento estrangeiro.
Gomes afirmou que não integrava formalmente a campanha, enquanto Sang sustentou que a estrutura brasileira da organização não chegou a funcionar. Flávio Bolsonaro também negou ter recebido recursos eleitorais do exterior.
O Intercept Brasil revelou documentos que previam a criação de um conselho formado por empresários internacionais para assessorar a candidatura.
Sang declarou ao veículo que o projeto não avançou e permaneceu apenas como proposta.
Publicidade estrangeira
Outra frente envolve publicações eleitorais remuneradas por perfis localizados fora do Brasil, especialmente conteúdos associados às previsões da Polymarket, plataforma de apostas sobre acontecimentos políticos e econômicos.
A suspeita foi apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo candidato Renan Santos e pelo Partido Missão.
Segundo a representação reproduzida na decisão, perfis estrangeiros divulgaram publicações pagas sobre a eleição presidencial brasileira, frequentemente associadas a previsões favoráveis a Flávio Bolsonaro.
Dino determinou a identificação dos contratantes, dos responsáveis pelos pagamentos e da origem dos recursos utilizados nessas publicações.
A investigação também deverá verificar se integrantes da campanha tinham conhecimento ou participaram das operações.
A legislação eleitoral brasileira proíbe o recebimento de recursos estrangeiros por partidos políticos.
Dependendo das circunstâncias, o financiamento indireto de propaganda também pode configurar irregularidade.
O ministro diferencia, entretanto, a manifestação política individual de estrangeiros de uma eventual operação organizada por entidades internacionais para influenciar o processo eleitoral.
Algoritmos eleitorais
Dino menciona documentos e reportagens sobre possíveis diferenças no tratamento dado aos candidatos pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, pertencentes à Meta.
Mensagens internas da empresa que indicavam restrições ao impulsionamento de publicações da campanha de Lula e recomendações indevidas de conteúdos associados a Flávio Bolsonaro.
A reportagem apontou que funcionários da companhia reconheceram problemas técnicos e inconsistências na aplicação das regras eleitorais.
O ministro também cita manifestações de especialistas das Nações Unidas e do Conselho de Supervisão da Meta sobre a necessidade de garantir tratamento igualitário às candidaturas.
No âmbito do TSE, a Procuradoria-Geral Eleitoral identificou descumprimentos de determinações judiciais relativas à apresentação de informações pela empresa, incluindo relatórios sobre publicidade eleitoral e ferramentas de inteligência artificial.
A PF deverá investigar especificamente se ocorreram manipulações intencionais dos algoritmos para beneficiar ou prejudicar candidatos.
Investigação separada
Apesar de reconhecer a relação temática entre os fatos apresentados e a ADPF 1.178, Dino rejeitou o pedido do Partido dos Trabalhadores para ingressar no processo como amicus curiae, modalidade de participação destinada a entidades que contribuem com informações e argumentos em julgamentos.
O ministro considerou que as suspeitas eleitorais exigem procedimentos próprios, sem ampliar o objeto original da ação, que discute os efeitos de determinações estrangeiras sobre a soberania brasileira.
Além do inquérito policial, a decisão foi encaminhada a instituições como Banco Central, Coaf, Receita Federal, Abin, Ministério das Relações Exteriores, Ministério de Minas e Energia e Agência Nacional de Mineração.
Esses órgãos deverão avaliar eventuais providências dentro de suas competências.
O diretor-geral da Polícia Federal deverá informar ao STF o número do inquérito instaurado. A Procuradoria-Geral da República também receberá ciência da decisão.
Os Bolsonaro e os EUA
A relação da família Bolsonaro com os Estados Unidos começou a ganhar novos contornos após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022.
Em 30 de dezembro daquele ano, o então presidente embarcou para Orlando, na Flórida, dois dias antes de deixar o cargo.
Posteriormente, a Polícia Federal concluiu, no relatório sobre a trama golpista, que a viagem teve como objetivo evitar uma possível prisão e aguardar o desfecho dos atos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Bolsonaro retornou ao Brasil em março daquele ano e, em setembro de 2025, foi condenado pelo STF a 27 anos de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado.
O caminho americano foi retomado por Eduardo Bolsonaro em março de 2025. O então deputado federal se mudou para os Estados Unidos alegando perseguição política e passou a atuar junto a integrantes do governo de Donald Trump para pressionar autoridades brasileiras.
A articulação coincidiu com a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, restrições de vistos e sanções contra integrantes do Supremo.
Segundo a Procuradoria-Geral da República, Eduardo buscava interferir no julgamento do pai.
Em junho de 2026, o STF o condenou a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo.
Após o esgotamento dos recursos, Alexandre de Moraes determinou a expedição de mandado de prisão em 8 de outubro. Eduardo permanece nos Estados Unidos.
A atuação internacional também expôs divergências entre os irmãos. Enquanto Eduardo reivindicava a pressão econômica americana como instrumento contra o Judiciário brasileiro, Flávio Bolsonaro procurava afastar sua campanha dos efeitos políticos das tarifas.
O senador afirmou ter pedido a Trump, ao vice-presidente J.D. Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio que não penalizassem empresas brasileiras e criticou manifestações do irmão favoráveis às medidas comerciais.
As diferenças indicavam estratégias distintas para a relação com Washington, embora não comprovassem um rompimento familiar.
Uma investigação da Reuters, identificou uma atuação de integrantes do governo Trump para favorecer o retorno da família Bolsonaro ao poder.
Segundo dez autoridades e ex-integrantes do governo americano ouvidos pela agência, Darren Beattie e Ricardo Pita participaram de articulações que inicialmente buscavam beneficiar Jair Bolsonaro e, posteriormente, passaram a favorecer a candidatura de Flávio.
A reportagem apontou ainda movimentos para desencorajar contatos diplomáticos com outros candidatos conservadores brasileiros.
A Casa Branca não comentou as informações, enquanto o Departamento de Estado afirmou que suas medidas buscavam proteger interesses americanos.
A derrota de Flávio no segundo turno, em 25 de outubro, produziu outra divergência pública.
Durante a campanha, o senador havia declarado que respeitaria o resultado das urnas. Eduardo, entretanto, divulgou um vídeo na segunda-feira (26) pedindo que a comunidade internacional não reconhecesse a vitória de Lula e pressionasse pela anulação da eleição, alegando fraude sem apresentar provas.
Como mostrou O Brasilianista na noite de segunda-feira (26), Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina, após ser intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a entregar seu passaporte em até 24 horas.
A informação sobre a saída do senador foi inicialmente divulgada pelo portal argentino Infobae e confirmada pelo veículo com fontes próximas ao parlamentar.
Flávio teria passado por Puerto Iguazú, na Tríplice Fronteira, com destino aos Estados Unidos, onde está seu irmão Eduardo Bolsonaro.
Eduardo havia defendido publicamente, em 23 de outubro, que Flávio deixasse o país caso fosse derrotado por Lula.
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