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Justiça

Máfia dos Combustíveis funcionava no RJ graças à rede de blindagem mantida por propina, diz PF

Operação deflagrada pela PF nesta quinta-feira (15) culminou na prisão de Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo (RJ) eleito recentemente deputado estadual

Os argumentos do STF para soltar Márcio Canella
A PF aponta Canella como patrono e financiador do grupo, por supostamente operar o elo financeiro e político do esquema de R$ 7,6 bilhões
Investigação da Polícia Federal (PF) mostrou que a Máfia dos Combustíveis no Rio de Janeiro movimentava R$ 7,6 bilhões ao unir o setor de distribuição do insumo, as cúpulas das forças segurança pública e o sistema fiscalizatório do governo estadual e de diversas prefeituras fluminenses.
 
Os relatórios elaborados pela PF foram chancelados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e a operação desta quinta-feira (15), que culminou na prisão de Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo (RJ) e eleito deputado estadual recentemente, foi autorizada por Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
 
A PF aponta Márcio Canella como o patrono e financiador do grupo por operar o elo financeiro e político por meio da empresa Brumar Empreendimentos. Canella é investigado por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e porte ilegal de arma, após armamentos e munições serem apreendidas em sua residência.
 
A blindagem policial, por sua vez, corria por conta de Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário de Polícia Civil do Rio e ex-presidente do DETRAN/RJ. Amim garantia a salvaguarda institucional do grupo, recebendo repasses milionários disfarçados de consultoria através da Mamim Consultoria e aparecendo como sócio oculto na exploração de postos.

Tudo dominado

O que mais chamou a atenção da Polícia Federal foi o grau de infiltração nos órgãos de controle e na própria estrutura federal de investigação. A PF documentou que Fábio Henrique Ferreira dos Santos (o "Fábio Federal"), escrivão lotado na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários, vazava dados sigilosos de operações para Pablo Jukiá Felix Ferreira.
 
Ferreira, conhecido como "Pablo Russo", é apontado pela PF como operador de fato de mais de 20 postos em nome de laranjas como sua esposa, Luana Oliveira.  Para encobrir os rastros, Fábio utilizava aplicativos com mensagens autodestrutivas configuradas para expirar em 24 horas.
 
Na esfera estadual, a rede contava com Luiz Ricardo Estevam Lima (o "Tchetcheco Trindade", coordenador do Balcão do Consumidor do Procon-RJ e comissionado na Sedecon) e com o ex-servidor Edvaldo Ferreira Borges, o "Biscoito".
 
Eles repassavam cronogramas de fiscalização em primeira mão para que os postos burlassem as autuações, com intermediação direta do advogado Diogo Pacheco do Couto.
 
Diálogos interceptados mostram Diogo enviando alertas de última hora para Pablo Russo "adequar" as bombas, enquanto tratativas com Diogo Dantas Aguiar revelavam circuitos fechados de transferências sem lastro para irrigar contratos públicos da Opção Ativa.

A engenharia financeira contava com José Carlos Alves de Souza Júnior no controle do caixa e da contabilidade paralela, e com Gabriel da Silva Bastos (o "Calcinha"), encarregado de quitar despesas pessoais de Pablo Russo por meio de contas de terceiros.
 
Nas planilhas apreendidas, os pagamentos de propina apareciam endereçados sob o codinome "Meninos" aos irmãos e policiais civis Christiano Gaspar Fernandes, secretário de Ordem Urbana de Belford Roxo, e Giovanni Gaspar Fernandes, apontados como sócios ocultos da Gasmix Alcântara.
 
Anotações apreendidas pela Polícia Federal também colocam o delegado e ex-corregedor da Polícia Civil do Rio de Janeiro Glaucio Paz da Silva na rota dos repasses ilícitos feitos pela Máfia dos Combustíveis.

As empresas do esquema

Para sustentar a operação da máfia e mascarar a origem ilícita dos lucros obtidos com a venda ilegal de combustíveis, a organização estruturou uma complexa rede de empresas para lavagem o dinheiro e ocultar patrimônio.
 
No centro dessa engenharia estava a ADM OIL Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina Ltda., que funcionava como uma verdadeira "câmara de compensação" do grupo, segundo a PF.
 
As investigações da PF mostram que ADM OIL movimentou dezenas de milhões de reais ao centralizar repasses financeiros vindos dos postos de gasolina, distribuindo valores entre os investigados e armazenando grandes quantias em espécie em seus cofres.

Outro pilar de escoamento financeiro era a Opção Ativa Ltda., utilizada para movimentar verbas públicas de maneira atípica por meio de circuitos fechados de transferências. A empresa foi contratada sem licitação pelo Detran-RJ sob a gestão de Marcus Amim.
 
Na fachada corporativa pessoal dos líderes, destacavam-se a Mamim Consultoria Ltda. (de Marcus Amim e sua esposa), que recebia quantias mensais fixas (como R$ 70 mil da ADM Oil), e a Brumar Empreendimentos e Participações Ltda., constituída por Márcio Canella e Bruno Viana de Souza para movimentar milhões em créditos sem origem lícita comprovada e repassar recursos a aliados.

A ocultação de patrimônio imobiliário e comercial apoiava-se em uma vasta rede de mais de 20 postos de combustíveis e empresas satélites (como Gasmix Alcântara, A.P.J. Alcântara, JR Posto, Rede CH4, Posto Pendotiba, Vitaserv, D.A.G.G. Tavares Projetos Estruturais, Fluscope, entre outras).
 
Formalmente, a propriedade desses postos era registrada em nome de "laranjas", com destaque para Luana Oliveira (esposa de Pablo Russo) e Luisi Correa Pinho, que acumulavam evoluções patrimoniais fulminantes superiores a R$ 60 milhões para blindar os reais beneficiários.
 
O esquema contava ainda com testas de ferro como o engenheiro Dimitri Tavares e com empresas de emissão de notas fiscais fictícias de serviços para injetar dinheiro limpo na teia criminosa, enquanto o capital excedente era fracionado em depósitos menores para burlar os órgãos de controle financeiro.

Evolução patrimonial

Segundo a Polícia Federal, a organização criminosa movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos. Esse montante foi usado como argumento para garantir o bloqueio de até R$ 700 milhões dos investigados.
 
Esse montante inclui imóveis, veículos de luxo e criptoativos. Também foram suspensas as atividades de 112 empresas, sendo 96 postos de combustíveis.
 
Além disso, a PF destacou ainda a rápida evolução do patrimônio declarado por Márcio Canella nos últimos anos. Dados levantados pela Polícia Federal junto à Justiça Eleitoral revelam uma variação de 870%:

Ano da EleiçãoCargoPatrimônio Declarado
2012Vereador de Belford RoxoR$ 465.452,90
2014Deputado EstadualR$ 2.010.000,00
2016Eleições MunicipaisR$ 1.280.000,00
2018Deputado EstadualR$ 2.210.000,00
2022Deputado EstadualR$ 3.770.000,00
2024Prefeito de Belford RoxoR$ 4.060.000,00
2026Deputado EstadualR$ 4.515.384,63
 
Segundo os relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e da PF, o descompasso entre os ganhos formais do parlamentar e a acumulação de ativos reforça a tese de que Canella atuaria como "patrono político" e operador do esquema.
 
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.
 
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